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10 de ago. de 2007

Medos Privados em Lugares Públicos

Em tempos de Shreks, Piratas do Caribe e Tranformers, é imprescindível procurar um filme nos cinemas com que se possa realizar uma “reeducação do olhar”.

Explico. O cinemão americano é de uma velocidade tal que ao espectador não sobra tempo algum para “acrescentar” algo à imagem, ou à cena. Tudo é explicado, mastigado. Dramas e emoções pré-fabricadas para assimilação passiva do público. Um tipo de cinema que acaba por viciar nosso olhar, deixando-o mais preguiçoso, insensível e, em casos mais graves, realmente anestesiado.

Para tratamentos de reeducação da sensibilidade, portanto, sugiro Medos Privados em Lugares Públicos, filme ainda em cartaz, e pelo o que li fazendo uma boa carreira no circuito alternativo.

Com mais de oitenta anos o diretor Alain Resnais continua na ativa. Esse seu último filme ganhou o prêmio de direção no último festival de Berlim.

No inverno de Paris, diversos personagens vivem a procura de afeto, de algum alento em suas vidas. Da singeleza das histórias até a sutiliza das interpretações. Tudo coopera para que Medos Privados... nos ajude a relembrar o que é realmente belo ver dentro de uma sala escura. Uma experiência gratificante. Obrigado, Resnais.

8 de ago. de 2007

Bobby

Junto com seu irmão, John Kennedy, e com Martin Luther King, Robert Kennedy (Bobby) representou nos anos sessenta uma fagulha de esperança para os norte-americanos. O ator-diretor Emílio Estevez quer que seu filme nos faça recordar desse momento, em que o sonho de um Estados Unidos mais humano e tolerante parecia próximo da realidade.

Bobby passa-se inteiramente dentro do hotel Ambassador, acompanhando diversos personagens que presenciaram a morte do senador democrata, em junho de 1968.

O resultado da boa-intenção é irregular. Falta maturidade na direção de Estevez. Uma dramaturgia mais sólida e segura levaria seu filme e seus (bons) atores a um resultado mais consistente.

O filme também não encontra o tom certo entre a sobriedade e a romantização da figura de Bobby. É sempre delicado e traiçoeiro prender-se ao “e se tudo tivesse acontecido de maneira diferente...”.

Temos um filme-coral, como em Nashville e Magnólia. A influência do cinema de Robert Altman e P.T Anderson no filme é latente. Pena que Estevez não possua o mesmo talento, ou o domínio da linguagem cinematográfica que tem esses dois diretores.

Mas o filme possui pelo menos uma bela cena! Enquanto Bobby discursa, já no final do filme, o som é cortado para ouvirmos somente The Sound of Silence, canção de Simon & Garfunkel. Os olhos esperançosos da platéia do hotel que ouve as palavras do senador emocionam o espectador. A platéia do meu lado ficou toda lacrimosa, e eu também...

1 de ago. de 2007

Ingmar Bergman (1918 -2007)

Morreu nessa última segunda-feira um dos maiores mestres da sétima arte. Junto com Chaplin, Woody Allen e Hitchcock, Ingmar Bergman é um dos diretores mais marcantes e importantes em minha vida de cinéfilo. Me emocionei quando soube de sua partida.

Muitas das imagens de seus filmes foram de tal maneira calcificadas na minha memória, que acho que as levarei por toda vida: O jogo de xadrez com a Morte em O sétimo selo, o professor Isak Borg rememorando sua namorada em Morangos Silvestres, os gritos de dor e angústia da irmã enferma em Gritos e Sussurros. Tantas obras – primas...

Impossível ficar indiferente a Bergman. Ele toca em assuntos pertinentes a todo homem, desde sempre. A dificuldade de relacionamentos, a inevitabilidade da morte, o sentido da existência.


Inevitável. No jogo de xadrez com a Morte ela sempre há de ganhar...

Diferente do que já li e ouvi, nunca vi o cinema de Bergman como pessimista. Há sempre em seus filmes algum alento, um fugaz momento de luz que nos faz lembrar que a vida vale a pena ser vivida. Mesmo sendo quase sempre tão dolorosa.

Para os que já o conhecem bem, ou para os que querem se iniciar a obra do mestre. Segue os que são, para mim, seus filmes mais belos, que de alguma forma muito me emocionam a cada revisão.
Todos disponíveis em DVD:

O Sétimo Selo (1956)

Morangos Silvestres (1957)

Gritos e Sussurros (1972)

Sonata de Outono (1978)

Saraband (2003)

24 de jul. de 2007

Saneamento Básico – O Filme

Vale a pena não desprezar o novo filme de Jorge Furtado. Ele é muito mais interessante e inteligente do que parece.

Por mais despretensiosa que possa parecer essa comédia, há nas entrelinhas de Saneamento Básico um olho aguçado à realidade que nos cerca. Mais especificamente, temos um “comentário” genial sobre o momento atual de nosso Cinema.

Com bom humor, Saneamento Básico satiriza nossas leis de incentivo, nossos festivais, o fascínio e a incapacidade de cineastas brasileiros lidarem com efeitos especiais...

E no meio das desventuras de um grupo que tenta realizar um vídeo sobre a fossa que a comunidade carece, o diretor encena uma homenagem à própria sétima arte, na figura do personagem feito por Paulo José. Hoje lutando contra o Mal de Parkinson, o grande ator é figura já inesquecível na história do cinema brasileiro.

Furtado dá a ele um personagem–síntese das agruras e dificuldades que é fazer cinema nesse País. O final é puro Chaplin. Paulo José caminha sozinho ao longo da estrada, nos fazendo lembrar do final esperançoso de Tempos Modernos, de 1936.

Há esperança para nosso cinema tupiniquim, vale a pena lutar por ele. A imagem final nos diz tudo, sem dizer nada.

22 de jul. de 2007

Paris, Te Amo

Paris, Te amo é um caso curioso. 21 diretores consagrados realizam 18 diferentes curtas sobre a capital francesa, cada um se passando em um bairro diferente.

De Casablanca a Antes do Pôr do Sol. A cidade luz é sempre inevitavelmente associada ao amor, ou a possibilidade dele. “Sempre teremos Paris”, diz Humprey Bogart a Ingrid Bergman no final do filme de Michael Curtiz, de 1942.

A diversidade de abordagens é um dos triunfos do filme. E mesmo que nenhuma pauta específica tenha sido dada aos diretores, o tema do amor permeia quase a totalidade deles. Seja o amor entre mãe e filho, entre homem e mulher, ou sobre uma solitária apaixonada pela própria Paris.

O resultado é muito mais regular do que se poderia esperar de um projeto como esse. Alguns curtas são realmente decepcionantes, mas a qualidade da maioria faz do filme uma experiência agradável, senão encantadora.

Aos mais céticos ou frustrados com o universo amoroso: Paris, Te amo pode nos fazer voltar a crer na imprevisibilidade do romance, na paixão inusitada e, principalmente, no Amor, que não é imortal, posto que é chama, mas que é infinito enquanto dura...

14 de jul. de 2007

Mais Estranho que a Ficção

No começo do ano fiz uma viagem pela América do Sul e acabei perdendo alguns filmes que queria muito ver na tela grande. Estou tentando ir em busca do tempo perdido pelo DVD. Tenho visto muita coisa e vi nesses dias Mais estranho que a ficção.

É o que costuma acontecer. Quando gosto de um filme tento acompanhar os filmes que o diretor faz posteriormente e, quando possível, vou atrás dos filmes que ele fez no passado.

O diretor em questão é Marc Foster. Me emocionei com o seu Em busca da Terra do Nunca, com Jonny Depp . Toda aquela elegia ao poder da fantasia e do sonho refletida através do autor de Peter Pan me pareceu de grande sensibilidade.

Foster é o diretor de Mais estranho que a ficção, e confesso que esperava bem mais de seu novo filme. A idéia é até que interessante: Um funcionário da receita federal certo dia ouve uma voz feminina narrando seus atos. E descobre que, na verdade, a voz é da autora do livro em que ele é o personagem principal.


Harold Crick (Will Ferrel): Ouvindo vozes que narram seu cotidiano.
Ao saber que seu monótono cotidiano está traçado para a morte inevitável, Harold Crick (Will Ferrel) decide mudar de vida. Nada de novo no front para um filme made in Hollywood...
Os atores se esforçam, mas o filme não decola. Só li textos elogiosos ao Mais estranho... , críticas ressaltaram sua originalidade e seu humor refinado, mas falta humanidade e leveza num filme que acabou ficando muito cerebral. O comediante Will Ferrel mostra-se um ator dramático excelente, porém não há química alguma com seu par romântico.

Um exercício de metalinguagem muito mais interessante, senão brilhante, é Adaptação de Spike Jonze com roteiro de Charlie Kaufman.

9 de jul. de 2007

Ratatouille


As animações se tornaram um dos maiores catalisadores de dólares da indústria. E o diferencial da época atual com a época áurea dos desenhos Disney, é que os desenhos contemporâneos são formatados pra agradar tantos os pequenos quanto aos adultos. Hoje não há problema algum em criar tiradas e gags que só fazem rir o público mais crescido.

Não costumo ter a mínima paciência com esse tipo de filme. É doloroso pra mim ver um “desenho animado”. Muito mais no cinema. Fico me contorcendo todo com aquelas lições de moral, o didatismo, as cantorias...

Mas o novo filme idealizado pela Pixar/Disney é algo fora dos padrões. Posso não gostar de vê-los, mas vi a maioria dos desenhos lançados nesses últimos anos, principalmente os da Pixar, e arrisco dizer que Ratatouille é de longe o mais excepcional dentre todos eles.

Mais que só acompanhar as desventuras do rato que sonha ser um grande chef de cozinha, o filme possui camadas de leitura suficientes para refletir sobre vocação, arte, a vida...

Antom Ego(Peter O'Toole): Crítico se humaniza a provar uma obra-prima da gastronomia.

Já disse aqui outra vez, citando Truffaut, que a arte têm o poder de nos humanizar, e é isso que ocorre com a figura do crítico de gastronomia Antom Ego, dublado no original por Peter O'Toole.

Esse personagem é o que talvez transforme Ratatouille em algo tão inesperadamente inesquecível. Ao experimentar uma receita de um prato camponês, desenvolvido pelo rato – cozinheiro, o crítico faz uma viagem interna de volta à infância. Uma experiência que o faz rever seus valores de crítica, de sua postura diante da gastronomia e da vida!

O que ele prova naquele prato, na realidade, é uma obra de arte que o humaniza e o transcende. É lindo!

19 de jun. de 2007

Cão sem dono

O cinema do diretor Beto Brant tem mudado bastante. Outros poderiam falar que seu cinema está na verdade amadurecendo. Talvez. Mas o que importa é que os filmes do cineasta são sempre dignos de atenção. Gostando dessas mudanças de rumo em seus filmes ou não.

Cão sem dono, comparado com toda a obra do diretor, foi o filme que menos me entusiasmou. Posso admirar Cão sem Dono – dirigido em parceria com Renato Ciasca - mas não me emocionei muito com ele.

Desde O Invasor, o cineasta visivelmente está em busca de uma abordagem mais intimista para com seus personagens. Crime Delicado, seu penúltimo filme, é com certeza a obra mais radical nesse sentido. Cão sem dono segue a essa tendência do diretor em optar pelo despojamento de produção e narrativa.

Nada parece acontecer em Cão sem dono. “Parece”, pois naquela aparente falta de ação há uma forte e humana experiência de dois jovens carentes de perspectiva e felicidade.

Os namorados Ciro (Júlio Andrade) e Marcela (Tainá Müller): Falta de perspectiva

O que muito se escreveu sobre o filme é que os dois jovens amantes na tela representariam a atual imobilidade da juventude atual . Com certeza a mocidade de nossos tempos caracteriza-se pela apatia e pelo vácuo ideológico, mas acho uma generalização excessiva dizer que é isso que trata Cão sem Dono. Os diretores estão muito mais preocupados em compartilhar a experiência daqueles dois namorados dentro daquelas quatro paredes, do que qualquer reflexão geracional.

Como disse, não caí de amores pelo filme. Mas ao mesmo tempo acho importante que um filme brasileiro com uma proposta minimalista desse tipo chegue às nossas salas.

Até agora, Não por Acaso é para mim ainda o melhor filme brasileiro do ano.

12 de jun. de 2007

Não por acaso


Ainda bem que há filmes como Não por acaso. Uma obra que vem nos refugiar de constrangimentos como Inesquecível, filme em que eu ria de tão ridículo que me pareciam aquelas cenas e diálogos. É reconfortante encarar um belo filme como o de Philippe Barcinski, que estreou no último feriado.

Já vi o filme duas vezes. Realmente me emociono vendo Não por acaso. Dois personagens assemelham-se por suas obsessivas buscas por controle e previsão em seus ofícios. Ênio (Leonardo Medeiros, brilhante) é o solitário controlador de tráfego capaz de cronometrar os segundos que demora um farol para abrir. Pedro (Rodrigo Santoro), um exímio jogador de sinuca que planeja suas jogadas até a perfeição.

Mas a vida, diferente do que gostaríamos, não é perfeita, é imprevisível. E um acidente de carro catalisará mudanças em suas visões de mundo e de ser. Os dois perdem pessoas que amam, e seguir com suas vidas poderia ser insuportável se também o acaso (sempre ele) não fornecesse auxílio a esses dois homens na figura de uma filha que Ênio desconhecia, e de um novo interesse amoroso para Pedro.


Ênio (Leonardo Medeiros): Controlador de tráfego também surpreendido pelo incontrolável.
Eis um filme sobre a incapacidade (nossa) de controlarmos o que está além de nossos limites de organização ou planejamento. Porém, mesmo que nosso cotidiano seja assim tão caótico, e muitas vezes trágico, não há motivo para esquecermos da força individual que temos para gerar transformação, e nos mantermos próximos das pessoas que amamos. Ênio e Pedro decidem não perder, pela segunda vez, as pessoas que amam. Dão uma chance à emoção e à vida.

É o primeiro longa de Barcinski, e talvez por isso seja notável o frescor que o filme tem. Um filme bem pensado e original na sua abordagem e construção. Que venham outros "Não por acaso"...
O novo filme de Beto Brant, diretor de O Invasor e Ação entre Amigos, estréia em breve...

5 de jun. de 2007

Confidencial

Junto com Boa Noite Boa Sorte de George Clooney e Munique de Steven Spielberg, Capote de Bennet Miller foi pra mim um dos mais interessantes filmes norte-americanos do ano passado. Foi com ele que Philip Seymour Hoffman, interpretando o personagem título, faturou a estatueta da Academia de melhor ator em 2006. Confidencial (Infamous), que estreou na última sexta traz novamente a história do tortuoso processo de criação de “A Sangue Frio”, livro divisor de águas na história do jornalismo, dando início ao chamado “romance de não-ficção”.

Inevitável a comparação entre os dois filmes. Muito mais com a mínima distância de tempo entre as duas produções. Mas digo desde já que vale a pena não desprezar o filme de Douglas McGrath. Continua sendo muito estimulante acompanhar o relato de como o escritor Truman Capote obsessivamente lutou para alcançar o material necessário para a produção de sua obra-prima. Uma luta que ultrapassou limites éticos e causou feridas incuráveis no âmago do próprio Capote.

Confidencial trabalha muito com o recurso do falso-documentário, com personagens envolvidos na trama relatando para câmera os fatos ocorridos como se estivessem dando depoimento a um repórter ou documentarista. O recurso é excessivo no seu teor didático sobre o drama que envolve Capote, e compromete um pouco o potencial do filme.


Truman Capote (Toby Jones): Drama ético para criação de sua obra-prima.

No filme de Miller tudo era mais sugestivo, e talvez aí esteja a maior diferença entre os dois filmes. Desde a estrutura do filme até o teor das interpretações, o filme com Philip Hoffman me parece mais econômico nos diálogos e confiante em suas imagens, o que coopera para um filme mais rico e ambíguo do que a recente estréia.

Confidencial já estava em pós-produção quando do lançamento de Capote, o que levou a Warner a postergar o lançamento de seu filme. E se esse texto pautou-se na comparação entre as duas obras, deixo registrado que o Truman Capote de Toby Jones não fica muito atrás do de Philip Seymour Hoffman
. Um Capote mais afetado, é verdade, mas ainda uma grande interpretação.

30 de mai. de 2007

Escola do Riso

Não é por acaso que não tenho escrito muito nos últimos dias. Vi, sim, muitos filmes tanto no cinema quanto em dvd, porém nada que me entusiasmasse a escrever. Mas ainda bem que com um pouco de esforço é possível encontrar filmes estimulantes em cartaz na cidade. Acabo de ver o ótimo Escola do Riso no Cinesesc, uma comédia japonesa de Mamoru Hoshi.

O filme se passa no Japão ainda imperial dos anos 1940, e perpassa os entraves entre um dramaturgo ansioso para realizar uma paródia de Romeu e Julieta, e um censor governamental que pretende, com suas inserções e vetos, transformar a peça em um espetáculo de ode á pátria japonesa.

Dilemas de artistas com a censura é um tema universal. E o fato curioso que o filme traz á tona é que muitas vezes a censura pode ser um instrumento de potencialização do talento do artista. Parece paradoxal, mas lembremos das metáforas que o Cinema Novo usava para refletir criticamente o País em pleno regime militar, ou mesmo a sabedoria de Chico Buarque em mascarar canções de protesto com aparência de músicas de amor. Talento e muita criatividade usada para passarem despercebidas as suas obras pela censura da época.

Mas então será que, afinal de contas, a censura pode ter as suas vantagens? De maneira bem-humorada Escola do Riso mostra que sim. E, além disso, vejo no filme uma instigante reflexão sobre o Humor e sobre a Arte!


"O censor dá-se conta de uma humanidade que desconhecia em si próprio"

Porque um Japão em plena II Guerra precisa de risos em um espetáculo teatral? Qual é a utilidade pragmática da Arte? Arte não possui utilidade. Em nosso corrido dia-dia, pense bem, para que ela serve? São perguntas que o filme de alguma forma responde de maneira genial pelo correr da trama e desenvolvimento dos personagens.

No início do filme, o censor tem o orgulho de dizer que nunca riu na vida e crê que é um absurdo investir tempo na produção de algo que só servirá para arrancar risadas da platéia. Porém ao longo do filme, o carrancudo personagem envolve-se no processo criativo da peça, torna-se colega do escritor e, para a surpresa dele próprio, dá a sua primeira série de espontâneas gargalhadas.

O censor dá-se conta de uma humanidade que desconhecia em si próprio. Percebe que por trás da máscara da Instituição que ele representa há um homem capaz de criar...

Muito além de uma simples comédia sobre os contratempos de um artista e um censor, temos um rico ensaio sobre a “utilidade” de algo aparentemente sem função prática alguma: A Arte.

Já virou frase-feita dizer que a comédia é o “horror filtrado pela poesia”. Ela realmente é, mas prefiro a definição de Charlie Chaplin para a importância da arte de fazer rir, e o que também não deixa de ser um pensamento sobre a Arte:

“O humor serve para realçar nosso senso de sobrevivência e para manter nossa sanidade”.

Lindo...

15 de mai. de 2007

Baixio das Bestas

Não acho que seja o melhor, mas o diretor pernambucano Cláudio Assis é com certeza um dos mais viscerais dentre os cineastas em atividade no País. Como disse em entrevista ao Estado de São Paulo, Assis só faz um Cinema que venha do âmago de seu ser.

Baixio das Bestas permite variadas leituras. Num olhar mais periférico, poderíamos pensar o filme como uma denuncia à violência e exploração contra a Mulher, na Zona da Mata nordestina. O filme também é isso. Mas seríamos reducionistas em relação a ele se deixássemos de notar que é também uma obra sobre o ciclo da cana-de-açúcar, a Impunidade, o Brasil e, porque não, um filme que tentar pensar o Homem em sua essência?



Baixio das Bestas: Filme que vem para provocar, intimidar, questionar.

Gosto muito de Amarelo Manga, seu primeiro longa, como também de Baixio das Bestas, um pouco pelo mesmo motivo. O que me fascina na arte de Cláudio Assis é sua coragem em explorar o que há de mais imundo e desprezível no gênero humano. Ele disseca aquelas facetas do nosso ser que preferimos não lembrar, ou simplesmente esquecer. E não o faz como um “voyeur” confortavelmente distante de seus personagens. Assis conhece o mundo em que passeia sua câmera. A força de seus filmes vem, acredito, do conhecimento íntimo que ele tem desses personagens, que expressam tanta podridão ética e moral.

Amarelo Manga e Baixio das Bestas têm os seus pontos de contato, mas são diferentes. Completam-se, talvez. A estrutura em filme-coral permanece, porém o segundo vai visivelmente além do primeiro, tanto esteticamente como conceitualmente.

Pode parecer um paradoxo. Mas mesmo Baixio das Bestas expondo tanta violência, exploração, etc, é um filme com uma qualidade tão límpida de imagem que incomoda. O fotógrafo Walter Carvalho usa a pureza do 35mm não buscando uma "estética da miséria" ou algo gênero, mas para não dar trégua ao espectador da sala de cinema. É um filme que vem para provocar, intimidar, questionar. Grande Cinema!

10 de mai. de 2007

BABEL


O filme dividiu crítica, público, júri de festivais... Isso já é motivo para ver o filme e tentar compreender os motivos de tanta controvérsia. O diretor é o mexicano Alejandro Inarritu, de Amores Brutos e 21 Gramas. O seu terceiro longa, que chega às locadoras em breve, é também sua terceira parceria com o roteirista Gilhermo Arriaga, ganhador do prêmio de melhor roteiro em Cannes por Três Enterros, de Tommy Lee Jones.

Bem, como eu disse, Babel dividiu opiniões. E, claro, dividiu também a minha. Inarritu já provou que tem muito mais talento do que demonstra nesse filme. A pretensão e ousadia podem ajudar muito à uma obra artística (vide Quase Dois Irmãos), mas neste filme a megalomania do diretor desequilibra um projeto de grande potencial, mas que fica aquém do esperado.


Inarritu: Diretor já mostrou que é mais capaz em seus primeiros filmes.

O Cinema é em si uma ilusão. Dentro da sala escura temos projetado na tela 24 fotogramas por segundo, que nos dão a idéia de movimento. Porém, o grande artifício que é a obra cinematográfica não nos impede de viajar nas mais diversas experiências. Mas, ocasionalmente, algum “artifício” da construção fílmica pode incomodar por não nos convencer de alguma forma e “quebrar” a ilusão que temos ao ver um filme.

Acontece isso comigo em Babel. Tem-se um projeto ousado, com um roteiro que deve articular histórias simultâneas em diferentes partes do Globo. Para dar conta de desenvolver todo esse emaranhado de dramas, Babel acaba apelando para “soluções” artificiais de roteiro. Nem todas as relações entre as diferentes histórias são inteiramente verossímeis. O episódio japonês, como disse Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão, é o mais frágil de todos eles.
O diretor tem como marca em sua obra desenvolver personagens em situações-limite. E tem em seu 21 Gramas a sua maior obra até agora.
Em mais de 2 horas de Babel, acredito que o único episódio que se sustenta é o do casal americano no Marrocos interpretado por Brad Pitt e Cate Blanchet. No todo falta melhor desenvoltura ao filme e, talvez, um pouco mais de pé no chão para refletir sobre o mundo caótico e não-comunicativo em que vivemos.

5 de mai. de 2007

Homem-Aranha 3

Impossível resistir. Escapei de uma aula da noite na Faculdade e fui conferir no dia de estréia o filme que é o fechamento de um ciclo de amadurecimento na vida de Peter Parker/Homem-Aranha. E vou logo adiantando, Homem-Aranha 3 é o melhor filme da trilogia!

Queria ir numa sala de cinema bem popular para sentir a expectativa da platéia. Fui no Shopping da Lapa. Acompanhado por uma multidão de adolescentes ansiosos que, para o bem ou para o mau, são a razão de ser desse tipo de cinema – evento.

Diferente do que li em algumas críticas sobre o filme, o terceiro episódio está longe de ser “mais do mesmo”. A terceira parte da saga do herói aracnídeo vai além dos dois primeiros filmes, sendo o mais “adulto” de todos eles. O que, acredito, colaborou para surpreender um pouco a platéia do Centerplex Lapa 1 em alguns momentos, que esperava uma aventura mais passageira.

O primeiro filme era sobre a responsabilidade do herói em lidar com seus poderes, o segundo sobre os dilemas em equilibrar uma vida de herói e uma vida pessoal-amorosa atribulada. Nesse terceiro, Parker deve transformar-se num Homem-Aranha ético, adulto. Amadurecido o suficiente para não se tornar somente um vigilante-vingativo, mas sim um homem capaz de ouvir, compreender e perdoar.

Os dilemas do Homem-Aranha são agora de ordem moral


Um simbionte alienígena hospeda-se no uniforme de Aranha, deixando-o mais ágil e poderoso, mas em troca o bicho faz aflorar o lado da personalidade de Peter mais sombrio e obscuro. Homem-Aranha é em boa parte do filme (a melhor) seduzido pelo “lado negro da força...”.

Dando-se conta de quão diferente ele se tornou tomado pelo alienígena, Peter busca redenção numa igreja cristã, local onde temos o prazer de acompanhar a melhor e a mais forte seqüência de toda a trilogia. Os sinos da igreja reverberam e Homem-Aranha coloca-se de joelhos em busca de expiação. É genial!

O filme superou o maior dos temores que eu tinha antes de vê-lo: não conseguir equilibrar o grande número de vilões e sub-tramas. O diretor Sam Raimi não deixa a peteca cair. Também não transforma seu filme em um grande frenesi de ação e efeitos. O ritmo do filme é cadenciado como o dos dois primeiros, dando tempo para que os dramas dos personagens fluam no tempo certo.

Tobey Maguire sempre esteve ótimo na pele do herói, mas Kristen Durst com sua Mary Jane é a alma do filme. Durst, com Maria Antonieta e esse filme, prova-se uma atriz excepcional. Sem exagero. Os anos de passagem da adolescência para a vida adulta foram tão bons para ela como foram para o Homem-Aranha.

É claro que haverá outra seqüência ao filme. A caixa registradora dá as cartas na indústria de Hollywood. Mas tomará um pouco mais de tempo que o habitual dois ou três anos. Homem-Aranha 3 fecha uma jornada de romance, amizade, e sobretudo, da construção do Herói!

2 de mai. de 2007

Proibido Proibir

Depois de um feriado prolongado estamos de volta. Acabo de chegar da sessão de Proibido Proibir, filme do chileno radicado no Brasil, Jorge Durán. Como disse o crítico Carlos Alberto Mattos em um texto sobre o documentário Cartola: Não gostei de não ter gostado de Proibido Proibir...

Tinha bastante expectativa pelo filme. Acompanho sua carreira com interesse desde sua passagem pelo Festival do Rio e na Mostra de São Paulo no ano passado. Além disso, admiro demais o trabalho em outros filmes da trinca principal de atores. Mas o potencial que o filme poderia ter (e acaba tendo, só que em poucos momentos) deixa bem a desejar.

Há talvez um excesso de temas no filme que acabam por se anularem entre si. Amizade, corrupção policial, falta de perspectiva para infância da favela, política, arte... Diversas fatias de nosso Brasil são ilustradas na tela. Um recorte mais definido cooperaria para um resultado mais interessante. Falta ritmo e unidade a Proibido Proibir.

Mas não sejamos injustos, nem tão parciais. Proibido Proibir tem qualidades. Uma delas é que seu diretor confia em seus atores. A eles é dada a possibilidade de se expressarem além do discurso falado. Costuma-se falar demais no Cinema Brasileiro, mas Durán sabe valorizar um olhar, um gesto, a sugestão.



Realidade Nacional, mas sem pessimismo: o “Sol voltará a brilhar...”.

É um filme que deve ser visto, com certeza. Proibido Proibir reflete sobre uma juventude que pode ir além da alienação e do vácuo ideológico que convivemos (que somos?). Os três jovens protagonistas deparam-se com um Brasil contraditório, cheio de seqüelas. Vale a pena lutar por ele? Ficamos com o ceticismo do personagem Paulo (Caio Blat) ou o anseio pela luta de León (Alexandre Rodrigues)?

O filme não é pessimista e a canção final nos convida à esperança de que o “Sol voltará a brilhar...”.