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7 de ago. de 2009

À Deriva


Deixa muito a desejar o terceiro longa do diretor pernambucano Heitor Dhalia. “À deriva”, em cartaz nos cinemas, possui menos personalidade que seus trabalhos anteriores, como “Nina”, seu filme de estréia. Mesmo com boas condições de produção (Orçamento de US$ 3 milhões), Dhalia perde-se na beleza de búzios. Fez um filme frio em praias quentes.

O filme é resultado de uma parceria entre a produtora O2 e a internacional Focus Features. Com a chancela das duas, teve facilidades para sua exibição no exterior. Bem diferente da produção improvisada em cooperativa de “O Cheiro do Ralo”, segundo e melhor filme do diretor. Para seu novo projeto, Dhalia teve mais traquilidade. Pôde contar com técnicos de ponta e atores renomados como o francês Vincent Cassel (“Senhores do Crime”) e Déborah Bloch. A jovem Laura Neiva, encontrada no Orkut pela produção, estréia sua carreira artística junto com o filme.

Laura é Filipa, adolescente de 14 anos que enfrenta a chegada da puberdade e a separação eminente de seus pais (Cassel e Débora). Emocionalmente confusa, viverá seu rito para a vida adulta da melhor forma possível.

Interessante a premissa do filme, uma temática adolescente rara no cinema nacional. Mas justamente o desenvolvimento da idéia inicial, ou seja, o roteiro, é o calcanhar de aquiles de “À deriva”. O texto escrito pelo próprio diretor - com consultoria de Vera Egito - é dramaticamente superficial, redundante e com um ritmo vacilante. Dhalia tem algo a dizer, mas tem-se a impressão que dava para contar sua história num curta metragem. 1 hora e 37 minutos de duração é suspeitar que há recheio desnecessário no resultado final do projeto.

O trabalho de luz do fotógrafo Ricardo Della Rosa, por exemplo, não parece estar em sintonia com a propensa densidade de algumas sequencias. Praias costumam ser cinematográficas, mas pode fazer mal à retina ver o litoral fotografado como comercial de cartão de crédito por quase duas horas de projeção. No início de carreira, Dhalia trabalhou com publicidade e parece ter incorporado os vícios da profissão. Assim como acontece no cinema de Fernando Meirelles, também um ex-publicitário e produtor desse longa edulcorado.

Ao término de “À deriva”, fica a sensação de insatisfação. Um filme que tinha tudo, mas não chega a acontecer.

5 de ago. de 2009

Frost/Nixon


Depois de ganhar até o Oscar por “Uma mente brilhante” e cutucar o cristianismo em “O código Da Vinci”, o diretor Ron Howard faz seu melhor filme: “Frost/Nixon”, que sai agora em DVD.

O foco da trama é a entrevista que o ex-presidente Richard Nixon concedeu ao jornalista David Frost em 1977. A primeira entrevista televisiva de Nixon após seu envolvimento com o caso Watergate, que gerou sua renúncia em 1975.

Frost (Michael Sheen de “A Rainha”) é um jornalista determinado. Depois de anos apresentando programas de auditório, busca legitimar sua carreira produzindo audiovisualmente o julgamento que Nixon não teve. Interpretado sanguineamente por Frank Langella, conhecemos um Nixon truculento e traiçoeiro, complementar ao Nixon traçado por Oliver Stone em seu filme de 1995. Vemos um homem solitário atrás de uma redenção inatingível, por abusos de poder indefensáveis.

Howard rege com grande competência o roteiro enxuto de Peter Morgan (indicado ao Oscar). Mostra maturidade no desenvolvimento dos personagens, extrema noção de ritmo cinematográfico. Principalmente quando Frost e Nixon estão frente a frente. Todo encontro é filmado como sutil duelo. Um novo round em que a câmera e montagem geram um clima de tensão e expectativa. Tudo isso potencializado pela trilha musical de Hans Zimmer (“Gladiador").

O filme recebeu no total 5 indicações ao Oscar, incluindo melhor ator (Langella) e diretor (Howard). Nos extras do DVD vale a pena conferir a entrevista original entre os dois oponentes.

4 de ago. de 2009

Moscou

Eduardo Coutinho é o mais importante cineasta brasileiro em atividade. A cada novo documentário busca reinventar seus filmes anteriores, ir mais longe em suas investigações quanto às fronteiras do cinema de não ficção. “Moscou”, que estréia nesta sexta, não é diferente. Talvez o filme mais experimental de toda a carreira do cineasta.

Para seu novo filme, Coutinho pediu ao grupo de teatro mineiro Galpão que sugerisse um diretor teatral para guiar a montagem de fragmentos da peça “As três irmãs”, do dramaturgo russo Anton Tchekhov. Enrique Dias, da Cia dos Atores do Rio de Janeiro foi o escolhido. A partir desse encontro, tanto Dias quanto Coutinho propõem ao atores jogos teatrais dos mais variados. Um complexo jogo de cena que mistura ficção e realidade, verdade e imaginação.

“Moscou” não tenta contar uma história linear com começo, meio e fim. Não se propõe ser um registro da montagem de “As três irmãs”, tampouco dos bastidores da encenação como faria um tradicional “making of”. A proposta é mais radical. “Moscou” assume o fragmento, o lacunar. Cada sequência possui em si o seu significado e a sua força. Cabe ao espectador se deixar levar por essa experiência cinematográfica. O que não é sempre fácil.

Trata-se de um filme exigente, que levanta temas que percorrem toda a obra de Coutinho: A família, a dor da perda, a fugacidade do tempo e, principalmente, a morte. Por este último, o diretor admite ter uma verdadeira obsessão.

http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/


3 de ago. de 2009

Hitchcock e o cinema puro de Psicose

“Tratarei o público com choques benéficos. A civilização transformou-se em algo tão protetor que já não somos capazes de nos arrepiar de forma instintiva. A única forma, maneira, o único jeito de sair desse amortecimento - apatia - e restaurar o nosso equilíbrio moral é lançando mão de meios artificiais para trazer de volta o choque. E a melhor forma de se conseguir isso, me parece, é através do cinema.”


A. Hitchcock




Com um invejável domínio dos artifícios cinematográficos, o diretor inglês Alfred Hitchcock consolidou-se como especialista em um único gênero, o suspense. O crítico e professor Ismail Xavier escreve no prefácio do livro de entrevistas “Hitchcock/Truffault” que o diretor realizava “a orquestração do olhar capaz de capturar o espectador, [...] Medo e expectativa compõem o lastro dessa captura, qualquer que seja a opinião que se tenha sobre o valor de tal experiência e de sua filosofia”. Hoje ninguém tem a ousadia de negar a importância dos filmes do velho Alfred. Mas nem sempre foi assim. O prestígio do diretor e a consciência de sua inquestionável grandeza artística vieram aos poucos. Como também o reconhecimento de filmes seus como clássicos fundamentais da história do cinema.

Hitchcock era um cineasta popular, um showman sem medo de fazer papel de palhaço para fazer propaganda. Fotos com pássaros no charuto, se vestir de bebê em seu programa de televisão semanal, tudo valia para que seu carisma ajudasse na divulgação de sua persona e, consequentemente, de seus filmes. Tudo isso colaborou para que Hitch e sua obra não fossem levadas muitas a sério, nem pela intelectualidade da época, nem por Hollywood. Indicado ao Oscar muitas vezes, nas categorias de filme e direção, o cineasta nunca recebeu a cobiçada estatueta dourada. O prêmio só chegou em 1968 com um Oscar especial pelo conjunto da obra. Na noite da premiação, com o homem pelado e careca nas mãos, Hitchcock agradeceu com um lacônico e ressentido “thank you”. O mais curto agradecimento na história da Academia...

Foi só em meados dos nos 60 que o olhar sobre o cinema de Hitchcock tornou-se, aos poucos, mais respeitoso. Os jovens críticos da famigerada Cahiers du Cinéma cruzaram o Atlântico com sua política dos autores para resgatar os diretores americanos que mais admiravam, entre eles Nicholas Ray, Howard Hawks e Hitchcock. Diretores que os jovens críticos franceses consideravam ser mais que artesãos competentes. Eles foram atrás dos “verdadeiros artistas”, daqueles que possuíam um estilo cinematográfico pessoal ou investigavam temas que apareciam com recorrência em seus filmes. O crítico e depois cineasta François Truffault fazia parte dessa trupe de críticos amantes de A dama oculta (1938), Janela indiscreta (1954), etc.


Truffault foi talvez o principal responsável pela revisão crítica de seu admirado, graças às entrevistas cedidas por Hitchcock ao cineasta para a feitura de “Hitchcock/Truffault”, relançado aqui pela Companhia das Letras em ótima edição. O livro é uma das bíblias de qualquer cinéfilo, e com ele uma nova brisa foi soprada para os desqualificadores do mestre, cuja carreira encontrou seu ponto mais alto em Psicose (1960), que em minha forma de ver é sua principal obra. A que melhor expressa e exemplifica seu brilhantismo. Falando do filme com Truffault, comentou:

“A construção desse filme é muito interessante e é minha experiência mais apaixonante de jogo com o público. Com Psicose, fiz a direção dos espectadores, exatamente como se eu tocasse órgão”. P. 275.

Ouve-se muito por aí, com bons fundamentos, que Vertigo - Um corpo que cai (1958), e não Psicose, é seu melhor filme. Na opinião de seu biógrafo, Donald Spoto,Vertigo seria seu filme mais denso e pessoal, a expressão mais genuína de um Hitchcock cheio de neuroses, medos e obsessões.

O clássico com James Stewart e Kim Novak é realmente grande, maravilhoso. Mas é importante lembrar que em primeiro lugar Hitchcock buscou a comunicação com o público, assim como Fellini. Há no enredo de Vertigo, simplificando um pouco, dois filmes. Um que vai até a morte de Madeleine (Novak), e outro sobre a busca necrófila de Scottie (Stewart) para ressuscitar sua amada. Essa complexidade de roteiro não ajudou a fazer desse clássico um sucesso como o diretor esperava. Diferente de Psicose, um êxito de público retumbante. E isso vem de uma razão essencial: Psicose é o filme em que o estilo e apuro técnico visual de Hitchcock alcançaram a excelência. Aquele em que o cineasta provou sua habilidade em manipular o espectador como queria, fazê-lo tremer e suspirar no momento que desejava.

O assunto de um filme nunca interessou muito a Hitch. A trama era algo secundário. A preocupação com a forma - os enquadramentos, a montagem, onde usar a trilha sonora – era o que fazia seu coração bater mais depressa. E seu filme com Janet Leigh é emblemático nesse sentido. Diz ele novamente a Truffault:

“[...] o tema me importa pouco, os personagens me importam pouco, o que me importa é que a montagem dos fragmentos do filme, a fotografia, a trilha sonora e tudo que é puramente técnico conseguiram arrancar berros do público. [...] Não foi uma mensagem que intrigou o público. Não foi uma grande interpretação que transtornou o público. Não era um romance muito apreciado que cativou o público. O que emocionou o público foi o filme puro”. P. 287.




Psicose é “cinema puro”, expressão de Truffault. Porque as especificidades dessa arte são usadas com maestria. Porque os movimentos de câmera são tão essenciais quanto a construção dramática de Marion Crane. Tudo com o intuito de cativar o espectador, manipulá-lo sem pudor. E para isso, no caso do filme 1960, a sabedoria no uso da trilha musical de Bernard Herrmann é essencial, senão imprescindível.

O começo dessa parceria entre Hitchcock e Herrmann foi em 1955, na comédia de humor negro O terceiro tiro, e perdurou por mais de dez anos. A trilha de Psicose serve ao filme, fora dele a audição da trilha pouco se sustenta. Violinos, violoncelos e baixos dão o clima de cada sequência com linhas musicais pouco melodiosas. Em “A construção do suspense: a música de Bernard Hermann em filmes de Alfred Hitchcock” (Ieditora), a pesquisadora Rosinha Brener diz algo interessante:

“A música de Psicose é o que se pode chamar de uma das mais perfeitas para um filme de suspense. Com efeito: o que seria da cena do chuveiro, se não fossem os glissandos arrepiantes? Esta cena explica o que a música pode injetar em uma imagem. Ao que parece, o interesse de Hitchcock na música está na força que ela pode oferecer para intensificar o suspense”. P.24.

Atualmente há um certo vício em muitos dos textos e resenhas sobre cinema. O enredo e o tema do filme costumam pautar as análises. Como diz Woody Allen, crítica é a racionalização da subjetividade, então cada um de nós faz o recorte que bem entende, mas sinto falta de críticas que também lembrem de “como” o cineasta conta suas histórias, e não somente sobre “o quê” discorre seu filme. Observar as especificidades cinematográficas de Psicose, e não somente fazer uma análise psicanalítica ou do ponto de vista da interpretação de Anthony Perkins (Norman Bates) por exemplo, me parece fundamental. E que no final valoriza devidamente as contribuições de Hitchcock para a evolução do cinema moderno. Neste quesito, Hitch é tão importante para a história do cinema quanto Orson Welles... O que não é pouco.

Com Psicose, esse gourmet fascinado por loiras alcançou o virtuosismo de sua mise-en-scène, de seu estilo e de sua filosofia sobre o que é o Cinema. Enigmática pergunta que nem o ensaísta Jean-Claude Bernadet se arrisca a responder em seu pequeno livro “O que é Cinema”, editado pela Brasiliense. Psicose é teoria e prática, forma e conteúdo casando-se harmonicamente.


31 de jul. de 2009

Território Restrito


Após os ataques de 11 de setembro, o governo Bush endureceu o cerco contra a imigração ilegal nos Estados Unidos. Usando a desculpa da segurança nacional, aumentou a fiscalização e construiu muros na fronteira mexicana. Este rigor contra a entrada de estrangeiros no país é o tema de reflexão do filme “Território Restrito”, estrelado por Harrison Ford (“Indiana Jones”), Ray Liota ( "Os bons Companheiros" e Alice Braga ("Ensaio sobre a cegueira") que sai agora em DVD.

Assim como “Crash” (2004) de Paul Haggis, “Território Restrito” inter-relaciona moradores de Los Angeles. Lá, o que ligava os diversos personagens era a intolerância das relações humanas da cidade. Aqui, todos estão evolvidos na delicada situação imigratória: a atriz australiana que dorme com um agente do governo (Ray Liotta) para conseguir seu visto, a adolescente mulçumana ameaçada de deportação, a mãe solteira latina (Alice Braga) que pode ser expulsa do país sem seu filho pequeno.

Harrison Ford vive Max Brogan, um agente federal imigratório que seve de guia e observador crítico dos desenlaces do enredo. Seu olhar desesperançoso dá o tom filme. Acostumado a interpretar figuras heróicas, Ford faz um personagem solitário e impotente. Sua ética pessoal não traz muita diferença na engrenagem conservadora da América contemporânea.
“Território Restrito” não dá soluções prontas, somente põe em pauta a complexidade política, econômica e cultural da imigração ilegal. O excesso de personagens e subtramas deixam o enredo um tanto monótono. Um roteiro mais enxuto ajudaria o resultado final do filme escrito e dirigido por Wayne Kramer.

Kurt Coubain – Retrato de uma Ausência


Um documentário sem entrevistas, reconstituições baratas ou material de arquivo. O que guia este filme é voz confessional de Kurt Coubain, vocalista do grupo Nirvana que se suicidou em 1994. Não se estruturando como a maioria dos documentários clássicos – narração em off, informativo e historicista – Kurt Coubain – Retrato de uma Ausência (Kurt Cobain: About a Son) leva o espectador a uma viagem mais lúdica do que a maioria dos filmes de não ficção. Baseado no livro “Come As You Are: The Story of Nirvana” do jornalista Michael Azerrad, o filme revela conversas gravadas em mais de 25 horas de fitas, nas quais Kurt Cobain relembra a infância, o divórcio dos pais e seus dilemas como celebridade.

O filme dirigido e montado por AJ Schnack é bem rigoroso, busca não reiterar som e imagem, não banalizar sua construção visual somente ilustrando o que é dito pelo cantor. Planos e travellings das cidades de Aberdeen, Olympia e Seattle passam na tela enquanto ouvimos a voz Coubain. Esse conceito de montagem dá margem à imaginação, gera cumplicidade com o espectador e com a história desse roqueiro angustiado, que sempre se viu como um alien nesse mundo tão opressor como o atual. “Já está tudo tão requintado, plagiado”, diz o cantor num momento. Nas falas de Coubain encontramos um homem muito crítico de si e a América onde cresceu. Uma América cheia de feridas e contradições, já criticada por tantos cineastas.

Lembrar da obra do norte-americano Gus Van Sant é bem oportuno para clarear os temas abordados no documentário que estréia nesta sexta. No intrigante Last Days (2005), o diretor já tinha buscado compreender a figura melancólica de Corbain. Em filmes como Elefante (2003) e Paranoid Park (2007), Van Sant investigou também essa angústia que ronda o espírito do adolescente nos Estados Unidos contemporâneo. Um mal estar agregado à pressão escolar, instabilidade na família e muita raiva para extravasar, seja num piano (Elefante), na pista de skate (Paranoid) ou na guitarra punk rock, como foi o caso do jovem Kurt...

Michael Jackson acaba de partir. Juliano Mion, editor aqui do Cine Players refletiu recentemente sobre seu testamento cinematográfico no genial Moonwalker (1988). Com sua morte, vale a pena parar para pensar sobre a obsessão com a beleza e jovialidade que guia nossos corações e mentes. Refletir sobre os dilemas que enfrenta o olimpo das celebridades onde Michael talvez reinasse, e onde outros também já estiveram, como a princesa Diana e John Lennon. Todos mortos precocemente. Todos com suas vidas privadas expostas sem pudor por uma mídia quase tão cruel como um dia foi o Coliseu romano. As palavras de Corbain sobre o assunto são sinceras e virulentas. Nas entrelinhas, Kurt nos diz o que disse Greta Garbo em Grande Hotel (1932), e que marcou para sempre sua vida e autoexílio: “I want to be alone”.

Ao som de David Bowie, R.E.M. e Queen, as influências do cantor, Kurt Coubain - Retrato de uma Ausência é um convite à emoção e a reflexão (com o perdão da rima fácil). O filme começa com um vôo rasante sobre o oceano. Das profundezas, esse homem cheio de dor e arte volta à Terra para deixar parte de suas sensações sobre nosso planeta, que para ele era alienígena. Algo além e complementar às suas canções. De como perdeu a inocência, como foi sua relação com as drogas. Um filme belo e criativo, para fãs e também reticentes ao Nirvana ou ao Rock´n Roll.

http://www.cineplayers.com/

24 de jul. de 2009

Austrália


Depois do esplendoroso “Moulin Rouge” (2001), o diretor australiano Baz Luhrmann erra feio com “Austrália”. Um épico meloso de quase três horas. Mesmo contando com os astros Nicole Kidman e Hugh Jackman, e com as paisagens monumentais da Austrália, o filme é um espetáculo de artifícios, bonito para os olhos, mas sem a punjância que marcou os filmes anteriores do cineasta.

Numa Austrália em tempos de pré-segunda guerra, a aristocrata inglesa Lady Ashley (Kidman) recebe a ajuda do rude Drover (Jackman) para não perder as terras que herdou no selvagem território australiano. A partir dessa premissa, o filme perde-se no excesso de temas a desenvolver, como o romance dos protagonistas e a complicada questão aborígine no país.

Luhrmann é um perfeccionista. Um esteta como foi Vincente Minnelli e seus musicais na época de ouro de Hollywood. O perigo de tanto cuidado é o drama dos personagens ficar soterrado por tanta maquiagem: uma fotografia estonteante, uma trilha orquestral onipresente. Grandiloquência sem calor humano. Kidman e Jackman ficam até bonitos na foto do pôster, mas em cena não possuem química. Recitam seus textos, milimetricamente ensaiados, e a espontaneidade das sequências que deveriam ser bem humoradas ficam quadradas e caretas.

O cinema do diretor de “Vem dançar comigo” (1992) e “Romeu e Julieta” (1996) busca misturar gêneros do cinema, citações de filmes e referências à cultura pop. No caso de “Austrália”, as inflências vão de “E o vento Levou...” (1939) até os westerns spaghetti do cineasta italiano Sergio Leone. Principalmente “Era uma vez no Oeste” (1967), que também tinha uma mulher como protagonista que lutava por suas terras ante o progresso, etc.

Cabe agora esperar pelo próximo projeto de Baz Luhrmann. O cineasta tem provado seu talento através de obras sólidas. “Austrália” parece um erro de percurso, um filme desnorteado em sua própria ambição.


6 de jul. de 2009

Apenas o fim


Matheus Souza, estudante de cinema da Puc Rio juntou os amigos, 8 mil reais no bolso e filmou seu primeiro longa metragem. Sucesso inesperado no Festival do Rio, Apenas o fim é exatamente isso: um filme universitário. Despretensioso no conteúdo, simples na forma. Recheado de referências aos diretores que Matheus conheceu na sala de aula.


Os cursos de cinema e audiovisual tem aumentado e filmes com esse perfil devem chegar com mais e mais frequencia, o que é bom para nosso cinema. Apenas o fim deve dar coragem a muitos jovens estudantes que sonham fazer um longa respeitável, que possa ir para festivais e até estrear nas salas. Talvez o alarido sobre o filme tenha sido excessivo, considerando suas fraquezas no roteiro e na direção de atores. Mas Matheus pelo menos matou no peito, foi corajoso e fez o filme que pôde fazer. Agora é esperar o que a maturidade futura do diretor pode oferecer...
O Trailer,

16 de jun. de 2009

NAZISMO EM NOVAS LENTES

DVD

Não precisa de muito esforço para lembrar de algum filme com nazistas na história. Filmes de guerra como “O Resgate do Soldado Ryan” ou histórias de amor como “Casablanca”. A lista de filmes é imensa. Quando o cinema ainda engatinhava, lá nos distantes anos 1930, os três patetas Moe, Larry e Curly adoravam azarar alguns “chucrutes”. Torcer seus narizes, dar ponta pés nos seus traseiros etc. Sacanear um alemão alto, loiro, e ainda por cima nazista (!) era sempre uma boa pedida para as platéias da época. E não só “daquela” época, não. Os alemães que seguiram a retórica de Adolf Hitler foram representados no cinema quase sempre como vilões sádicos, militares brutos e desumanos. O que está em nosso imaginário é algo como “nazista bom é nazista morto”.

Existem razões concretas para que o cinema, principalmente americano, batesse tanto nessa tecla na qual nazista é sinônimo de mal feitor. Afinal, a Alemanha de Hitler foi responsável pelo extermínio de mais de 12 milhões de minorias, entre ciganos, homossexuais e judeus. E a 2º. Guerra Mundial, ocasionada pelos delírios do Terceiro Reich (1933-1945), deixou um saldo total de mais de 50 milhões de mortos.

Mas os nazistas não eram todos iguais. Houve os descontentes com o regime, seres humanos com maior ou menor consciência de seus atos. Essa simplificação, e ás vezes preconceito, de achar que todo nazista era um psicopata em potencial tem mudado ao longo dos anos e dos muitos filmes feitos sobre o assunto.
Sai agora em DVD um conjunto de filmes que buscam melhor entender a os dilemas dos alemães no período hitlerista. Filmes como “Um Homem Bom” e “O Leitor” humanizam seus personagem nazistas, tentam entender suas motivações e angústias. “Operação Valquíria” e “A Espiã” são aventuras mais despretensiosas, mas que bem ilustram aqueles alemães que tiveram uma postura de resistência ao regime. O último dessa leva de lançamentos é “O Menino de pijama listrado”, que revê o tema pelo ponto de vista de uma criança.

Em “Um Homem Bom” temos John Halder (Viggo Mortensen), um professor de literatura que escreve um livro que defende a eutanásia. E assim que o romance é usado pela máquina de propaganda do governo a vida de Halder se transforma imensamente, como também a importância de suas escolhas. Um filme sensível, que comprova o talento do diretor brasileiro Vicente Amorim, em seu primeiro projeto internacional.

“O Leitor” já explora a história de Hanna Schmitz, carcereira de um campo de extermínio interpretada por Kate Winslet (ganhadora do Oscar), para falar sobre justiça e responsabilidade do povo alemão. O filme não justifica a colaboração no Holocausto da personagem de Kate, mas dá ao espectador possibilidades de pensar sobre a culpa da Alemanha como um todo pela “solução final” dada aos judeus.

O foco de “Operação Valquíria” e “A Espiã” é a resistência direta ao regime nazista. No primeiro, temos uma espécie de... “Missão Impossível 4”. Só que com sotaque germânico. Dirigido por Bryan Singer (X-Men 1 e 2), o filme conta a verídica história do coronel Claus von Stauffenberg, interpretado pelo astro Tom Cruise (quem mais?). Indignado com os rumos de seu país sob a ditadura de Hitler, Ethan Hunt, ou melhor, Stauffenberg monta um plano para assassinar o Führer.

Mas como sabemos que Hitler não morreu num atentado, mas suicidou-se ao lado de sua companheira Eva Braun, o filme fica todo meio sem graça. Previsível demais. O que não acontece com as imensas reviravoltas do aventuroso “A Espiã”, ótima diversão orquestrada pelo holandês Paul Verhoeven. Após a morte de sua família, a judia holandesa Rachel (Carice van Houten) pinta seus cabelos de loiro e se infiltra nos ninhos do Reich. Um Indiana Jones de saias e meia calça...

Mas o melhor filme dentre todos esses lançamentos é mesmo “O menino de pijamas listrado”. Bruno, 8 anos, de família aristocrata e pai oficial do exercito, muda-se de Berlin para Auschwitz, um dos maior campos de extermínio construído na Polônia. Lá, Bruno (o sensível Asa Butterfield) inicia por acaso uma bela amizade com um garoto judeu prisioneiro. Com uma bonita fotografia e uma direção competente, o filme emociona. Baseado num best-seller mundial assim como “O caçador de pipas”, “O menino...” procura falar do nazismo através do olhar diferenciado e mais inocente da infância. Bruno vive um inusitado relacionamento num cenário de morte e violência. Bem bonito.

Todos esses filmes ajudam a ver que o ser humano é mais complexo que qualquer definição apressada. Ele é ambíguo, contraditório. O Cinema e o Nazismo com certeza não esgotaram seu relacionamento. Infinitas tramas ainda serão elaboradas, e se elas tentarem compreender com maturidade algo tão insano como o nazismo, todos saem ganhando. O Cinema, o público e a história.

7 de jun. de 2009

A mulher invisível

É. Passatempo ligeiro. Comédia com boas tiradas. E A mulher invisível também não tem pretensão de ser muito mais do que isso, uma leve comédia para sexta à noite. Um filme com tudo que já se espera quando vemos o cartaz do filme. Selton Mello tem o carisma que todo mundo conhece. Luana Piovani é... Bem, digamos que vale a pena vê-la na tela grande. Luis Fernando Veríssimo não é bobo e escolheu uma musa de primeira.

Bom para o cinema nacional que filmes como esse sejam produzidos. Filmes baratos, “artisticamente” despretensiosos. No quesito técnico, o país já possui um grande número de profissionais competentes. Cinegrafistas, editores, técnicos das mais variadas funções necessárias para a feitura de um filme, e é imprescindível a prática constante dessa, digamos, mão de obra especializada. E filmes como o do diretor Cláudio Torres preenche essa função econômica que o cinema deve também ter. Torres vem da publicidade. É um dos sócios da Conspiração. Depois de fazer uma estréia no cinema muito autoral e corajosa (O Redentor, que merece ser visto), o diretor parece agora buscar manter-se ativo com filmes como A mulher invisível, e seu último filme, também uma comédia, A mulher do meu amigo.

A mulher invisível – O “Trailer Final”:

5 de jun. de 2009

FILME PARA HORÁRIO NOBRE

Em tempos de Crise, Hollywood flerta com o Oriente

Quem quer ser milionário?

Às vezes esquecemos que Hollywood não é a maior indústria de cinema do planeta. Os norte-americanos estão em segundo lugar neste rali cinematográfico. A Índia e sua fábrica de musicais carnavalescos está na dianteira já há algum tempo. Bollywood, como é chamada, possui mais espectadores e lucra como nenhuma outra. Mas Hollywood não se deixa vencer e prepara um contra ataque. Sai em busca de novos mercados e parcerias. Daí o grande esforço para transformar “Quem quer ser milionário?” num evento planetário. Mesmo sendo um filme que deixe tanto a desejar.

“Quem quer ser...” é a história de Jamal Malik (Dev Patel), um adolescente que vive numa favela de Mumbai (Índia) e vira celebridade instantânea ao participar de um programa de perguntas na televisão, à moda de Silvio Santos e seu falecido Show do Milhão. A participação de Jamal no game é o eixo da trama, que vai e volta no tempo com certa criatividade. Mas para contar sua história o diretor britânico Danny Boyle escolheu uma linguagem cheia de modismos: câmera na mão, montagem frenética, uma fotografia de alta exposição. Com este filme Boyle só comprova ser um aluno obediente de Fernando Meirelles e seu “Cidade de Deus”.



O filme é uma produção do Reino Unido com um elenco e equipe formada grande parte por indianos, mas com financiamento e distribuição da Fox Searchlight Pictures. O resultado é um filme fraco, no máximo mediano. Mas então como entender sua consagração no Oscar deste ano, tantos prêmios? Difícil explicar se não levarmos em conta o peso mercadológico da coisa toda. Sem um filme mais oportuno para premiar, a Academia celebrou o que mais parece uma boa e velha novela das oito.

Assim como a Glória Perez abusa de fórmulas de teledramaturgia, Boyle fez do seu filme uma insossa coleção de clichês. Vai longe a descarada receita novelesca: um cenário exótico como pano de fundo; mais casal que luta por seu amor impossível; mais uma pitada de crítica social para levantar o “debate” na mídia. Um roteiro que tudo explica e conserta, punindo vilões e consagrando nossos heróis. Sem surpresas ou mal entendidos. Que lindo! Um novo “Romeu & Julieta”, um novo “Titanic”. Mas sem a tragédia no final, claro, ninguém é de ferro. Dá para sair da sala de cinema saltitando alegremente.

Todo esse bêabá melodramático acabou dando seus frutos: Custando somente $15 milhões, o filme arrecadou dez vezes mais com imensa rapidez. Enfileirou na estante oito Oscars, incluindo o de melhor filme e diretor. Acumulou Globos de Ouro, Baftas (o Oscar britânico) e prêmios de sindicatos. Um fenômeno realmente, mas não deixa de ser mais do mesmo. Ultimamente Hollywood carece de novas idéias.

O filme sai agora em DVD, e pode funcionar como passatempo para sábado à noite. Mas uma melhor pedida é optar por filmes mais do início da carreira de Danny Boyle, como “Cova Rasa” e “A Praia”. Filmes mais interessantes. De uma época em que o diretor fazia menos concessões para aos interesses corporativos de Hollywood.

4 de jun. de 2009

Feliz Natal


Tem futuro o agora diretor Selton Mello. Mesmo que seu filme de estréia não seja tão bom. É que em Feliz Natal já se percebe um olhar inquieto, jovem. Vê-se uma sensibilidade diferenciada. Seu filme tem textura, cheiro. Selton se arrisca num trabalho autoral, corajoso. Ainda que cheio de imperfeições.

Lernardo Medeiros (Não por acaso) é o melancólico Caio, funcionário de um ferro velho que volta ao lar depois de um longo tempo distante da casa em que cresceu. Um filho pródigo que remete de alguma forma a André, o garoto transtornado de Lavoura Arcaica, feito por Selton em 2001.

Em Feliz Natal, o ator/diretor procura a si mesmo. “Estamos sempre voltando pra casa”, disse Selton numa entrevista recente. Creio que o jovem ator dá lugar a um homem mais amadurecido, consciente que o cinema serve para jornadas em busca do tempo perdido de nossa infância. A base de tudo. “O menino é pai do homem”, lembrava Machado.

O cinema brasileiro necessita urgentemente de renovação, sangue novo. Novos diretores, por favor. Selton é uma daquelas mentes carismáticas que podem trazer ar fresco a um cinema inconstante e frágil como o nosso.

3 de jun. de 2009

Os falsários


O judeu Salomon Sorowitsch é o mais procurado e exímio falsificador de dinheiro da Alemanha dos anos 1930. Malandro e egoísta, não tem nenhum apego às tradições do povo hebreu. Quando estoura a II Guerra e é cooptado pelos nazistas para produzir libras e dólares falsos em prol do Terceiro Reich, muitos dilemas passam por sua consciência. É esse o eixo central desta produção austro alemã ganhadora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.

A maior preocupação do diretor Stefan Ruzowitzky é contar bem sua história. Fica em segundo plano uma construção mais elaborada da trama e dos personagens. Em Os falsários tudo é muito bem explicado, bem até demais. Sobram simplificações e fica faltando criatividade cinematográfica. No final fica valendo mesmo a aula de história, Salomon Sorowitsch e sua habilidade em forjar moedas. O maior caso de falsificação que se tem notícia...

O Holocausto é tema onipresente no cinema. Desde o clássico Noite e Neblina de Alain Resnais, documentário feito logo após a guerra. Os falsários não deve ficar na lista das obras mais memoráveis sobre o tema, não. Mesmo ilustrando um episódio da história visto na tela pela primeria vez.

2 de jun. de 2009

Star Trek

J.J Abrams, a mente por trás de Lost, é o responsável pela reinvenção da franquia criada por Gene Roddenberry no final dos anos 60. E como acontece no seriado que virou fenômeno mundial, e também acontecia no star trek clássico, o novo filme usa com habilidade a viagem no tempo para contar a história dos agora jovenzinhos Kirk, Spock e McCoy.

O filme funciona. Não precisa ser trekkie (nerd que se fantasia para ver o filme) para embarcar na utopia sonhada por Roddenberry: um futuro em que a humanidade alcança a paz na Terra e usa o avanço tecnológico para o bem universal. O novo filme acertou também na escolha do elenco, com menção honrosa para Zachary Quinto no papel de Spock. Ele não possui a densidade que tinha a performance de Leonard Nimoy, claro, mas o garoto segura as pontas muito bem.

1 de jun. de 2009

O curioso caso de Benjamim Button


13 indicações ao Oscar e vencedor em 3 categorias, Benjamin Button conta história de um homem que nasce velho e, misteriosamente, começa a rejuvenescer. Adaptado de um conto de Scott Fitzgerald, o filme erra ao esticar demais uma premissa brilhante. Falta foco ao filme de David Fincher (Zodíaco). Muitos personagens e o abuso de clichês travam o desenvolvimento do enredo.

Não parece o tipo de filme que Fincher dirigiria. Acompanhando uma carreira que inclui os poderosos Seven e Clube da Luta, estranha a falta de personalidade do filme estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchet.
O filme tem a “cara de Oscar” (grande produção, astros em papéis dramáticos, um piano tocando na trilha). Desconfio que o filme foi só uma encomenda ao talentoso diretor. Fincher pode muito mais.