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5 de jun. de 2007

Confidencial

Junto com Boa Noite Boa Sorte de George Clooney e Munique de Steven Spielberg, Capote de Bennet Miller foi pra mim um dos mais interessantes filmes norte-americanos do ano passado. Foi com ele que Philip Seymour Hoffman, interpretando o personagem título, faturou a estatueta da Academia de melhor ator em 2006. Confidencial (Infamous), que estreou na última sexta traz novamente a história do tortuoso processo de criação de “A Sangue Frio”, livro divisor de águas na história do jornalismo, dando início ao chamado “romance de não-ficção”.

Inevitável a comparação entre os dois filmes. Muito mais com a mínima distância de tempo entre as duas produções. Mas digo desde já que vale a pena não desprezar o filme de Douglas McGrath. Continua sendo muito estimulante acompanhar o relato de como o escritor Truman Capote obsessivamente lutou para alcançar o material necessário para a produção de sua obra-prima. Uma luta que ultrapassou limites éticos e causou feridas incuráveis no âmago do próprio Capote.

Confidencial trabalha muito com o recurso do falso-documentário, com personagens envolvidos na trama relatando para câmera os fatos ocorridos como se estivessem dando depoimento a um repórter ou documentarista. O recurso é excessivo no seu teor didático sobre o drama que envolve Capote, e compromete um pouco o potencial do filme.


Truman Capote (Toby Jones): Drama ético para criação de sua obra-prima.

No filme de Miller tudo era mais sugestivo, e talvez aí esteja a maior diferença entre os dois filmes. Desde a estrutura do filme até o teor das interpretações, o filme com Philip Hoffman me parece mais econômico nos diálogos e confiante em suas imagens, o que coopera para um filme mais rico e ambíguo do que a recente estréia.

Confidencial já estava em pós-produção quando do lançamento de Capote, o que levou a Warner a postergar o lançamento de seu filme. E se esse texto pautou-se na comparação entre as duas obras, deixo registrado que o Truman Capote de Toby Jones não fica muito atrás do de Philip Seymour Hoffman
. Um Capote mais afetado, é verdade, mas ainda uma grande interpretação.

30 de mai. de 2007

Escola do Riso

Não é por acaso que não tenho escrito muito nos últimos dias. Vi, sim, muitos filmes tanto no cinema quanto em dvd, porém nada que me entusiasmasse a escrever. Mas ainda bem que com um pouco de esforço é possível encontrar filmes estimulantes em cartaz na cidade. Acabo de ver o ótimo Escola do Riso no Cinesesc, uma comédia japonesa de Mamoru Hoshi.

O filme se passa no Japão ainda imperial dos anos 1940, e perpassa os entraves entre um dramaturgo ansioso para realizar uma paródia de Romeu e Julieta, e um censor governamental que pretende, com suas inserções e vetos, transformar a peça em um espetáculo de ode á pátria japonesa.

Dilemas de artistas com a censura é um tema universal. E o fato curioso que o filme traz á tona é que muitas vezes a censura pode ser um instrumento de potencialização do talento do artista. Parece paradoxal, mas lembremos das metáforas que o Cinema Novo usava para refletir criticamente o País em pleno regime militar, ou mesmo a sabedoria de Chico Buarque em mascarar canções de protesto com aparência de músicas de amor. Talento e muita criatividade usada para passarem despercebidas as suas obras pela censura da época.

Mas então será que, afinal de contas, a censura pode ter as suas vantagens? De maneira bem-humorada Escola do Riso mostra que sim. E, além disso, vejo no filme uma instigante reflexão sobre o Humor e sobre a Arte!


"O censor dá-se conta de uma humanidade que desconhecia em si próprio"

Porque um Japão em plena II Guerra precisa de risos em um espetáculo teatral? Qual é a utilidade pragmática da Arte? Arte não possui utilidade. Em nosso corrido dia-dia, pense bem, para que ela serve? São perguntas que o filme de alguma forma responde de maneira genial pelo correr da trama e desenvolvimento dos personagens.

No início do filme, o censor tem o orgulho de dizer que nunca riu na vida e crê que é um absurdo investir tempo na produção de algo que só servirá para arrancar risadas da platéia. Porém ao longo do filme, o carrancudo personagem envolve-se no processo criativo da peça, torna-se colega do escritor e, para a surpresa dele próprio, dá a sua primeira série de espontâneas gargalhadas.

O censor dá-se conta de uma humanidade que desconhecia em si próprio. Percebe que por trás da máscara da Instituição que ele representa há um homem capaz de criar...

Muito além de uma simples comédia sobre os contratempos de um artista e um censor, temos um rico ensaio sobre a “utilidade” de algo aparentemente sem função prática alguma: A Arte.

Já virou frase-feita dizer que a comédia é o “horror filtrado pela poesia”. Ela realmente é, mas prefiro a definição de Charlie Chaplin para a importância da arte de fazer rir, e o que também não deixa de ser um pensamento sobre a Arte:

“O humor serve para realçar nosso senso de sobrevivência e para manter nossa sanidade”.

Lindo...

15 de mai. de 2007

Baixio das Bestas

Não acho que seja o melhor, mas o diretor pernambucano Cláudio Assis é com certeza um dos mais viscerais dentre os cineastas em atividade no País. Como disse em entrevista ao Estado de São Paulo, Assis só faz um Cinema que venha do âmago de seu ser.

Baixio das Bestas permite variadas leituras. Num olhar mais periférico, poderíamos pensar o filme como uma denuncia à violência e exploração contra a Mulher, na Zona da Mata nordestina. O filme também é isso. Mas seríamos reducionistas em relação a ele se deixássemos de notar que é também uma obra sobre o ciclo da cana-de-açúcar, a Impunidade, o Brasil e, porque não, um filme que tentar pensar o Homem em sua essência?



Baixio das Bestas: Filme que vem para provocar, intimidar, questionar.

Gosto muito de Amarelo Manga, seu primeiro longa, como também de Baixio das Bestas, um pouco pelo mesmo motivo. O que me fascina na arte de Cláudio Assis é sua coragem em explorar o que há de mais imundo e desprezível no gênero humano. Ele disseca aquelas facetas do nosso ser que preferimos não lembrar, ou simplesmente esquecer. E não o faz como um “voyeur” confortavelmente distante de seus personagens. Assis conhece o mundo em que passeia sua câmera. A força de seus filmes vem, acredito, do conhecimento íntimo que ele tem desses personagens, que expressam tanta podridão ética e moral.

Amarelo Manga e Baixio das Bestas têm os seus pontos de contato, mas são diferentes. Completam-se, talvez. A estrutura em filme-coral permanece, porém o segundo vai visivelmente além do primeiro, tanto esteticamente como conceitualmente.

Pode parecer um paradoxo. Mas mesmo Baixio das Bestas expondo tanta violência, exploração, etc, é um filme com uma qualidade tão límpida de imagem que incomoda. O fotógrafo Walter Carvalho usa a pureza do 35mm não buscando uma "estética da miséria" ou algo gênero, mas para não dar trégua ao espectador da sala de cinema. É um filme que vem para provocar, intimidar, questionar. Grande Cinema!

10 de mai. de 2007

BABEL


O filme dividiu crítica, público, júri de festivais... Isso já é motivo para ver o filme e tentar compreender os motivos de tanta controvérsia. O diretor é o mexicano Alejandro Inarritu, de Amores Brutos e 21 Gramas. O seu terceiro longa, que chega às locadoras em breve, é também sua terceira parceria com o roteirista Gilhermo Arriaga, ganhador do prêmio de melhor roteiro em Cannes por Três Enterros, de Tommy Lee Jones.

Bem, como eu disse, Babel dividiu opiniões. E, claro, dividiu também a minha. Inarritu já provou que tem muito mais talento do que demonstra nesse filme. A pretensão e ousadia podem ajudar muito à uma obra artística (vide Quase Dois Irmãos), mas neste filme a megalomania do diretor desequilibra um projeto de grande potencial, mas que fica aquém do esperado.


Inarritu: Diretor já mostrou que é mais capaz em seus primeiros filmes.

O Cinema é em si uma ilusão. Dentro da sala escura temos projetado na tela 24 fotogramas por segundo, que nos dão a idéia de movimento. Porém, o grande artifício que é a obra cinematográfica não nos impede de viajar nas mais diversas experiências. Mas, ocasionalmente, algum “artifício” da construção fílmica pode incomodar por não nos convencer de alguma forma e “quebrar” a ilusão que temos ao ver um filme.

Acontece isso comigo em Babel. Tem-se um projeto ousado, com um roteiro que deve articular histórias simultâneas em diferentes partes do Globo. Para dar conta de desenvolver todo esse emaranhado de dramas, Babel acaba apelando para “soluções” artificiais de roteiro. Nem todas as relações entre as diferentes histórias são inteiramente verossímeis. O episódio japonês, como disse Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão, é o mais frágil de todos eles.
O diretor tem como marca em sua obra desenvolver personagens em situações-limite. E tem em seu 21 Gramas a sua maior obra até agora.
Em mais de 2 horas de Babel, acredito que o único episódio que se sustenta é o do casal americano no Marrocos interpretado por Brad Pitt e Cate Blanchet. No todo falta melhor desenvoltura ao filme e, talvez, um pouco mais de pé no chão para refletir sobre o mundo caótico e não-comunicativo em que vivemos.

5 de mai. de 2007

Homem-Aranha 3

Impossível resistir. Escapei de uma aula da noite na Faculdade e fui conferir no dia de estréia o filme que é o fechamento de um ciclo de amadurecimento na vida de Peter Parker/Homem-Aranha. E vou logo adiantando, Homem-Aranha 3 é o melhor filme da trilogia!

Queria ir numa sala de cinema bem popular para sentir a expectativa da platéia. Fui no Shopping da Lapa. Acompanhado por uma multidão de adolescentes ansiosos que, para o bem ou para o mau, são a razão de ser desse tipo de cinema – evento.

Diferente do que li em algumas críticas sobre o filme, o terceiro episódio está longe de ser “mais do mesmo”. A terceira parte da saga do herói aracnídeo vai além dos dois primeiros filmes, sendo o mais “adulto” de todos eles. O que, acredito, colaborou para surpreender um pouco a platéia do Centerplex Lapa 1 em alguns momentos, que esperava uma aventura mais passageira.

O primeiro filme era sobre a responsabilidade do herói em lidar com seus poderes, o segundo sobre os dilemas em equilibrar uma vida de herói e uma vida pessoal-amorosa atribulada. Nesse terceiro, Parker deve transformar-se num Homem-Aranha ético, adulto. Amadurecido o suficiente para não se tornar somente um vigilante-vingativo, mas sim um homem capaz de ouvir, compreender e perdoar.

Os dilemas do Homem-Aranha são agora de ordem moral


Um simbionte alienígena hospeda-se no uniforme de Aranha, deixando-o mais ágil e poderoso, mas em troca o bicho faz aflorar o lado da personalidade de Peter mais sombrio e obscuro. Homem-Aranha é em boa parte do filme (a melhor) seduzido pelo “lado negro da força...”.

Dando-se conta de quão diferente ele se tornou tomado pelo alienígena, Peter busca redenção numa igreja cristã, local onde temos o prazer de acompanhar a melhor e a mais forte seqüência de toda a trilogia. Os sinos da igreja reverberam e Homem-Aranha coloca-se de joelhos em busca de expiação. É genial!

O filme superou o maior dos temores que eu tinha antes de vê-lo: não conseguir equilibrar o grande número de vilões e sub-tramas. O diretor Sam Raimi não deixa a peteca cair. Também não transforma seu filme em um grande frenesi de ação e efeitos. O ritmo do filme é cadenciado como o dos dois primeiros, dando tempo para que os dramas dos personagens fluam no tempo certo.

Tobey Maguire sempre esteve ótimo na pele do herói, mas Kristen Durst com sua Mary Jane é a alma do filme. Durst, com Maria Antonieta e esse filme, prova-se uma atriz excepcional. Sem exagero. Os anos de passagem da adolescência para a vida adulta foram tão bons para ela como foram para o Homem-Aranha.

É claro que haverá outra seqüência ao filme. A caixa registradora dá as cartas na indústria de Hollywood. Mas tomará um pouco mais de tempo que o habitual dois ou três anos. Homem-Aranha 3 fecha uma jornada de romance, amizade, e sobretudo, da construção do Herói!

2 de mai. de 2007

Proibido Proibir

Depois de um feriado prolongado estamos de volta. Acabo de chegar da sessão de Proibido Proibir, filme do chileno radicado no Brasil, Jorge Durán. Como disse o crítico Carlos Alberto Mattos em um texto sobre o documentário Cartola: Não gostei de não ter gostado de Proibido Proibir...

Tinha bastante expectativa pelo filme. Acompanho sua carreira com interesse desde sua passagem pelo Festival do Rio e na Mostra de São Paulo no ano passado. Além disso, admiro demais o trabalho em outros filmes da trinca principal de atores. Mas o potencial que o filme poderia ter (e acaba tendo, só que em poucos momentos) deixa bem a desejar.

Há talvez um excesso de temas no filme que acabam por se anularem entre si. Amizade, corrupção policial, falta de perspectiva para infância da favela, política, arte... Diversas fatias de nosso Brasil são ilustradas na tela. Um recorte mais definido cooperaria para um resultado mais interessante. Falta ritmo e unidade a Proibido Proibir.

Mas não sejamos injustos, nem tão parciais. Proibido Proibir tem qualidades. Uma delas é que seu diretor confia em seus atores. A eles é dada a possibilidade de se expressarem além do discurso falado. Costuma-se falar demais no Cinema Brasileiro, mas Durán sabe valorizar um olhar, um gesto, a sugestão.



Realidade Nacional, mas sem pessimismo: o “Sol voltará a brilhar...”.

É um filme que deve ser visto, com certeza. Proibido Proibir reflete sobre uma juventude que pode ir além da alienação e do vácuo ideológico que convivemos (que somos?). Os três jovens protagonistas deparam-se com um Brasil contraditório, cheio de seqüelas. Vale a pena lutar por ele? Ficamos com o ceticismo do personagem Paulo (Caio Blat) ou o anseio pela luta de León (Alexandre Rodrigues)?

O filme não é pessimista e a canção final nos convida à esperança de que o “Sol voltará a brilhar...”.

25 de abr. de 2007

Filhos da Esperança

Fernando Meireles, diretor de Cidade de Deus, diz uma coisa interessante em seu livro Biografia Prematura, depoimento seu compilado pela jornalista Maria do Rosário Caetano. Ele lembra que Hollywood, diferente do que pode parecer, está muito mais interessada em contratar diretores que realizam um cinema não-convencional, do que os habituados a fazer um tipo de cinema mais tradicional. Hollywood carece de talento e originalidade, e busca por isso nos quatro cantos do planeta.

Foi assim com o mexicano Alfonso Cuarón, diretor de Filhos da Esperança, que acaba de sair nas locadoras. O cineasta chamou atenção há alguns anos com E sua mãe também, filme sobre a jornada de amadurecimento de dois adolescentes mexicanos.

Ganhando prêmios por todo o mudo, o diretor foi convidado para tomar as rédeas da terceira parte da série Harry Porter. Não vi esse filme, mas muitos fãs do bruxinho me garantiram que o filme era bem superior aos dois primeiros, dirigidos por Cris Columbus (Esqueceram de Mim). Alfonso Cuarón é bem talentoso e aparece agora com um filme que aponta para onde a humanidade pode chegar no futuro, se não olhar seu presente com mais cautela.

Filhos da Esperança alerta para um futuro próximo (2027) em que a raça humana não é mais capaz de se reproduzir. Caminha para sua extinção. Mas a esterilidade tomou conta não só de nossa biologia, mas também de nossa solidariedade com o outro. Racismo e questão imigratória são tratados como casos de polícia numa Inglaterra intolerante e em estado de guerra.

Nesse painel de desolação acompanhamos a luta de Theodore Faron (Clive Owen), burocrata que busca proteger uma jovem que carrega a criança que pode ser a “esperança” para um Mundo sem perspectiva.

O filme possui pelo menos duas cenas magistrais. Quando planos-seqüências nos deixam mais próximos da veracidade das cenas. Minutos inteiros passam sem que um único corte na montagem nos distancie de uma Londres que virou campo de batalha.


Theodore Faron (Clive Owen): Mundo sem perspectiva

Pegando um pouco carona com o post anterior, Filhos da Esperança é também cheio de admiráveis intenções. Mas parece que por estar sempre lembrando o espectador que, afinal de contas, HÁ esperança para a humanidade, seu filme perde a força que poderia ter.

O tom quase divino dado à criança recém nascida e a todo o final do filme me parece um pouco descabido. Lembra aquelas peças de igreja natalinas, com Maria ninando Cristo ao som de uma irritante música-coral... Mesmo com as boas cenas de ação, nos finalmentes de Filhos da Esperança já não há muito interesse em acompanhar o apático Clive Owen tentando salvar o filme, quer dizer, o Mundo...

23 de abr. de 2007

Batismo de Sangue

Difícil falar sobre esse filme. Para escrever uma crítica é necessário olhar a obra com certa perspectiva. Mas como ter esse distanciamento diante de um filme de tema tão delicado e humanamente relevante como acontece em Batismo de Sangue? Como criticar negativamente um filme sem desmerecer a sua causa e o seu tema?

Batismo de Sangue conta sobre o envolvimento de freis católicos com a luta armada em pleno 1968, ano decisivo no endurecimento do regime militar brasileiro. O diretor Helvécio Ratton tem claramente a intenção de fazer de seu filme uma referência didática para novas gerações. Mas a força do filme se esvai diante de interpretações pasteurizadas e cenas dramaticamente inconsistentes.

Às vezes é até incompreensível ainda encontrar no cinema nacional filmes tão imaturos dramaturgicamente como esse Batismo de Sangue, Zuzu Angel, Olga e outros.

Se o intuito do diretor era conscientizar o espectador sobre a luta e perda de vidas em nosso pesadelo militar, ele talvez consiga algum resultado nos últimos minutos do filme, quando a interpretação de um excelente Caio Blat “quase” redimi todo o filme até ali. Para que Ratton alcançasse inteiramente seus objetivos, ele primeiro tinha que aprender seu ofício de diretor de cinema.

Cabe ao cineasta liderar uma equipe de profissionais selecionada por ele, que o ajudem a passar sua visão do filme para a tela grande. Alguém duvida do talento de atores como o de Daniel de Oliveira e Ângelo Antônio? Ou mesmo do currículo do fotógrafo Lauro Escorel? Mas o diretor não foi capaz de potencializar o talento de sua equipe. Pelo contrário, molda seus atores para constrangedoras performances artificiais, e uma estética não muito mais interessante do que a que vemos numa novela global.


Recente estréia nos cinemas: Resultado incompreensível

Se algo pode se salvar dessa irregularidade irritante é a já comentada interpretação de Caio Blat, e a trilha sonora de Marco Antônio Guimarães (Lavoura Arcaica), que junto com Antônio Pinto, é um dos mais fascinantes músicos brasileiros para cinema.

Como disse no começo texto. Não pretendo desmerecer um tema tão delicado como o do filme. Sou sensível a ele. Mas boas intenções infelizmente não fazem grandes filmes...

Jack Nicholson, 70 anos

Domingo de madrugada. Texto curto. Hoje (ou ontem), dia 22, Jack Nicholson decorou seu bolo com setenta velinhas...

Nicholson já conquistou três oscars. Dois como melhor ator: por Um estranho no Ninho e Melhor Impossível, e um de melhor coadjuvante por Laços de Ternura. O “velho” Jack já faz parte da história do cinema, mas continua ativo. O bom Os Infiltrados do Scorcese está aí para comprovar a vitalidade do ator, interpretando um insano chefe da máfia de Boston.

Revi ontem a comédia Melhor é Impossível, de James L. Brooks, e lembrei de como é espantosa a versatilidade desse grande ator. Ele foi o pai assustador em O Iluminado, o malandro cativante de Um Estranho no Ninho, o exagerado Coringa em Batman de Tim Burton. Ele fala que esse é o papel que ela mais gosta em toda a sua carreira. Talvez seja por ter muito do próprio Nicholson no personagem. Ironia, sarcasmo e excentricidade são algumas das características do velho vilão do homem-morcego que Jack costuma cultivar e forjar para si próprio.

Vida longa ao septuagenário! Muitas das interpretações de Jack no cinema fazem parte do meu imaginário cinematográfico. Seu personagem em Um estranho no Ninho, torcendo por um jogo de beisebol numa televisão desligada é absolutamente genial! Cena para vida toda...

21 de abr. de 2007

Bond, James Bond


Deve ser complô da crítica especializada. É incompreensível. Se vi uma resenha negativa ao novo filme de James Bond foi muito. Até entendo a idéia dos realizadores de renovar a franquia dando mais realismo e humanidade a Bond. Mas o filme não decola em momento algum. Se há alguma grande cena em Cassino Royale é somente a inicial, com aquela perseguição por prédios e andaimes.

Mas aquele namorico do espião com Eva Green não me convence jamais. Não há química. Daniel Graig já mostrou antes que é um grande ator (Estrada da Perdição, Munique), mas sua inexpressividade em Cassino Royale é para mim uma incógnita. Ah, que saudades do sarcasmo de Roger Moore...

Em matéria de filmes que contam a gênese do herói, Batman Begins continua imbatível. Cassino Royale acaba de sair nas locadoras, será que só eu estou errado sobre o novo Bond, James Bond?

20 de abr. de 2007

O Cheiro do Ralo

Numa das entrevistas que Selton Melo deu para a divulgação de O Cheiro do Ralo, o ator comentou que adorava ver e rever o filme porque notava que era impossível ficar ileso ao personagem de Lourenço, que ele interpreta. “A arte deve provocar”, disse ele nos finalmentes da entrevista. Realmente. A arte tem que fazer-nos pensar. Pode-se até detestar O Cheiro do Ralo, achá-lo grosseiro e muitas vezes de mau gosto. Mas é impossível ficar indiferente a ele.
Depois da primeira vez que vi o filme fiquei até com um certo temor de alguém me perguntar se eu havia visto o filme. Pior ainda se a pessoa perguntasse se eu havia gostado ou não. Não saberia o que responder. Às vezes acontece, demora para se criar uma opinião sobre um filme.

Acabo de rever as aventuras do desprezível Lourenço. E estou agora mais seguro de minhas impressões. O Cheiro do Ralo é a crônica de um solitário. Um homem tão insensível com o seu próximo que é incapaz de qualquer compaixão.
Lourenço (Selton Melo) trabalha comprando e vendendo objetos dos mais diversos. É a única relação que consegue estabelecer com o mundo em que vive. Como disse Marx em seu Manifesto de 1848, no qual critica o ideal Capitalista, Lourenço “transforma as relações interpessoais em relações monetárias”.

Pode parecer um paralelo meio descabido. Mas nas duas vezes em que vi o filme, olhando para aquele incansável acumulador de “coisas”, mas não de pessoas, lembrei-me de Cidadão Kane, de Orson Welles. Kane, no filme de 1941, quando jovem é um idealista liberal, mas com o tempo transforma-se num manipulador de massas e amigos. No final de sua vida, nada lhe resta a não ser estátuas, mansões e propriedades. Acumulação de bens num propósito de preencher seu vazio existencial.

Num certo momento de O Cheiro do Ralo, Lourenço diz quase chorando que a maioria das coisas que ele sente mais saudade na vida são coisas imateriais. Lourenço quer voltar a ser mais humano, mas não consegue e nem sabe como. Ele busca redenção para o homem que ele se tornou: Um explorador execrável de pessoas no limite da humilhação. Nem em relação ao seu maior objeto de desejo (vejam o filme) consegue ele estabelecer uma relação afetiva. Tudo vira um objeto que o dinheiro pode possuir.

Como em Kane, temos aqui a jornada infeliz de um capitalista. Que seria inteiramente repulsivo se não fosse a interpretação de um Selton Melo inspirado, e merecedor dos prêmios que tem acumulado pelo filme. Nos divertimos com Lourenço, mas também sentimos por ele. O Cheiro do Ralo sabe fazer rir, e acima de tudo, provocar.

19 de abr. de 2007

Labirinto do Fauno

Filme emociona por contrapor inocência infantil e brutalidade fascista


Após ter postergado por quase quatro meses, fui na última quarta-feira ver o filme do mexicano Guilherme Del Toro. Junto com Afonso Cuarón (Filhos da Esperança) e Alejandro Iñárritu(Babel), Del Toro completa o trio de cineastas que representa uma fase de renovação no cinema mexicano.

O diretor de Labirinto do Fauno transita entre o cinema dito mais comercial, como Hellboy, e um cinema mais autoral, em que busca expressar com mais desenvoltura suas idéias e visão de mundo.

Gostei demais de Labirinto! O ano é 1944, e após o final da guerra civil espanhola grupos de resistência ainda lutam em prol do republicanismo e contra a ditadura de Franco. Nessa Espanha em convulsão, o filme acompanha a imaginação da pequena Ofélia, menina de pouco mais de oito anos, devoradora de livros de contos de fadas.

Em paralelo à historia fabular da pequena, acompanhamos os movimentos de resistência nas montanhas próximas onde se hospeda Ofélia, sua mãe e seu padrasto, capitão do exercito governista.

Num primeiro momento, o filme pode incomodar o espectador que não encontra uma relação evidente entre a fantasia da criança e o mundo real à sua volta. Mas uma olhada com mais cautela revela uma belíssima fábula para adultos sobre a importância da resistência política e a liberdade. Enquanto os adultos em volta de Ofélia lutam com armas, ela resiste com sua imaginação, com sua inocência. Ao final do filme, as pontas se fecham.

Filme conquistou os oscars de maquiagem, direção de arte e fotografia

A estética primorosa também merece nota. É sempre estimulante quando efeitos especiais colaboram para expressar a visão de um diretor consciente, e não existem somente para pura embromação. (acabo de ver Quarteto Fantástico...).

Enquanto o pretensioso Babel, na última festa do Oscar, ficava com o prêmio de consolação para a sua trilha sonora (convencional), Labirinto do Fauno conquistava os merecidos Oscars de maquiagem, direção de arte e fotografia.

Guilherme Del Toro prepara agora a continuação de Hellboy, com Ron Perlman. Não vi o primeiro da série por puro preconceito, mas vou reconsiderar. Há muita vida inteligente no cinemão, e muitas vezes nos passa despercebida.

17 de abr. de 2007

Tiros em Virgínia

Participo de uma série de grupos de discussão sobre cinema. E quase todos eles tiveram infelizmente como pauta do dia o tiroteio ocorrido no campus do Instituto Tecnológico da Virgínia. Muitos dos integrantes desses grupos lembraram de Tiros em Columbine, documentário de Michael Moore que tenta encontrar as razões para uma tragédia similar ocorrida numa escola ginasial de Columbine, EUA, em 1999.

Na busca por uma resposta para tal violência, Moore reflete sobre o fácil acesso ás armas de fogo, a política externa americana, o Medo como forma de dominação e outros tópicos. O diretor não encontra uma resposta absoluta, e nem poderia. O caminho final para a busca de um sentido para acontecimentos como o de 1999 e o de dois dias atrás estão fora de um alcance imediato.

Michael Moore se tornou um nome mundial após seu Tiros em Columbine, mas ao longo dos anos foi perdendo prestígio pelo questionamento de seus métodos como entrevistador e como cineasta manipulador de dados e emoções. Para mim, o cinema de Moore já há algum tempo deixou de ter o valor que um dia lhe conferi.

Nesse debate todo, poucas pessoas se lembraram da versão ficcional para o caso Columbine feita pelo diretor Gus Van Sant (Gênio Indomável) .O filme se chama Elefante e foi o grande vencedor em 2003 da Palma de Ouro em Cannes, maior festival de cinema do globo.

Van Sant, em seu filme, também não encontra respostas e nem quer realmente. Seu filme é um ensaio sobre um dia que jamais termina. Um filme frio e cru na abordagem da violência não só dos dois garotos que empreendem o tiroteio, mas também da violência dos demais alunos e da instituição escolar para com eles.


Elefante: Ensaio sobre os valores da sociedade americana


Elefante é uma experiência cinematográfica fortíssima e acho que pouca gente viu. Passeando com sua câmera por diversos personagens, o diretor consegue nos fazer pensar sobre a fratura de valores que regem o âmago da sociedade americana. Os EUA é diagnosticado como um país doente por dentro. Aluguem!

16 de abr. de 2007

Cine Brasil

Hoje passou na Tela Quente o filme Olga, do Jayme Monjardim. Vocês já devem saber que o filme é o horror do horror e nem vale a pena falar dele aqui. Novelão puro. Mas queria aproveitar para falar de um assunto um pouco mais amplo.

Não vejo muito tv, mas em compensação gosto de ler sobre quase tudo que sai no jornal sobre o tema. Os programas de maior ibope, as polêmicas do momento, etc. Televisão tem uma importância impressionante na nossa cultura, e acho que vale a pena estar por dentro do que se passa...

Li recentemente que os filmes brasileiros que passam na Globo costumam ter um ibope bem superior a muitos filmes estrangeiros que preenchem o horário. O “Festival Brasil” da emissora é hoje um grande chamariz para vendas de espaço publicitário.

Isso dá o que pensar. O cinema brasileiro é há muito tempo estrangeiro em seu próprio país, com seu mercado dominado pelo cinema americano. Nossos filmes não se pagam na bilheteria. 99% deles são realizados com auxílio de dinheiro público. Nosso dinheiro...

Mas se na tv aberta o filme brasileiro tem tanta atenção do público, por que é tão difícil acontecer o mesmo nas salas de cinema?

Dizer que filme brasileiro é ruim ou mesmo mal feito costumam ser dizeres de gente bem ignorante e/ou preconceituosa. O cinema brasileiro há muito tempo alcançou maturidade tanto técnica quanto artística, e só não enxerga isso quem não quer. Não creio que esse tipo de pensamento ainda permeia uma grande parcela do publico.

"Para quem se faz hoje cinema no Brasil?"

Por tudo isso, acredito que um dos principais motivos para essa contradição, de o filme brasileiro ter um público cativo na tv e muitas vezes não no cinema, é uma questão em grande parte econômica. Só classe média e alta tem hoje condições de ir ao cinema com freqüência. O ingresso é caríssimo.

Para quem se faz hoje cinema no Brasil? Toda a nação paga pelo filme, mas só um grupinho acaba vendo o resultado. Faz-se urgente a criação de um circuito de cinema popular! De rua, fora dos grandes Shoppings!

Grande parte da sociedade que dá o alto ibope para o filme na tv não tem condições de ver o mesmo filme no cinema. Faltam salas, melhoras na distribuição dos filmes, e principalmente vontade política de um governo que parece ver o País de camarote.

O Brasil também quer se ver na tela grande, e não só entre o Jornal Nacional e o Big Brother.

15 de abr. de 2007

300 (2)

Lá vamos nós de novo. Gostaria de voltar aos 300. Primeiramente pelo grande número de comentários que gerou o primeiro post sobre o filme, e também por uma observação que fez meu grande amigo, Márcio Lopes.

Ah, já vou desde já esclarecendo que esse texto não é uma tentativa de me redimir em relação ao filme. Achei todos os comentários contrários ao meu ponto de vista bem pertinentes, mas minha opinião sobre o filme continua...

Porém, para não parecer que não gostei de NADA no filme, quero escrever sobre algo que pensei logo quando vi 300, mas acabou não entrando no meu primeiro texto.

Como lembrou meu amigo Márcio, a história é contada por um narrador. Mas não um narrador qualquer, ele na verdade foi um participante direto na luta contra os persas e companheiro próximo do rei Leônidas. O que pretendo ressaltar é que não é toa que tudo no filme soe tão exagerado, desde o número de persas, até a valentia do 300, etc. Há uma razão muito coerente para tudo isso. E quero reconhecê-la aqui.

Dentre as (poucas) coisas que gosto no grafic novel original são os momentos em que o “contador de histórias oficial” da tropa os envolve com as mais cativantes aventuras sobre os espartanos e o seu rei Leônidas. É assim que se criam os mitos, e é onde o recorte subjetivo de um indivíduo acaba se sobrepondo à verdade dos fatos.

O rei Leônidas quer virar mito poupando o personagem do “historiador”

O rei Leônidas sabe disso, e quer virar mito poupando o personagem do “historiador” da morte certa, já no final do filme. “Alguém têm que ficar para contar a história...”. Teríamos a existência desse filme se antes não tivéssemos as palavras de Heródoto em louvor a aqueles espartanos?

Por mais que fique incomodado com todo aquele sangue e exagero todo, sei que por trás há um sentido interessante. Aquela história é fruto do envolvimento pessoal de um soldado, e não importa que ela seja factualmente verdade ou não, mais importa que ela se torne inspiração para os demais espartanos. Toda a história sobre os 300 de Esparta não precisa ser verdade. Precisa ser a verdade somente para aqueles soldados. É o seu mito.

Toda nação cria e necessita de referências para sua história. Aqueles espartanos, na figura daquele narrador-sobrevivente, criaram um mito sobre a batalha contra Xerxes e o que vemos em excessos na tela é conseqüência de uma parcialidade, de uma intenção maior por trás daquilo tudo...

Acho isso bem bacana, até bonito...