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28 de mai. de 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal


O quarto filme do herói arqueólogo é frustrante por uma razão principal: Spielberg há alguns anos já virou um adulto. Não é mais o jovem cineasta que concretizava no Cinema suas fantasias com tubarões, extraterrestres e heróis à moda antiga.

No começo de sua carreira, os críticos até o acusavam de ter um certo complexo de Peter Pan. Bem, se isso é verdade, esse tal complexo o ajudou a realizar filmes de primeira qualidade para o grande público, inclusive os três primeiros Indiana Jones.

Mas agora, quase vinte anos após a realização de Indiana Jones e a Última Cruzada, Steven Spielberg não pode voltar no tempo e ser novamente o cineasta que era, com sua imaturidade, frescor e outros atributos que o favoreceriam para acertar a mão neste seu último filme.

Esse amadurecimento talvez não ajude o diretor na realização desses filmes blockbusters, mas com certeza colaborou para a feitura de obras mais sólidas como A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan e, principalmente, Munique, disparado o melhor filme de sua carreira.

O novo Indiana Jones só não é um desastre completo por causa de seus personagens cativantes e a performance de Harrison Ford. Como ocorreu com a nova trilogia Star Wars, Spielberg, George Lucas e companhia exageram nos efeitos computadorizados e deixam para segundo plano o desenvolvimento de uma trama mais amarrada e envolvente.

Seria exagero, creio, chamar Steven Spielberg de “autor”. Mesmo que seja possível observar temas recorrentes em seus filmes como a família, a questão do outro, etc. Porém, uma coisa é certa, mesmo ao fazer um filme de aventuras despretensioso, o cineasta deve buscar fazer o filme que pessoalmente lhe agrada, e nunca o filme que ele imagina que o público gostaria de ver na tela...

Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida é ainda o melhor filme de todos, e um dos motivos é que Spielberg fez esse filmaço muito para satisfazer a si próprio, enquanto que esse último filme, disse ele em entrevistas, fez para os fãs. Estou generalizando, eu sei, mas acho essa declaração pode ser outra pista para solucionar o porquê das duas horas de pura decepção.

6 de mai. de 2008

O Sonho de Cassandra (2)


Há um fator novo e digno de nota no cinema de Woody Allen, especificamente em seu último filme, que é o uso de uma trilha sonora original. Quem acompanha os filmes do diretor sabe que o melhor do Jazz norte-americano acompanha os enredos de seus filmes como também a cidade de Nova Iorque se tornou uma de suas marcas registradas no Cinema. Temos então em O Sonho de Cassandra algo novo a ressaltar, um compositor especialmente convidado para compor a trilha do filme, no caso o músico norte-americano Philip Glass.

Pessoalmente não sou um grande entusiasta das partituras de Glass para o Cinema. Acho suas músicas repetitivas, plágio de si mesmas, por mais que reconheça sua eficácia em filmes como As Horas e no documentário Sob a Névoa da Guerra. Em O Sonho de Cassandra, creio que a trilha funciona muito bem. É econômica, senão precisa para acentuar os momentos de tensão e suspense na trama.

Quando ressalto (no texto abaixo) que vejo em O Sonho de Cassandra um filme de alguém que domina a linguagem do Cinema é também considerando o bom uso da trilha sonora pelo cineasta. Vejo um amadurecimento nesse quesito no Cinema do diretor desde Match Point (2005), no qual a música operística tinha um papel fundamental como pano de fundo da aristocracia inglesa. No filme, trechos de obras de Verdi e Bizet são usados com mestria pelo diretor.

Em Scoop – O grande furo (2006), seu filme seguinte, também se passando em Londres, temos a música clássica novamente muito presente, só que agora na busca de um tom mais cômico, com Grieg e Tchaikovsky. Gosto então de pensar que o “sucesso” do uso da trilha orquestral (original) em O Sonho de Cassandra não é por acaso, mas comprova uma genuína preocupação do cineasta em explorar novos territórios quando se trata de música para seus filmes.

5 de mai. de 2008

O Sonho de Cassandra

Ir ao cinema para ver o novo filme de Woody Allen é como rever um velho amigo. Uma vez por ano esse nosso companheiro-cineasta reflete sobre temas que o perseguem e que já foram explorados anteriormente em sua vasta filmografia.

Diferente do que muitos críticos acreditam, O Sonho de Cassandra não é mera repetição, ou uma “sub-obra” na carreira de Allen. Mas sim, um novo degrau na investigação e enfrentamento de dilemas pessoais do cineasta como a Morte, a Ética e o mundo contemporâneo. Eis a trama: Dois irmãos precisam urgentemente de dinheiro e o método mais fácil de conseguir é matando o inimigo de um tio rico.

Em suas entrevistas, Woody Allen é o primeiro a admitir que não se acha um diretor apto para realizar filmes “políticos” ou de “crítica” a algum tema atual. Porém, tanto em seu penúltimo filme, Match Point (2005), como no que acaba de estrear, Allen prova ser um cineasta muito atento ao mundo globalizado em que vive e capaz de apontar suas contradições. Sob que Ética viver num mundo obcecado pelo dinheiro? Quais os limites que a sociedade têm ultrapassado em favor do sucesso nos negócios?

Essas são algumas das questões que permeiam O Sonho de Cassandra. Uma excepcional obra cinematográfica. De um diretor com extremo domínio da técnica e da linguagem do Cinema. A cena na qual o assassinato é posto em pauta na trama, e na vida dos irmãos, é simplesmente brilhante nesse sentido.

Como em Crimes e Pecados (1989) e em outros de seus filmes, temos o assassinato, a culpa, os dilemas de Raskólnikov que tanto fascinam o diretor nova-iorquino. O que faz, talvez, de O Sonho de Cassandra um filme tão forte é o ingrediente de tragédia que move a trama até o desenlace.

É fascinante acompanhar tão rica obra artística. Em Crimes e Pecados, o personagem (também assassino) de Mantin Landau conseguia empurrar sua culpa para debaixo do tapete, o que nos dava um nó interior em nossas convicções religiosas e dramatúrgicas. Em Match Point , por sua vez, o arrivista Cris, após o assassinato de sua amante inconveniente, parece ter perdido parte de sua humanidade num final amargo, dilacerante.

Agora, os irmãos Colin Farrel (excepcional) e Ewan Mcgregor pagam por seus crimes de maneira inevitável. Mais do que uma simples lição de moral como “o crime não compensa”, Woody Allen nos dá um testemunho lúcido e crítico sobre o estágio a que chegamos como civilização, na qual a busca pelo dinheiro destrói relações familiares das mais sinceras.

Um grande filme, com certeza. Que poderá entrar no grupo das obras-primas do diretor, junto com Manhattan (1979), A Outra(1988) e Crimes e Pecados (1989).

14 de abr. de 2008

Maré - Nossa História de Amor

É uma pena, mas o novo filme de Lúcia Murat me parece um equívoco colossal. Sou um sincero admirador de Quase dois Irmãos, seu filme anterior, que acho um dos melhores filmes brasileiros dede a Retomada. Mas seu musical na favela constrange.

Por mais que atualmente vejamos alguns exemplos de musicais nas telas, os filmes do gênero ainda são esporádicos e a qualidade dos mesmos muito duvidosa. Aqui nos trópicos, não se via a produção de um musical (creio eu) desde os tempos de Oscarito e Grande Otelo.

É, portanto, de uma ousadia tremenda almejar levar para o Cinema o canto e dança num enredo shakespeariano já manjado. No resultado final, nada se sustenta. Nem mesmo o texto, a escolha das canções ou dos atores, que podem saber rebolar muito bem, mas a falta de carisma do elenco é generalizada.

25 de mar. de 2008

2 dias em Paris


Fui ver 2 dias em Paris com boas expectativas. Julie Delpy é a atriz, roteirista e diretora dessa comédia romântica despretensiosa, e quem me conhece sabe bem que gosto enormemente da atriz no díptico Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, de Richard Linklater.

Vi o filme com um amigo e a decepção foi a mesma. Julie faz a francesa que leva o namorado americano (Adam Goldberg) para conhecer seus pais na cidade-luz. O choque cultural do namorado com sua família (e Paris) é a linha-mestra do longa.

A idéia é convencional, mas não quer dizer que por isso a estréia na direção de Delpy esteja fadada ao fracasso. O problema é que ela se utiliza exaustivamente dos clichês e preconceitos mais comuns em relação aos franceses: Taxistas mal-educados, liberalidade sexual, etc. Tudo muito raso, repetitivo e, infelizmente, sem graça nenhuma.

Não sou o primeiro a dizer que fazer Comédia é algo muito mais complexo do que a feitura de um Drama. Delpy não acerta o tom de humor, por mais que seu parceiro de cena, Goldberg, tenha alguns bons momentos. Julie Delpy é realmente francesa e espanta esse seu olhar reducionista sobre sua terra natal. Filme de estreante. Mais sorte na próxima.

17 de mar. de 2008

Sicko - S.O.S. Saúde

Deve ter sido um baque bem grande para Michael Moore a vitória para um segundo mandato do presidente George Bush. Fahrenheit 11/09, filme anterior do diretor, nada mais era do que um grande longa panfletário anti-bush. Lembro que no dia seguinte à vitória do republicano, Moore, procurado pela imprensa, decidiu não se manifestar, tão abalado que estava.

Creio que aquela derrota política para o diretor pode também ter afetado seu cinema. Feito-o repensar a eficácia de seus filmes junto ao público médio americano, seu alvo principal. Pensei nisso enquanto via Sicko-S.O.S Saúde, seu novo documentário que estreou na última sexta, no qual investe contra o sistema de saúde americano.

Sicko-S.O.S Saúde é um bom filme, o menos manipulativo dos filmes de Moore, como também o menos jocoso e no qual a sua postura de show man aparece com mais retidão. Na primeira metade do filme a figura inconfundível do cineasta, como sua narração contundente, pouco aparece, deixando que as histórias das pessoas ludibriadas pelos planos de saúde falem por si. São justamente os melhores momentos do filme.

Os grandes pecados, porém, ainda não resolvidos por Moore são o seu sentimentalismo e patriotismo. Por não controlar muito bem a dosagem desses dois elementos, seu filme perde dosagem de sua força. A música melosa sobreposta aos depoimentos soa totalmente desnecessária. Já era tempo de Moore entender isso.

Já fui um crítico mais severo do cinema do diretor, hoje tento ser mais sereno. Michael Moore tem como principal inimigo o poder das corporações e investe na tentativa de desmascará-las ao grande público, o que acho honrável e necessário.

Esse tom mais ameno com que olho seus filmes também vem da consciência mais límpida de que Cinema é linguagem, um exercício de manipulação de imagens e idéias. O Cinema documentário, diferente do que muitas vezes imaginamos, não traz junto de si um atestado de verdade absoluta. Michael Moore se utiliza dessa linguagem como poucos para defender o que acredita. Seus filmes são “a verdade de Michael Moore”, uma opinião que podemos, ou não, acatar.

Bem, num momento histórico em que se impera a ditadura do politicamente correto e do vácuo ideológico, acho imprescindível que um cineasta faça um filme e tenha os colhões necessários para dizer “Eu acredito nisso ou naquilo”. Esse tipo de postura tem muito faltado a cineastas contemporâneos. Para citar um só exemplo: Carandiru de Hector Babenco. Um filme medíocre e sem coragem de assumir a que veio.

6 de mar. de 2008

Antes de Partir

Sou um amante do Cinema. Com uns nove anos, depois que vi O Garoto num especial da rede Globo, conheci a obra de arte de um humanista que se tornou, a partir dali, um dos meus diretores preferidos. Depois veio a admiração por cineatas como Bergman, Woody Allen e outros. Para mim, no universo da criação, o Cinema vem em primeiro lugar, logo seguido pelo teatro.

Gosto muito de acompanahar montagens dessa "arte do ator" . E pela possibilidade de ver ao vivo alguns atores fundamentais da nossa história, não perdi a oportunidade de ver no palco nomes como Paulo Autran, Othon Bastos, Glória Meneses e tantos mais. De maneira geral, porém, o talento desses gigantes dificilmente é acompanhado por uma dramaturgia do mesmo nível. Quando termina o espetáculo me acostumei a comentar algo como “o ator é fenomenal, mas o texto, a montagem...”.

Há duas semanas estreou Antes de Partir, filme de Rob Reiner com Jack Nicholson e Morgan Freeman. E como muitas das minhas experiências no teatro não espere uma grande obra, tenha somente certeza que acompanhará dois mestres na tela. Elogiar Nicholson é algo quase de praxe, mas sempre vi Freeman também como um dos excelentes intérpretes do Cinema contemporâneo. Acho que sua figura legitima e traz dignidade a muitos filmes às vezes nem tão bons como Robin Hood, Um sonho de liberdade ou Menina de Ouro (que eu acho um horror!).

Em Antes de Partir os dois veteranos são dois pacientes terminais que dividem o mesmo quarto de hospital. Após uma tomada de consciência quanto à finitude da vida, os dois cumprem uma lista daquilo que sonham fazer “antes de partir’...

Conhecendo Hollywood, não é necessário lembrar que os dois trocarão grandes lições de vida ao longo do filme. Ensinamentos da profundidade de um pires. Mas a previsibilidade não estraga alguns bons momentos entre os dois. Seja com o sarcasmo de Nicholson ou na nobreza de Freeman, Antes de Partir é uma “sessão da tarde” de (boa) qualidade.

4 de mar. de 2008

Jogos do Poder


Talvez por estarmos sempre criticando a hegemonia de Hollywood em detrimento da nossa cinematografia, às vezes nos esquecemos do grande número de diretores americanos, digamos, mais politizados. Cineastas mais atentos ao que se passa em seu país e no planeta. Após os ataques às torres gêmeas, por exemplo, foi interessante notar o lançamento de diversos filmes que criticavam a política americana e decisões unilaterais de Bush filho.

O excelente Boa noite Boa sorte, de George Clooney, se voltava para um episódio do marcatismo para pôr em cheque a conivência e apatia da mídia norte-americana diante de uma política externa brutal e mentirosa, como também ao risco da perda das liberdades civis e prol de uma causa “patriótica”.

Steven Spielberg, por sua vez, também foi buscar no passado uma história que servisse de lição aos nossos dias de terrorismo. Munique era claramente uma forma de questionar o uso da violência como forma de retaliação e solução pós-ataque terrorista.

E agora chega aos cinemas Jogos do poder, filme que se detém sobre uma das sementes que originaram a era das trevas (para usar o título do novo filme de Denys Arcand) que vivenciamos no jornal diariamente. Tom Hanks interpreta o personagem verídico Charles Wilson, congressista texano que decidiu aumentar consideravelmente o auxílio aos afegãos que lutavam contra a invasão soviética nos anos 80.

As investidas pessoais e manobras políticas de Wilson soam tão inacreditáveis que o diretor Mike Nichols utiliza um tom quase farsesco na primeira metade do filme, justamente a parcela mais desequilibrada de Jogos do poder.

Na segunda metade do filme, Nichols parece deixar mais claro a que veio. O filme ganha ritmo e as cenas de batalha que possuem como fundo musical um trecho do Messias de Handel são, no mínimo, muito boas. E daí em diante o diretor esclarece que sua maior preocupação é jogar luz sobre os erros de uma política externa americana no período de Guerra Fria, que desembocaria no financiamento e fortalecimento da rede terrorista Al-Qaeda.

Mike Nichols é bem melhor em Closer, seu último filme, mas Jogos do poder, mesmo não sendo inteiramente satisfatório, é respeitável por trazer à tona um episódio tão elucidativo sobre os equívocos dos Estados Unidos em sua empreitada de arrogância em relação ao resto do mundo.

2 de mar. de 2008

Senhores do Crime


Há uma semana a Academia de Cinema americana entregou os três principais prêmios do Oscar para Onde os fracos não têm vez, filme adaptado e dirigido pelos irmãos Coen. Foi uma escolha respeitável, não só celebrando o filme em si, mas também em respeito à obra dos dois grandes diretores.

Mas mesmo com esse acerto na festa de Hollywood, acho que Senhores do Crime, filme do cineasta canadense David Cronenberg, foi um dos grandes injustiçados da noite, recebendo apenas a indicação de melhor ator para o excepcional Viggo Motersen.

Justamente Viggo Motersen. Não gosto nada dele como herói e rei da trilogia O Senhor dos Anéis, mas é necessário admitir que sua performance em Senhores do Crime é a alma do filme. Uma construção sutil, cheia de nuanças, que dá conta da complexidade do motorista Nicolai. Em minha opinião uma composição muito mais interessante do que toda aquela saliva e gritaria de Daniel Day-Lewis, em Sangue Negro. (leia texto abaixo)

É a segunda bem-sucedida parceria de Motersen com Cronenberg. A primeira foi com Marcas da Violência, uma adaptação de um comic book em que o diretor investiga facetas mais obscuras do caráter humano. Uma espécie de O Médico e o Monstro contemporâneo. Senhores do Crime parece continuar essa averiguação sobre o pior de nós.

Abrindo agora suas lentes para a máfia russa em Londres, Cronenberg fez um filme de grande rigor e calma para conduzir com mestria todas as teias de seu roteiro. Sabe conduzir muito bem seus personagens, dando-lhes riqueza e oportunidade para que todo seu elenco coadjuvante também brilhe, com destaque para Vincent Cassel e Armin Mueller-Stahl.

Não sou um grande entusiasta do filme premiado dos irmãos Coen, por mais que tenha uma admiração fria por Onde os fracos não têm vez . Já Senhores do Crime me toca fundo, e a já muito comentada luta na sauna é realmente algo para ficar na memória e na história do Cinema.

Tenho somente uma ressalva ao filme que é a excessiva ingenuidade da personagem de Naomi Watts que, mesmo na obviedade do perigo, parece enfrentar membros da máfia para que o enredo funcione. Porém nada que comprometa o resultado deste grande filme.

16 de fev. de 2008

Sangue Negro


O Cinema já contou muitas vezes jornadas de homens movidos pelo acúmulo de dinheiro e poder. Capitalistas que abrem mão de amigos e família em busca daquilo que é hoje o objeto de desejo do mundo globalizado: Grana.

Vendo Sangue Negro, novo filme do cineasta Paul Thomas Anderson, a memória pode resgatar imagens de Charles Foster Kane, o magnata manipulador e indecifrável de Orson Welles, ou mesmo James Dean em Assim Caminha a Humanidade, que após enriquecer transforma-se em um patético e solitário idoso.

É aparentemente claro o objetivo do diretor em nos apresentar a vida de fortuna e perdição de Daniel Plainview, personagem de Daniel-Day-Lewis. É com um olhar crítico sobre o comportamento de Plainview e sua ganância que Anderson quer construir sua obra.

Mas falta força e regularidade em Sangue Negro. Um filme pretensioso, mas cansativo e frustrante. Sua trilha sonora, por exemplo, possui originalidade, porém peca pela repetição excessiva de sonoridades. O desfecho do filme, particularmente sua última cena, beira o constrangedor.

Muito se falou sobre a performance de Lewis, mas não vejo excepcionalidade alguma. Lewis é um grande ator, sem dúvida, mas gosto mais de seu trabalho em interpretações mais contidas como em A Época da Inocência, um grande Scorsese, mas pouco lembrado.

Mesmo após muitos anos, cenas e diálogos do Cinema permanecem em nosso imaginário com nitidez. Algo em particular que nos tenha emocionado ou nos feito pensar. Deste Sangue Negro acho que muito pouco, ou mesmo nada permanecerá na memória.

18 de jan. de 2008

Meu nome não é Jonny

Um pouco como aconteceu quando Tropa de Elite estreou, tanto as críticas especializadas como a mídia em geral debate mais sobre as questões que Meu nome não é Jonny trata, do que a forma como o mesmo as articula.

Meu nome não é Jonny trata do tráfico de drogas, assim como o filme de José Padilha, só que agora lançando um olhar para um traficante de classe média. Bem, se formos analisar o potencial “didático” que o filme possui, talvez seríamos até mais um espaço a elogiá-lo.

Porém, o que a crítica se esquece novamente de fazer é levar em conta o potencial cinematográfico do filme. Sua linguagem, fraquezas, irregularidades, etc. Creio que há o temor de se criticar uma obra e achar que ao fazê-lo se estará também menosprezando o tema que o filme levanta, o que é uma bobagem.

Provavelmente pela inexperiência do diretor Mauro Lima, as interpretações do elenco de apoio são bem irregulares. Muitos diálogos soam artificiais, assim como algumas das situações vividas pelo bon vivant interpretado por Selton. Como exemplo, lembro do momento de envolvimento dele com policias corruptos, e a cena de “tradução” na cadeia. O diretor não acerta o tom, e o que era para ser um momento crítico ou jocoso, beira o caricato.

Em alguns momentos Lima até acerta ao buscar trazer à sua narrativa um ritmo mais dinâmico. Mas nada que vá além de uma linguagem vídeo clipe. Já as cenas de tribunal incomodam pelo convencionalismo de plano/contraplano. Falta Cinema à Meu nome não é Jonny. O filme, portanto, é modesto. Só mesmo o ator principal vai além do mediano e faz com que este filme tenha apelo junto ao público.

Selton Mello prova mais uma vez sua excepcionalidade. Ver sua performance na tela faz-nos pensar que já não é possível distinguir ator e personagem. Muito do carisma envolvente de João Estrela não vem só da interpretação ou do personagem em si, mas de nossa identificação com o próprio Selton. O que não é necessariamente ruim, visto que isso também ocorre com alguns dos melhores atores do mundo como Al Pacino, De Niro e outros.

O debate na sociedade que um filme pode provocar é sempre bem-vindo. Mas não pode passar em branco um olhar mais apurado para a própria obra. E, de qualquer forma, o possível “debate” que este filme tem provocado não vai além da superficialidade costumeira.

8 de jan. de 2008

Sombras de Goya


Algo impede que o novo filme de Milos Forman seja inteiramente satisfatório: Todos os personagens parecem ser coadjuvantes! Mesmo tendo um material fascinante nas mãos, o diretor Tcheco dispersa a força de sua narrativa em muitos protagonistas, o pintor Francisco Goya, o inquisidor Lourenzo e a bela Inês.

A princípio, não há problema algum em conduzir um filme utilizando mais de um personagem principal, o problema é quando a construção dos mesmos sofre por essa falta de foco. Em Sombras de Goya, as motivações dramáticas do trio principal ficam submersas, o que compromete muito o resultado final. Um filme suntuoso, mas melhor nas partes do que no todo.

4 de jan. de 2008

A Bússola de Ouro


Não será com este horror de filme que a produtora New Line repetirá o sucesso da trilogia O Senhor dos Anéis. Às vezes funciona, mas não será sempre que a fórmula de filme baseado em best-seller + campanha de marketing milionária + efeitos especiais bacanas levará multidões aos cinemas. O diferencial de O Senhor dos Anéis, e que os magnatas de Hollywood talvez não tenham captado a mensagem, é o talento indiscutível de Peter Jackson.

A Bússola de Ouro constrange com personagens rasos, diálogos insossos e trilha sonora de playstation. Nicole Kidman faz uma vilã digna de novela mexicana. Dá até pena. Gosto de Nicole como atriz, mas desde o excepcional As Horas ela só se equivoca nas escolhas profissionais.

O projeto original é realizar uma trilogia baseada nos livros de Philip Pullman, mas se depender do resultado artístico dessa primeira empreitada o futuro das adaptações está em risco.

O filme teve estréia mundial no dia natal, e ainda é cedo para saber se o filme será mesmo um fracasso retumbante. Se, por acaso, o público sedento por fantasia comparecer em peso nas salas de cinema, A Bússola de Ouro será um sucesso tão incompreensível quanto a bobagem Piratas do Caribe.

26 de dez. de 2007

Retrospectiva Internacional – 2007


Bem mais difícil fazer esta lista de destaques internacionais. Acho que consegui chegar a cinco títulos notáveis. Com exceção de O Guardião, que ainda não teve lançamento em DVD, todos são fáceis de encontrar, e Lady Chatterly continua em cartaz no Reserva Cultural.

1- Cartas de Iwo Jima – Clint Eastwood - (EUA)

O melhor filme da carreira do velho Clint. O ponto central de seu filme é a questão do Outro, o “inimigo” japonês. Eastwood, de alguma forma, reinventou a maneira de se fazer filmes de guerra.

2- Lady Chatterly – Pascale Ferran - (França)

Poucos filmes são tão sensíveis ao contar uma relação de adultério. A tensão entre diferenças classes é o subtexto desse belo filme, com uma trilha e fotografia excepcionais.

3- O Guardião - Rodrigo Moreno - (Argentina)

O diretor Moreno não só nos apresenta como é a existência melancólica desse segurança interpretado magistralmente por Júlio Chaves, como é muito rigoroso e feliz na linguagem fílmica escolhida.

4 - Zodíaco – David Fincher - (EUA)

Filmaço que veio para subverter os tradicionais filmes sobre serial killers. Fincher, diretor de Seven e Quarto do Pânico, é hoje um dos mais interessantes cineastas. Tenho revisto seus filmes e o cara é bom.

5- O Bom Pastor – Robert de Niro - (EUA)

Um pouco menosprezado pela crítica na época do lançamento, foi uma das minhas maiores surpresas no ano. De Niro surpreende em sua segunda investida como diretor, e Matt Damon prova ser um ator de primeira, ou quase.

25 de dez. de 2007

Retrospectiva Nacional - 2007


Mais do que simplesmente selecionar os “melhores” filmes em detrimento de muitos outros não tão bons assim, uma retrospectiva serve também para tentarmos mensurar o que vimos em um ano. Colocar em perspectiva tendências, surpresas e avanços de nossa cinematografia.

Listei cinco filmes nacionais que merecem um lugar respeitável em nossa memória cinéfila. Nosso cinema, assim espero, sempre terá um local de destaque neste espaço de reflexão. Não importa se bons ou medíocres. Ver filmes de nossa cultura será sempre enriquecedor. O cinema brasileiro é espelho e farol para o desvendar de nossa identidade.

Bem, eis a lista:

1- Santiago – Não poderia ser diferente. Um filme que já faz parte de nossa história. Um exemplo de singeleza, inteligência. Obra-prima do cinema documentário.

2- Jogo de CenaSantiago pode ter sido o melhor, mas Eduardo Coutinho ainda é nosso maior cineasta vivo. Um filme sobre a arte de interpretar e a arte de ser mulher. Maravilhoso.

3- Não por Acaso – Mesmo com suas imperfeições é impossível não se emocionar com interpretações tão marcantes e um diretor estreante com algo muito bonito a dizer sobre as relações humanas.

4- A Via Láctea – Há duas semanas participei de um debate com a cineasta Cacá Diegues. Para o diretor cinema-novista, o filme de Lina Chamie é nada menos do que o melhor filme do ano. Música e poesia se combinam para falar de amor e morte.

5- Cheiro do Ralo – A jornada infeliz de uma capitalista incapaz de amar algo além de bens materiais. Humor e escatologia num Selton Mello irreparável. Heitor Dália, o diretor, prova que o interessante Nina, seu filme de estréia, não foi sorte de principiante.