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30 de jun. de 2008

Cinturão Vermelho

Até parece que estou de mau humor. Há tempos que não escrevo uma crítica positiva. Mas a culpa é das estréias e não do meu temperamento, garanto.

David Mamet é um relevante dramaturgo norte-americano que às vezes se aventura na direção cinematográfica. E traz em seu novo filme a história de um herói contemporâneo. Um professor de Jiu-Jitsu que deve manter seus princípios num mundo corrupto e corruptor.

Ética é mesmo um valor em baixa nos costumes, por isso é até saudável ver um artista preocupado em pensar sobre o assunto. Mamet é um praticante da luta marcial que dá pano de fundo ao filme. Ou seja, fala do assunto com conhecimento de causa. Mas o problema do cineasta, e de seu Cinturão Vermelho, é que ele leva muito a sério o que aprendeu na academia. A, digamos, “filosofia” do Jiu-Jitsu que rege o comportamento do protagonista é tão rasa quanto a presente naquela outra série sobre artes marciais, Karate Kid.

E, como se não bastasse essa tábula rasa ideológica, Cinturão Vermelho possui o mesmo paradoxo que havia nos filmes do Daniel San, Sr. Miyagi e companhia: Durante todo o filme o herói diz veementemente “não” à violência, só que no final da trama não resta outra alternativa ao indivíduo senão entrar na pancadaria. Satisfazendo assim o clímax do filme e a catarse da platéia. Meu caro Mamet, me engana que eu gosto...

Ah, quanto ao desempenho dos brasileiros Alice Braga e Rodrigo Santoro. A sobrinha da Sônia continua uma graça e muito talentosa. O galã melhorou seu inglês e convence bem como um dos vilões. Em breve os dois devem aparecer em outras produções gringas. Pois é, meus amigos. Globalização.

17 de jun. de 2008

Fim dos Tempos

M. Night Shyamalan, uma das mentes mais originais do cinema norte-americano, pode ter afundado para sempre sua carreira. O dano pode ser irreparável. Fim dos Tempos é um grande equívoco dentro de uma filmografia mais que respeitável. A pior obra do diretor.

Desde o fracasso de seu último filme, A Dama da Água, a expectativa e a necessidade de um outro sucesso nas bilheterias se fazia imperativo para Shyamalan. Mas duvido que seu filme faça boa carreira nos cinemas. A idéia de Fim dos Tempos é até engenhosa: Uma substância tóxica surge não se sabe de onde, e impede que as defesas naturais do ser humano atuem. As pessoas começam então a cometer suicídios em massa.

Os primeiros cinco minutos são eletrizantes. O diretor de origem indiana é um discípulo de Hitchcock e filma muito bem, sabe criar tensão com sua câmera. O que atrapalha o restante dos noventa minutos de filme é que Shyamalan, além de ser influenciado pelo mestre do suspense, também é um grande tiete do cinema de Steven Spielberg e acaba adotando para si as mais duvidosas qualidades dos filmes do diretor de ET: Sentimentalismo barato, excesso de simplificações e o anseio em colocar no altar os valores da família.


Desde meados dos anos setenta, o cinema catástrofe tornou-se um gênero constante em Hollywood. Após o 11 de setembro, junto com os alertas quanto ao aquecimento do planeta, filmes do gênero voltaram a pipocar aos montes. Shyamalan com este filme se junta a essa trupe do ecologicamente correto e de crítica à paranóia americana, mas sem eficácia alguma.

O diretor costuma utilizar metáforas em suas obras para expor sua autoralidade, seu ponto de vista. Mas em Fim dos Tempos tudo é muito óbvio, raso demais. O que falta de complexidade sobra em concessões para o grande público que busca ir ao cinema para alienar seus neurônios. Algumas cenas lembram o pior do filme B e de horror. Não dá para levar a sério. Parece que o homem desistiu de ser o cineasta instigante que era.

Um filme pretensioso (no mal sentido de termo), terrivelmente interpretado (Nem Mark Wahlberg se salva) e quase grotesco em algumas cenas de suicídio. Incerto é o destino de M. Night Shyamalan na cova dos leões da indústria de Hollywood. Espero que não, mas talvez esteja próximo o fim de seu tempo...

8 de jun. de 2008

Um Amor para Toda a Vida

Muito temeroso, fui dar uma chance para o novo filme do ator e diretor britânico Richard Attenborough. Ele é o mesmo diretor de Gandhi, Um Grito de Liberdade e Chaplin. Filmes medianos, não gosto particularmente de nenhum deles. Todos exemplos daquelas biografias padronizadas que Hollywood adora fazer.

Bem, depois de quinze minutos de filme o temor inicial se transformou em um remorso doloroso. Êta, filme ruim! Attenborough costuma exagerar no sentimentalismo, mas neste Um Amor para Toda a Vida ele passou da medida do quanto de melação, frases feitas e música adocicada um espectador pode agüentar numa sessão de cinema. Nem mesmo os veteranos Christopher Plummer e Shirley Maclaine ajudam o filme a não naufragar por completo.

Há muitos filmes em Um Amor para Toda a Vida, pelo menos uns três diferentes. Muitos temas que esse diretor já octogenário - Em agosto ele completa 85 – busca desenvolver sem alcançar nem mesmo a mediocridade. Pelo seu próprio bem, leitor, passe longe deste novelão. Economize seu salário. Nem na tela pequena da tv um horror desses deve se sustentar.

3 de jun. de 2008

O Melhor Amigo da Noiva


A comédia romântica é hoje um dos gêneros mais consolidados do cinema norte-americano. A cada fim de semana um novo exemplar chega aos cinemas. E isso vem de longe. Em 1935 Frank Capra vencia os Oscars de melhor filme e direção com Aconteceu naquela noite, um exemplo quase paradigmático do tipo de comédia que se faz até a atualidade.

Gosto demais de acompanhar esses filmes, um pouco por falarem de amor, relacionamentos e ter, em 99% dos casos, um inevitável final feliz. Vejo por distração, às vezes por puro escapismo mesmo. Mas o que não impede de aqui e ali encontrar exemplos não só de simples diversão, mas filmes que possuem talento, inteligência e assim se diferenciam do mais do mesmo.

O Melhor Amigo da Noiva é uma surpresa e tanto nesse sentido. Histórias como a deste filme são contadas o tempo todo, mas sua graça, junto com o carisma de seus atores pode oferecer ao espectador uma experiência encantadora e muito engraçada. Cinema pra mim é um só. Não existe em minha concepção algo como “cinema de arte”. Há vida inteligente em Hollywood e eu não sou o primeiro a dizer isso.

Os “produtos” cinematográficos claro que existem, porém em meio a um oceano de mediocridade se pode enxergar exemplos diferenciados como este O Melhor Amigo da Noiva. Vale a pena passar por cima do preconceito e dar uma chance a um filme previsível, mas rico em observações humanas.

28 de mai. de 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal


O quarto filme do herói arqueólogo é frustrante por uma razão principal: Spielberg há alguns anos já virou um adulto. Não é mais o jovem cineasta que concretizava no Cinema suas fantasias com tubarões, extraterrestres e heróis à moda antiga.

No começo de sua carreira, os críticos até o acusavam de ter um certo complexo de Peter Pan. Bem, se isso é verdade, esse tal complexo o ajudou a realizar filmes de primeira qualidade para o grande público, inclusive os três primeiros Indiana Jones.

Mas agora, quase vinte anos após a realização de Indiana Jones e a Última Cruzada, Steven Spielberg não pode voltar no tempo e ser novamente o cineasta que era, com sua imaturidade, frescor e outros atributos que o favoreceriam para acertar a mão neste seu último filme.

Esse amadurecimento talvez não ajude o diretor na realização desses filmes blockbusters, mas com certeza colaborou para a feitura de obras mais sólidas como A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan e, principalmente, Munique, disparado o melhor filme de sua carreira.

O novo Indiana Jones só não é um desastre completo por causa de seus personagens cativantes e a performance de Harrison Ford. Como ocorreu com a nova trilogia Star Wars, Spielberg, George Lucas e companhia exageram nos efeitos computadorizados e deixam para segundo plano o desenvolvimento de uma trama mais amarrada e envolvente.

Seria exagero, creio, chamar Steven Spielberg de “autor”. Mesmo que seja possível observar temas recorrentes em seus filmes como a família, a questão do outro, etc. Porém, uma coisa é certa, mesmo ao fazer um filme de aventuras despretensioso, o cineasta deve buscar fazer o filme que pessoalmente lhe agrada, e nunca o filme que ele imagina que o público gostaria de ver na tela...

Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida é ainda o melhor filme de todos, e um dos motivos é que Spielberg fez esse filmaço muito para satisfazer a si próprio, enquanto que esse último filme, disse ele em entrevistas, fez para os fãs. Estou generalizando, eu sei, mas acho essa declaração pode ser outra pista para solucionar o porquê das duas horas de pura decepção.

6 de mai. de 2008

O Sonho de Cassandra (2)


Há um fator novo e digno de nota no cinema de Woody Allen, especificamente em seu último filme, que é o uso de uma trilha sonora original. Quem acompanha os filmes do diretor sabe que o melhor do Jazz norte-americano acompanha os enredos de seus filmes como também a cidade de Nova Iorque se tornou uma de suas marcas registradas no Cinema. Temos então em O Sonho de Cassandra algo novo a ressaltar, um compositor especialmente convidado para compor a trilha do filme, no caso o músico norte-americano Philip Glass.

Pessoalmente não sou um grande entusiasta das partituras de Glass para o Cinema. Acho suas músicas repetitivas, plágio de si mesmas, por mais que reconheça sua eficácia em filmes como As Horas e no documentário Sob a Névoa da Guerra. Em O Sonho de Cassandra, creio que a trilha funciona muito bem. É econômica, senão precisa para acentuar os momentos de tensão e suspense na trama.

Quando ressalto (no texto abaixo) que vejo em O Sonho de Cassandra um filme de alguém que domina a linguagem do Cinema é também considerando o bom uso da trilha sonora pelo cineasta. Vejo um amadurecimento nesse quesito no Cinema do diretor desde Match Point (2005), no qual a música operística tinha um papel fundamental como pano de fundo da aristocracia inglesa. No filme, trechos de obras de Verdi e Bizet são usados com mestria pelo diretor.

Em Scoop – O grande furo (2006), seu filme seguinte, também se passando em Londres, temos a música clássica novamente muito presente, só que agora na busca de um tom mais cômico, com Grieg e Tchaikovsky. Gosto então de pensar que o “sucesso” do uso da trilha orquestral (original) em O Sonho de Cassandra não é por acaso, mas comprova uma genuína preocupação do cineasta em explorar novos territórios quando se trata de música para seus filmes.

5 de mai. de 2008

O Sonho de Cassandra

Ir ao cinema para ver o novo filme de Woody Allen é como rever um velho amigo. Uma vez por ano esse nosso companheiro-cineasta reflete sobre temas que o perseguem e que já foram explorados anteriormente em sua vasta filmografia.

Diferente do que muitos críticos acreditam, O Sonho de Cassandra não é mera repetição, ou uma “sub-obra” na carreira de Allen. Mas sim, um novo degrau na investigação e enfrentamento de dilemas pessoais do cineasta como a Morte, a Ética e o mundo contemporâneo. Eis a trama: Dois irmãos precisam urgentemente de dinheiro e o método mais fácil de conseguir é matando o inimigo de um tio rico.

Em suas entrevistas, Woody Allen é o primeiro a admitir que não se acha um diretor apto para realizar filmes “políticos” ou de “crítica” a algum tema atual. Porém, tanto em seu penúltimo filme, Match Point (2005), como no que acaba de estrear, Allen prova ser um cineasta muito atento ao mundo globalizado em que vive e capaz de apontar suas contradições. Sob que Ética viver num mundo obcecado pelo dinheiro? Quais os limites que a sociedade têm ultrapassado em favor do sucesso nos negócios?

Essas são algumas das questões que permeiam O Sonho de Cassandra. Uma excepcional obra cinematográfica. De um diretor com extremo domínio da técnica e da linguagem do Cinema. A cena na qual o assassinato é posto em pauta na trama, e na vida dos irmãos, é simplesmente brilhante nesse sentido.

Como em Crimes e Pecados (1989) e em outros de seus filmes, temos o assassinato, a culpa, os dilemas de Raskólnikov que tanto fascinam o diretor nova-iorquino. O que faz, talvez, de O Sonho de Cassandra um filme tão forte é o ingrediente de tragédia que move a trama até o desenlace.

É fascinante acompanhar tão rica obra artística. Em Crimes e Pecados, o personagem (também assassino) de Mantin Landau conseguia empurrar sua culpa para debaixo do tapete, o que nos dava um nó interior em nossas convicções religiosas e dramatúrgicas. Em Match Point , por sua vez, o arrivista Cris, após o assassinato de sua amante inconveniente, parece ter perdido parte de sua humanidade num final amargo, dilacerante.

Agora, os irmãos Colin Farrel (excepcional) e Ewan Mcgregor pagam por seus crimes de maneira inevitável. Mais do que uma simples lição de moral como “o crime não compensa”, Woody Allen nos dá um testemunho lúcido e crítico sobre o estágio a que chegamos como civilização, na qual a busca pelo dinheiro destrói relações familiares das mais sinceras.

Um grande filme, com certeza. Que poderá entrar no grupo das obras-primas do diretor, junto com Manhattan (1979), A Outra(1988) e Crimes e Pecados (1989).

14 de abr. de 2008

Maré - Nossa História de Amor

É uma pena, mas o novo filme de Lúcia Murat me parece um equívoco colossal. Sou um sincero admirador de Quase dois Irmãos, seu filme anterior, que acho um dos melhores filmes brasileiros dede a Retomada. Mas seu musical na favela constrange.

Por mais que atualmente vejamos alguns exemplos de musicais nas telas, os filmes do gênero ainda são esporádicos e a qualidade dos mesmos muito duvidosa. Aqui nos trópicos, não se via a produção de um musical (creio eu) desde os tempos de Oscarito e Grande Otelo.

É, portanto, de uma ousadia tremenda almejar levar para o Cinema o canto e dança num enredo shakespeariano já manjado. No resultado final, nada se sustenta. Nem mesmo o texto, a escolha das canções ou dos atores, que podem saber rebolar muito bem, mas a falta de carisma do elenco é generalizada.

25 de mar. de 2008

2 dias em Paris


Fui ver 2 dias em Paris com boas expectativas. Julie Delpy é a atriz, roteirista e diretora dessa comédia romântica despretensiosa, e quem me conhece sabe bem que gosto enormemente da atriz no díptico Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, de Richard Linklater.

Vi o filme com um amigo e a decepção foi a mesma. Julie faz a francesa que leva o namorado americano (Adam Goldberg) para conhecer seus pais na cidade-luz. O choque cultural do namorado com sua família (e Paris) é a linha-mestra do longa.

A idéia é convencional, mas não quer dizer que por isso a estréia na direção de Delpy esteja fadada ao fracasso. O problema é que ela se utiliza exaustivamente dos clichês e preconceitos mais comuns em relação aos franceses: Taxistas mal-educados, liberalidade sexual, etc. Tudo muito raso, repetitivo e, infelizmente, sem graça nenhuma.

Não sou o primeiro a dizer que fazer Comédia é algo muito mais complexo do que a feitura de um Drama. Delpy não acerta o tom de humor, por mais que seu parceiro de cena, Goldberg, tenha alguns bons momentos. Julie Delpy é realmente francesa e espanta esse seu olhar reducionista sobre sua terra natal. Filme de estreante. Mais sorte na próxima.

17 de mar. de 2008

Sicko - S.O.S. Saúde

Deve ter sido um baque bem grande para Michael Moore a vitória para um segundo mandato do presidente George Bush. Fahrenheit 11/09, filme anterior do diretor, nada mais era do que um grande longa panfletário anti-bush. Lembro que no dia seguinte à vitória do republicano, Moore, procurado pela imprensa, decidiu não se manifestar, tão abalado que estava.

Creio que aquela derrota política para o diretor pode também ter afetado seu cinema. Feito-o repensar a eficácia de seus filmes junto ao público médio americano, seu alvo principal. Pensei nisso enquanto via Sicko-S.O.S Saúde, seu novo documentário que estreou na última sexta, no qual investe contra o sistema de saúde americano.

Sicko-S.O.S Saúde é um bom filme, o menos manipulativo dos filmes de Moore, como também o menos jocoso e no qual a sua postura de show man aparece com mais retidão. Na primeira metade do filme a figura inconfundível do cineasta, como sua narração contundente, pouco aparece, deixando que as histórias das pessoas ludibriadas pelos planos de saúde falem por si. São justamente os melhores momentos do filme.

Os grandes pecados, porém, ainda não resolvidos por Moore são o seu sentimentalismo e patriotismo. Por não controlar muito bem a dosagem desses dois elementos, seu filme perde dosagem de sua força. A música melosa sobreposta aos depoimentos soa totalmente desnecessária. Já era tempo de Moore entender isso.

Já fui um crítico mais severo do cinema do diretor, hoje tento ser mais sereno. Michael Moore tem como principal inimigo o poder das corporações e investe na tentativa de desmascará-las ao grande público, o que acho honrável e necessário.

Esse tom mais ameno com que olho seus filmes também vem da consciência mais límpida de que Cinema é linguagem, um exercício de manipulação de imagens e idéias. O Cinema documentário, diferente do que muitas vezes imaginamos, não traz junto de si um atestado de verdade absoluta. Michael Moore se utiliza dessa linguagem como poucos para defender o que acredita. Seus filmes são “a verdade de Michael Moore”, uma opinião que podemos, ou não, acatar.

Bem, num momento histórico em que se impera a ditadura do politicamente correto e do vácuo ideológico, acho imprescindível que um cineasta faça um filme e tenha os colhões necessários para dizer “Eu acredito nisso ou naquilo”. Esse tipo de postura tem muito faltado a cineastas contemporâneos. Para citar um só exemplo: Carandiru de Hector Babenco. Um filme medíocre e sem coragem de assumir a que veio.

6 de mar. de 2008

Antes de Partir

Sou um amante do Cinema. Com uns nove anos, depois que vi O Garoto num especial da rede Globo, conheci a obra de arte de um humanista que se tornou, a partir dali, um dos meus diretores preferidos. Depois veio a admiração por cineatas como Bergman, Woody Allen e outros. Para mim, no universo da criação, o Cinema vem em primeiro lugar, logo seguido pelo teatro.

Gosto muito de acompanahar montagens dessa "arte do ator" . E pela possibilidade de ver ao vivo alguns atores fundamentais da nossa história, não perdi a oportunidade de ver no palco nomes como Paulo Autran, Othon Bastos, Glória Meneses e tantos mais. De maneira geral, porém, o talento desses gigantes dificilmente é acompanhado por uma dramaturgia do mesmo nível. Quando termina o espetáculo me acostumei a comentar algo como “o ator é fenomenal, mas o texto, a montagem...”.

Há duas semanas estreou Antes de Partir, filme de Rob Reiner com Jack Nicholson e Morgan Freeman. E como muitas das minhas experiências no teatro não espere uma grande obra, tenha somente certeza que acompanhará dois mestres na tela. Elogiar Nicholson é algo quase de praxe, mas sempre vi Freeman também como um dos excelentes intérpretes do Cinema contemporâneo. Acho que sua figura legitima e traz dignidade a muitos filmes às vezes nem tão bons como Robin Hood, Um sonho de liberdade ou Menina de Ouro (que eu acho um horror!).

Em Antes de Partir os dois veteranos são dois pacientes terminais que dividem o mesmo quarto de hospital. Após uma tomada de consciência quanto à finitude da vida, os dois cumprem uma lista daquilo que sonham fazer “antes de partir’...

Conhecendo Hollywood, não é necessário lembrar que os dois trocarão grandes lições de vida ao longo do filme. Ensinamentos da profundidade de um pires. Mas a previsibilidade não estraga alguns bons momentos entre os dois. Seja com o sarcasmo de Nicholson ou na nobreza de Freeman, Antes de Partir é uma “sessão da tarde” de (boa) qualidade.

4 de mar. de 2008

Jogos do Poder


Talvez por estarmos sempre criticando a hegemonia de Hollywood em detrimento da nossa cinematografia, às vezes nos esquecemos do grande número de diretores americanos, digamos, mais politizados. Cineastas mais atentos ao que se passa em seu país e no planeta. Após os ataques às torres gêmeas, por exemplo, foi interessante notar o lançamento de diversos filmes que criticavam a política americana e decisões unilaterais de Bush filho.

O excelente Boa noite Boa sorte, de George Clooney, se voltava para um episódio do marcatismo para pôr em cheque a conivência e apatia da mídia norte-americana diante de uma política externa brutal e mentirosa, como também ao risco da perda das liberdades civis e prol de uma causa “patriótica”.

Steven Spielberg, por sua vez, também foi buscar no passado uma história que servisse de lição aos nossos dias de terrorismo. Munique era claramente uma forma de questionar o uso da violência como forma de retaliação e solução pós-ataque terrorista.

E agora chega aos cinemas Jogos do poder, filme que se detém sobre uma das sementes que originaram a era das trevas (para usar o título do novo filme de Denys Arcand) que vivenciamos no jornal diariamente. Tom Hanks interpreta o personagem verídico Charles Wilson, congressista texano que decidiu aumentar consideravelmente o auxílio aos afegãos que lutavam contra a invasão soviética nos anos 80.

As investidas pessoais e manobras políticas de Wilson soam tão inacreditáveis que o diretor Mike Nichols utiliza um tom quase farsesco na primeira metade do filme, justamente a parcela mais desequilibrada de Jogos do poder.

Na segunda metade do filme, Nichols parece deixar mais claro a que veio. O filme ganha ritmo e as cenas de batalha que possuem como fundo musical um trecho do Messias de Handel são, no mínimo, muito boas. E daí em diante o diretor esclarece que sua maior preocupação é jogar luz sobre os erros de uma política externa americana no período de Guerra Fria, que desembocaria no financiamento e fortalecimento da rede terrorista Al-Qaeda.

Mike Nichols é bem melhor em Closer, seu último filme, mas Jogos do poder, mesmo não sendo inteiramente satisfatório, é respeitável por trazer à tona um episódio tão elucidativo sobre os equívocos dos Estados Unidos em sua empreitada de arrogância em relação ao resto do mundo.

2 de mar. de 2008

Senhores do Crime


Há uma semana a Academia de Cinema americana entregou os três principais prêmios do Oscar para Onde os fracos não têm vez, filme adaptado e dirigido pelos irmãos Coen. Foi uma escolha respeitável, não só celebrando o filme em si, mas também em respeito à obra dos dois grandes diretores.

Mas mesmo com esse acerto na festa de Hollywood, acho que Senhores do Crime, filme do cineasta canadense David Cronenberg, foi um dos grandes injustiçados da noite, recebendo apenas a indicação de melhor ator para o excepcional Viggo Motersen.

Justamente Viggo Motersen. Não gosto nada dele como herói e rei da trilogia O Senhor dos Anéis, mas é necessário admitir que sua performance em Senhores do Crime é a alma do filme. Uma construção sutil, cheia de nuanças, que dá conta da complexidade do motorista Nicolai. Em minha opinião uma composição muito mais interessante do que toda aquela saliva e gritaria de Daniel Day-Lewis, em Sangue Negro. (leia texto abaixo)

É a segunda bem-sucedida parceria de Motersen com Cronenberg. A primeira foi com Marcas da Violência, uma adaptação de um comic book em que o diretor investiga facetas mais obscuras do caráter humano. Uma espécie de O Médico e o Monstro contemporâneo. Senhores do Crime parece continuar essa averiguação sobre o pior de nós.

Abrindo agora suas lentes para a máfia russa em Londres, Cronenberg fez um filme de grande rigor e calma para conduzir com mestria todas as teias de seu roteiro. Sabe conduzir muito bem seus personagens, dando-lhes riqueza e oportunidade para que todo seu elenco coadjuvante também brilhe, com destaque para Vincent Cassel e Armin Mueller-Stahl.

Não sou um grande entusiasta do filme premiado dos irmãos Coen, por mais que tenha uma admiração fria por Onde os fracos não têm vez . Já Senhores do Crime me toca fundo, e a já muito comentada luta na sauna é realmente algo para ficar na memória e na história do Cinema.

Tenho somente uma ressalva ao filme que é a excessiva ingenuidade da personagem de Naomi Watts que, mesmo na obviedade do perigo, parece enfrentar membros da máfia para que o enredo funcione. Porém nada que comprometa o resultado deste grande filme.

16 de fev. de 2008

Sangue Negro


O Cinema já contou muitas vezes jornadas de homens movidos pelo acúmulo de dinheiro e poder. Capitalistas que abrem mão de amigos e família em busca daquilo que é hoje o objeto de desejo do mundo globalizado: Grana.

Vendo Sangue Negro, novo filme do cineasta Paul Thomas Anderson, a memória pode resgatar imagens de Charles Foster Kane, o magnata manipulador e indecifrável de Orson Welles, ou mesmo James Dean em Assim Caminha a Humanidade, que após enriquecer transforma-se em um patético e solitário idoso.

É aparentemente claro o objetivo do diretor em nos apresentar a vida de fortuna e perdição de Daniel Plainview, personagem de Daniel-Day-Lewis. É com um olhar crítico sobre o comportamento de Plainview e sua ganância que Anderson quer construir sua obra.

Mas falta força e regularidade em Sangue Negro. Um filme pretensioso, mas cansativo e frustrante. Sua trilha sonora, por exemplo, possui originalidade, porém peca pela repetição excessiva de sonoridades. O desfecho do filme, particularmente sua última cena, beira o constrangedor.

Muito se falou sobre a performance de Lewis, mas não vejo excepcionalidade alguma. Lewis é um grande ator, sem dúvida, mas gosto mais de seu trabalho em interpretações mais contidas como em A Época da Inocência, um grande Scorsese, mas pouco lembrado.

Mesmo após muitos anos, cenas e diálogos do Cinema permanecem em nosso imaginário com nitidez. Algo em particular que nos tenha emocionado ou nos feito pensar. Deste Sangue Negro acho que muito pouco, ou mesmo nada permanecerá na memória.

18 de jan. de 2008

Meu nome não é Jonny

Um pouco como aconteceu quando Tropa de Elite estreou, tanto as críticas especializadas como a mídia em geral debate mais sobre as questões que Meu nome não é Jonny trata, do que a forma como o mesmo as articula.

Meu nome não é Jonny trata do tráfico de drogas, assim como o filme de José Padilha, só que agora lançando um olhar para um traficante de classe média. Bem, se formos analisar o potencial “didático” que o filme possui, talvez seríamos até mais um espaço a elogiá-lo.

Porém, o que a crítica se esquece novamente de fazer é levar em conta o potencial cinematográfico do filme. Sua linguagem, fraquezas, irregularidades, etc. Creio que há o temor de se criticar uma obra e achar que ao fazê-lo se estará também menosprezando o tema que o filme levanta, o que é uma bobagem.

Provavelmente pela inexperiência do diretor Mauro Lima, as interpretações do elenco de apoio são bem irregulares. Muitos diálogos soam artificiais, assim como algumas das situações vividas pelo bon vivant interpretado por Selton. Como exemplo, lembro do momento de envolvimento dele com policias corruptos, e a cena de “tradução” na cadeia. O diretor não acerta o tom, e o que era para ser um momento crítico ou jocoso, beira o caricato.

Em alguns momentos Lima até acerta ao buscar trazer à sua narrativa um ritmo mais dinâmico. Mas nada que vá além de uma linguagem vídeo clipe. Já as cenas de tribunal incomodam pelo convencionalismo de plano/contraplano. Falta Cinema à Meu nome não é Jonny. O filme, portanto, é modesto. Só mesmo o ator principal vai além do mediano e faz com que este filme tenha apelo junto ao público.

Selton Mello prova mais uma vez sua excepcionalidade. Ver sua performance na tela faz-nos pensar que já não é possível distinguir ator e personagem. Muito do carisma envolvente de João Estrela não vem só da interpretação ou do personagem em si, mas de nossa identificação com o próprio Selton. O que não é necessariamente ruim, visto que isso também ocorre com alguns dos melhores atores do mundo como Al Pacino, De Niro e outros.

O debate na sociedade que um filme pode provocar é sempre bem-vindo. Mas não pode passar em branco um olhar mais apurado para a própria obra. E, de qualquer forma, o possível “debate” que este filme tem provocado não vai além da superficialidade costumeira.