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24 de jul. de 2008

O Cavaleiro das Trevas (IV)

James Gordon – Em Batman Begins ele era aquele que punha a mão no fogo pelo herói. Dava-lhe sua confiança na luta contra o crime. No primeiro filme, o tenente Gordon era um idealista solitário, carente de companhia ética. Faltava-lhe uma força-tarefa contra a corrupção, que só aparece com a chegada do homem-morcego a Gotham.

Em O Cavaleiro das Trevas temos um homem mais pragmático. Calejado, talvez. Parece que Gordon tomou o mesmo banho de realidade que Harvey Dent, só que de maneira bem menos trágica. Em seu próprio departamento, Gordon sabe que nem todos os seus subalternos são pilares de moralidade, o que ameaçará a segurança de sua própria família nos momentos finais do filme. Da mesma forma que Batman, Gordon não se incomoda em usar meios pouco ortodoxos para conseguir o que quer. Como se não fosse possível lutar por justiça sem colocar as mãos na lama, ou governar sem ter que subornar parlamentares em troca de apoio.

Alfred – Foi só vendo o filme pela terceira vez que me ficou claro a importância deste coadjuvante encantador. Ele é a figura paterna, a voz da sabedoria. Um exemplo de fidelidade, cumplicidade e compaixão para com seu empregador. Junto com o personagem de Morgan Freeman, Lucius Fox, Alfred é a luz humana que impede O Cavaleiro das Trevas de ser uma obra exageradamente pessimista.

A atuação de Michael Caine é tocante, mínima, mas precisa. Ator e personagem se confundem na dignidade exigida pelo papel. Novamente como Lucius, Alfred é alguém que está acima do bem e do mal. Um mordomo que pode se dar ao luxo de omitir a verdade a Bruce Wayne, justamente pensando na felicidade dele.

Lucius Fox - Como o mordomo Alfred, o personagem de Morgan Freeman possui o mais humano de todos os dons: o senso de humor. Diante de tanta tensão e violência em O Cavaleiro das Trevas, Lucius nos aliviará com sua sagacidade e mansidão.

Ao ver o novo dispositivo criado por Batman para espionar todos os cidadãos de Gothan à 1984, Lucius diz: “É muito poder para um homem só”. No que Batman responde: “É por isso que só você pode controlá-lo”. Impossível pensar em elogio maior à nobreza deste parceiro que equilibra as decisões do protagonista. Lucius Fox é a consciência perdida naqueles que democraticamente votaram e decidiram pela explosão do barco ao lado, cheio de criminosos.

Rachel Dawes
– Como era o “leitor” em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o único senão do filme é ninguém menos que Maggie Gyllenhaal, a atriz na pele da advogada Rachel Dawes. Canastrona de primeira grandeza, Gyllenhaal causa uma verdadeira repulsa quando aparece na tela. Nada contra a personagem em si, mas a atriz não é bonita, não tem carisma ou simpatia. Um horror! Sua maior qualidade é que lá pelas tantas ela morre junto com a personagem...

23 de jul. de 2008

O Cavaleiro das Trevas (III)


Harvey Dent/Duas Caras – Em O Médico e o Monstro, de Robert L. Stevenson, há um capítulo final com o relato do próprio Dr. Jekyll com conclusões sobre as experiências que o transformavam no inescrupuloso Mr. Hyde. Diz ele em uma parte do texto, cheio de angústia:

"A cada dia, e de ambos os lados da minha inteligência – o moral e o intelectual – eu chegava cada vez mais próximo daquela verdade cuja descoberta parcial tinha-me condenado a um terrível fim: a de que o homem não é apenas um, mas sim dois. Eu digo dois porque meu conhecimento não vai além desse ponto. (...)... e eu arrisco a suposição de que, ao final, o homem será firmemente conhecido com um mero estado multifacetado, incongruente...” (L± pág. 96.)

Dentro da subversão que faz Christopher Nolan das costumeiras adaptações dos quadrinhos para as telas, está a representação multifacetária de seus personagens. E, talvez, em Harvey Dent tenhamos o melhor exemplo dessa ambigüidade que permeia o filme. Nem preto nem branco. Em O Cavaleiro das Trevas, temos um mundo acinzentado. Sem vilões absolutos ou heróis incorruptíveis. Se antes tínhamos a destreza moral sem nuanças dos super-heróis, temos agora não somente as duas faces de uma ordem moral, mas sim, nossos muitos rostos e máscaras. Por mais que o personagem de Duas Caras possua uma iconografia uma tanto esquemática, de dois rostos, um natural e outro desfigurado.

Harvey Dent possui uma dimensão trágica. Até quase o final do filme, é o mais íntegro de todos os personagens. É o Cavaleiro Branco sem máscara que Gotham necessita, em detrimento do justiceiro mascarado. Mas é também aquele que mais perde no jogo de dados do acaso. Ele perde a mulher que ama, a causa que professa e mais que tudo, a esperança de que um comportamento ético, decente e moral pudesse ser a melhor arma de resistência contra um mundo corrupto. Suas frustrações são com a impossibilidade de se fazer justiça com as mãos limpas, da decepção diante de um Estado de Direito incompetente e consigo mesmo. Coringa o mostra, naquela grande cena entre os dois no hospital, que nosso mundo é injusto, de que nem sempre boas intenções geram o tão esperado final feliz com direito a casamento, filhos e netos...

Transformando-se de Harvey Dent para Duas Caras, o advogado paladino à Eliot Ness torna-se a maior vitória do Coringa. A prova da tese do palhaço de que basta um “empurrãozinho” para virarmos bárbaros e nossos maiores inimigos. Coringa pode ter sido preso, não ter conseguido “sucesso” em seu “experimento social” nos barcos que não se destroem, mas sua última carta na manga é a conversão do criminalista em criminoso.

Dentro de uma concepção de herói mais tradicional, ou seja, aquele que se sacrifica por outro(s), Harvey Dent é o mais próximo do heroísmo em todo filme. Seu altruísmo cheio de benevolência aparece no mínimo três vezes. Primeiramente em sua cruzada a favor de Gotham, lutando pela justiça de maneira icônica. Depois, assume ser o próprio Batman, tomando para si os pecados do justiceiro mascarado e fazendo a vontade da maioria de Gothan. E por último, e talvez o mais doloroso, há o sacrifício que se dá a favor de Rachel Dawes. Nosso caro Harvey estava disposto a dar sua vida, se isso resultasse na sobrevivência da mulher que amava. É doloroso acompanhar tamanha jornada que acaba em ceticismo e desespero.

Harvey Dent/Duas Caras é a “chave” do filme. O personagem que ilustra melhor os objetivos do Coringa. Nele está a crueza do filme, pois exemplifica o beco sem saída a que chegamos. Che Guevara disse certa vez que não se faz revolução antes dos trinta anos. Será que a passagem do tempo nos torna mais embrutecidos, desesperançados? É ingênuo tomarmos como exemplo a postura inicial de Harvey Dent, já que o destino inevitável está na desilusão e no vácuo ideológico? Acho que poucas vezes um personagem expressou tão bem o sentimento que ronda o mundo pós-queda do muro de Berlim, pós-renúncia de Fidel. Um mundo sem utopias. Em que a linha entre a corrupção e o “bom negócio” se torna cada vez mais estreita.

22 de jul. de 2008

O Cavaleiro das Trevas (II)

Coringa - Ele não quer dinheiro, ou mesmo notoriedade. Não é explicável através de uma psicologia barata e reducionista, em que traumas infantis poderiam solucionar tamanha brutalidade. Como Anton Chigurh, o matador interpretado por Javier Bardem em Onde os fracos não tem vez, o Coringa de O Cavaleiro das Trevas não possui origem ou motivações fáceis.

Ele é o agente do caos. Cuja razão de existência é desmascarar a fragilidade da “ordem”. Apontar as feridas abertas como sociedade. Esfregar em nossas faces a linha tênue que separa a normalidade da vilania, o politicamente correto das áreas mais soturnas de nós mesmos. A cena dos barcos, que ele chama de “experimento social”, é o emblema daquilo que também quis fazer Lars Von Trier em seu Dogville: Queimar as cortinas da amabilidade. Desnudar o egoísmo que tem consumido o planeta em tempos globalizados.

Coringa é o lado B do próprio Batman. A face queimada da moeda de Harvey Dent/Duas Caras. Tememos o novo Coringa porque sua retórica é precisa e assustadoramente lógica. Não quero ser mal interpretado, mas acredito que Coringa está longe da “insanidade”. Às vezes ele é são até demais, e é isso que nos amedronta ao ver o filme.

Não há um vilão convencional em O Cavaleiro das Trevas. O filme (o mundo) é bem mais complicado que isso. Coringa é um catalisador, a vanguarda que questiona os valores estabelecidos. No embate final com Batman a câmera vira de ponta cabeça, enquanto Coringa faz seu último discurso a favor da anarquia. Utilizando-se de um recurso de linguagem tão “primário”, Nolan exemplifica com perfeição quem é este homem fantasiado. Aquele que quer virar o mundo de cabeça para baixo. Virá-lo às avessas. Há algo de Antônio das Mortes, o matador de Deus e o Diabo na Terra do Sol em Coringa. Um personagem à frente (fora?) de seu tempo.
Nolan não dá respostas em seu filme, e nem precisa. Batman-O Cavaleiro das Trevas é uma grande provocação pós-moderna para aqueles que vendem a Democracia como o último estágio e possibilidade única de organização política. Disse em post anterior, quando escrevia sobre O Escafandro e a Borboleta, que o Cinema ainda engatinha, com míseros 113 anos. Pois este filme veio à tona para lembrar-nos que a Civilização também dá os seus primeiros passos, e que a Democracia é cheia de fraturas de uma estrutura óssea que pode vir abaixo com um simples “empurrãozinho” deste palhaço macabro.

21 de jul. de 2008

O Cavaleiro das Trevas (I)

A seqüência de Batman Begins é um filme que muito me angustia. Um amigo até pensou que meus suspiros no meio da sessão eram de insatisfação diante do filme. Era justamente o inverso. Batman-O Cavaleiro das Trevas é de uma complexidade e crueza que inquieta todos aqueles que refletem sobre dias tão sombrios, incertos e ambíguos como os nossos.

O brilhante filme de Christopher Nolan é uma aguda reflexão sobre o mundo pós-11 de setembro. Regido pelo medo, intolerância, pela desconfiança perante as instituições, por inimigos invisíveis e incompreensíveis. Um mundo em trevas. Nolan não fez um filme sobre um super-herói, mas sobre qual herói necessitamos, ou devemos (não) ter. É um filme para gente grande, para se ver sem pipoca.

Considerando a complexidade do filme, tentarei fazer um texto um pouco diverso dos que tenho escrito. Ao invés de uma resenha com início, meio e fim, dividirei algumas idéias primeiramente sobre os personagens do filme e depois sobre o que acredito ser seus principais temas.

Batman – No novo filme, ele não pode ser mais o herói forjado no primeiro. Ele deve se reinventar. Sua existência alterou a ordem e dimensão dos problemas de Gotham. O que era originalmente para ser uma “inspiração” de luta do bem e pela justiça foi transfigurado pelos cidadãos em um símbolo quase de revanchismo, de luta com as próprias mãos contra o crime. E, o mais importante, uma luta acima das leis do estado democrático. Batman deve agora lutar contra um estado de coisas do qual ele mesmo é responsável por sua gênese. E a figura e o resultado mais assustador dessa alteração criada pelo próprio herói é o surgimento de um criminoso sem motivações óbvias, um anarquista agente do caos chamado Coringa.

A situação de Batman, portanto, é insustentável. Ele nem inspira, muito menos representa essa sociedade em transformação. Ele é um fora-da-lei. Um milionário excêntrico debaixo de uma fantasia sofisticada. Se o primeiro filme foi sobre a gênese do herói, O Cavaleiro das Trevas é a revisão crítica de sua figura. Como seres pensantes, não podemos aceitar as condutas de Batman como se fosse ele um herói convencional e incorruptível. Em certos momentos suas atitudes podem ser tão questionáveis quanto as do Capitão Nascimento de Tropa de Elite. Os fins justificam os meios? Pergunta Christopher Nolan para nós, espectadores.

Em uma sessão de interrogatório, nosso “herói” esmurra seu depoente em busca de informações. Em outro momento, quebra as pernas do líder da máfia. No clímax do filme, utilizando um recurso tecnológico que nos remete às profecias de Orwel em 1984, Batman abusa de seus poderes subvertendo as liberdades individuais e democráticas. Ele passa a ouvir e vigiar todos os habitantes. Queremos realmente um justiceiro dessa natureza? Ainda resta alguma outra possibilidade para a justiça dentro da lei? O próprio homem-morcego possui distanciamento para enxergar sua postura como duvidosa.

Diante dessa necessidade de repensar seu papel como símbolo, Batman vai a busca de um outro herói possível, mais compatível e competente com a realidade que o cerca. Ele o encontra em Harvey Dent, paladino irrepreensível em busca da justiça.

Como muito bem disse um outro amigo meu, Batman/Bruce talvez nem seja o convencional protagonista do filme. Seu tempo em cena é quase equivalente às demais peças do tabuleiro de Cavaleiro das Trevas como Harvey Dent (a “chave” do filme, como veremos), Coringa e o comissário Gordon. Quatro personagens do filme que tentarei esmiuçar ao longo da semana. Para logo em seguida tentar expor sobre o que acho que são os temas e objetivos deste grande e provocativo filme.

Caro leitor. A ida ao cinema para conferir Cavaleiro das Trevas é quase imperativa. Para mim, a melhor adaptação (subversão?) de um HQ da história do Cinema! Vá ver. E até o próximo post.

20 de jul. de 2008

O Escafandro e a Borboleta

Toda a regra deve ter sua exceção. Pensava realmente em não escrever em julho, numa tentativa de “desburocratizar” a própria vida. Não ser “síndico de mim mesmo” como dizia Tom Jobim. Mas... nesse meio tempo vi alguns filmes que muito me emocionaram e despertaram o desejo de voltar a este espaço. O anseio por comunicação falou mais alto. Então, estamos de volta! E, por enquanto, sem novos recessos à vista...

O Cinema constantemente é lembrado como uma arte que dá vida aos sonhos, asas à imaginação, etc. Nem sempre essas denominações conferem com os filmes que vemos, principalmente no que se refere ao mundo dos sonhos, ainda tão pouco explorado no Cinema e que parece distante dos planos dos cineastas e do público. Com exceção talvez de David Lynch e seus devotos. Porém filmes como O Escafandro e a Borboleta faz-nos lembrar do grande potencial para representação de nossas fantasias que possui essa arte que ainda engatinha, com míseros 113 anos.

O filme do cineasta, e também pintor, Julian Schnabel conta a fascinante história de Jean-Dominique Bauby. Editor da revista "Elle" francesa que sofreu um derrame deixando todo o seu corpo paralisado. Exceto seu olho esquerdo. Em existência tão enclausurada, que sentido de vida pode alentar tamanha angústia? Jean-Do, como é chamado, se refugiará fundamentalmente em duas ferramentas: A memória e a imaginação. Além disso, se predispõe a escrever um livro sobre sua nova experiência de trancafiado em si mesmo, somente com o piscar de seu olho remanescente.

Os momentos em que embarcamos na imaginação e memória do protagonista são os melhores do filme. São nessas cenas, que nos fazem literalmente “entrar” em Jean-Do, que Schnabel explora com maestria essa certa vocação do Cinema para adentrar na subjetividade e fantasias de seus personagens. Como disse o crítico Daniel Piza, e eu concordo, o filme vai além e é melhor que o próprio livro que deu base ao filme.

A criatividade, a plasticidade das imagens. Tudo coopera para uma experiência de Cinema e de vida de grande intensidade. O Escafandro e a Borboleta nos reconcilia com a grande arte, lembrando a cada plano as imensas possibilidades da linguagem cinematográfica. Tema e forma numa relação simbiôntica e sofisticada, mas nem por isso distante do espectador, pelo contrário.

Lendo a resenha do filme, simplesmente, pode-se ter a errônea impressão de uma obra, digamos, “depressiva”. Um novo Menina de Ouro, por assim dizer. Mas não se engane. O Escafandro e a Borboleta é um recado para a reconstrução e celebração da família, dos amigos, do amor. Das borboletas da vida. Um filmaço. Junto com I´m not there, um dos melhores do ano.

11 de jul. de 2008

Recesso


Meus caros amigos,

Julho será um mês de sol, praia e ócio produtivo.

Voltamos em Agosto.

grande abraço.

Josafá

Ps: Só não deixem de ver "O Escafandro e a Borboleta". É maravilhoso!

30 de jun. de 2008

Cinturão Vermelho

Até parece que estou de mau humor. Há tempos que não escrevo uma crítica positiva. Mas a culpa é das estréias e não do meu temperamento, garanto.

David Mamet é um relevante dramaturgo norte-americano que às vezes se aventura na direção cinematográfica. E traz em seu novo filme a história de um herói contemporâneo. Um professor de Jiu-Jitsu que deve manter seus princípios num mundo corrupto e corruptor.

Ética é mesmo um valor em baixa nos costumes, por isso é até saudável ver um artista preocupado em pensar sobre o assunto. Mamet é um praticante da luta marcial que dá pano de fundo ao filme. Ou seja, fala do assunto com conhecimento de causa. Mas o problema do cineasta, e de seu Cinturão Vermelho, é que ele leva muito a sério o que aprendeu na academia. A, digamos, “filosofia” do Jiu-Jitsu que rege o comportamento do protagonista é tão rasa quanto a presente naquela outra série sobre artes marciais, Karate Kid.

E, como se não bastasse essa tábula rasa ideológica, Cinturão Vermelho possui o mesmo paradoxo que havia nos filmes do Daniel San, Sr. Miyagi e companhia: Durante todo o filme o herói diz veementemente “não” à violência, só que no final da trama não resta outra alternativa ao indivíduo senão entrar na pancadaria. Satisfazendo assim o clímax do filme e a catarse da platéia. Meu caro Mamet, me engana que eu gosto...

Ah, quanto ao desempenho dos brasileiros Alice Braga e Rodrigo Santoro. A sobrinha da Sônia continua uma graça e muito talentosa. O galã melhorou seu inglês e convence bem como um dos vilões. Em breve os dois devem aparecer em outras produções gringas. Pois é, meus amigos. Globalização.

17 de jun. de 2008

Fim dos Tempos

M. Night Shyamalan, uma das mentes mais originais do cinema norte-americano, pode ter afundado para sempre sua carreira. O dano pode ser irreparável. Fim dos Tempos é um grande equívoco dentro de uma filmografia mais que respeitável. A pior obra do diretor.

Desde o fracasso de seu último filme, A Dama da Água, a expectativa e a necessidade de um outro sucesso nas bilheterias se fazia imperativo para Shyamalan. Mas duvido que seu filme faça boa carreira nos cinemas. A idéia de Fim dos Tempos é até engenhosa: Uma substância tóxica surge não se sabe de onde, e impede que as defesas naturais do ser humano atuem. As pessoas começam então a cometer suicídios em massa.

Os primeiros cinco minutos são eletrizantes. O diretor de origem indiana é um discípulo de Hitchcock e filma muito bem, sabe criar tensão com sua câmera. O que atrapalha o restante dos noventa minutos de filme é que Shyamalan, além de ser influenciado pelo mestre do suspense, também é um grande tiete do cinema de Steven Spielberg e acaba adotando para si as mais duvidosas qualidades dos filmes do diretor de ET: Sentimentalismo barato, excesso de simplificações e o anseio em colocar no altar os valores da família.


Desde meados dos anos setenta, o cinema catástrofe tornou-se um gênero constante em Hollywood. Após o 11 de setembro, junto com os alertas quanto ao aquecimento do planeta, filmes do gênero voltaram a pipocar aos montes. Shyamalan com este filme se junta a essa trupe do ecologicamente correto e de crítica à paranóia americana, mas sem eficácia alguma.

O diretor costuma utilizar metáforas em suas obras para expor sua autoralidade, seu ponto de vista. Mas em Fim dos Tempos tudo é muito óbvio, raso demais. O que falta de complexidade sobra em concessões para o grande público que busca ir ao cinema para alienar seus neurônios. Algumas cenas lembram o pior do filme B e de horror. Não dá para levar a sério. Parece que o homem desistiu de ser o cineasta instigante que era.

Um filme pretensioso (no mal sentido de termo), terrivelmente interpretado (Nem Mark Wahlberg se salva) e quase grotesco em algumas cenas de suicídio. Incerto é o destino de M. Night Shyamalan na cova dos leões da indústria de Hollywood. Espero que não, mas talvez esteja próximo o fim de seu tempo...

8 de jun. de 2008

Um Amor para Toda a Vida

Muito temeroso, fui dar uma chance para o novo filme do ator e diretor britânico Richard Attenborough. Ele é o mesmo diretor de Gandhi, Um Grito de Liberdade e Chaplin. Filmes medianos, não gosto particularmente de nenhum deles. Todos exemplos daquelas biografias padronizadas que Hollywood adora fazer.

Bem, depois de quinze minutos de filme o temor inicial se transformou em um remorso doloroso. Êta, filme ruim! Attenborough costuma exagerar no sentimentalismo, mas neste Um Amor para Toda a Vida ele passou da medida do quanto de melação, frases feitas e música adocicada um espectador pode agüentar numa sessão de cinema. Nem mesmo os veteranos Christopher Plummer e Shirley Maclaine ajudam o filme a não naufragar por completo.

Há muitos filmes em Um Amor para Toda a Vida, pelo menos uns três diferentes. Muitos temas que esse diretor já octogenário - Em agosto ele completa 85 – busca desenvolver sem alcançar nem mesmo a mediocridade. Pelo seu próprio bem, leitor, passe longe deste novelão. Economize seu salário. Nem na tela pequena da tv um horror desses deve se sustentar.

3 de jun. de 2008

O Melhor Amigo da Noiva


A comédia romântica é hoje um dos gêneros mais consolidados do cinema norte-americano. A cada fim de semana um novo exemplar chega aos cinemas. E isso vem de longe. Em 1935 Frank Capra vencia os Oscars de melhor filme e direção com Aconteceu naquela noite, um exemplo quase paradigmático do tipo de comédia que se faz até a atualidade.

Gosto demais de acompanhar esses filmes, um pouco por falarem de amor, relacionamentos e ter, em 99% dos casos, um inevitável final feliz. Vejo por distração, às vezes por puro escapismo mesmo. Mas o que não impede de aqui e ali encontrar exemplos não só de simples diversão, mas filmes que possuem talento, inteligência e assim se diferenciam do mais do mesmo.

O Melhor Amigo da Noiva é uma surpresa e tanto nesse sentido. Histórias como a deste filme são contadas o tempo todo, mas sua graça, junto com o carisma de seus atores pode oferecer ao espectador uma experiência encantadora e muito engraçada. Cinema pra mim é um só. Não existe em minha concepção algo como “cinema de arte”. Há vida inteligente em Hollywood e eu não sou o primeiro a dizer isso.

Os “produtos” cinematográficos claro que existem, porém em meio a um oceano de mediocridade se pode enxergar exemplos diferenciados como este O Melhor Amigo da Noiva. Vale a pena passar por cima do preconceito e dar uma chance a um filme previsível, mas rico em observações humanas.

28 de mai. de 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal


O quarto filme do herói arqueólogo é frustrante por uma razão principal: Spielberg há alguns anos já virou um adulto. Não é mais o jovem cineasta que concretizava no Cinema suas fantasias com tubarões, extraterrestres e heróis à moda antiga.

No começo de sua carreira, os críticos até o acusavam de ter um certo complexo de Peter Pan. Bem, se isso é verdade, esse tal complexo o ajudou a realizar filmes de primeira qualidade para o grande público, inclusive os três primeiros Indiana Jones.

Mas agora, quase vinte anos após a realização de Indiana Jones e a Última Cruzada, Steven Spielberg não pode voltar no tempo e ser novamente o cineasta que era, com sua imaturidade, frescor e outros atributos que o favoreceriam para acertar a mão neste seu último filme.

Esse amadurecimento talvez não ajude o diretor na realização desses filmes blockbusters, mas com certeza colaborou para a feitura de obras mais sólidas como A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan e, principalmente, Munique, disparado o melhor filme de sua carreira.

O novo Indiana Jones só não é um desastre completo por causa de seus personagens cativantes e a performance de Harrison Ford. Como ocorreu com a nova trilogia Star Wars, Spielberg, George Lucas e companhia exageram nos efeitos computadorizados e deixam para segundo plano o desenvolvimento de uma trama mais amarrada e envolvente.

Seria exagero, creio, chamar Steven Spielberg de “autor”. Mesmo que seja possível observar temas recorrentes em seus filmes como a família, a questão do outro, etc. Porém, uma coisa é certa, mesmo ao fazer um filme de aventuras despretensioso, o cineasta deve buscar fazer o filme que pessoalmente lhe agrada, e nunca o filme que ele imagina que o público gostaria de ver na tela...

Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida é ainda o melhor filme de todos, e um dos motivos é que Spielberg fez esse filmaço muito para satisfazer a si próprio, enquanto que esse último filme, disse ele em entrevistas, fez para os fãs. Estou generalizando, eu sei, mas acho essa declaração pode ser outra pista para solucionar o porquê das duas horas de pura decepção.

6 de mai. de 2008

O Sonho de Cassandra (2)


Há um fator novo e digno de nota no cinema de Woody Allen, especificamente em seu último filme, que é o uso de uma trilha sonora original. Quem acompanha os filmes do diretor sabe que o melhor do Jazz norte-americano acompanha os enredos de seus filmes como também a cidade de Nova Iorque se tornou uma de suas marcas registradas no Cinema. Temos então em O Sonho de Cassandra algo novo a ressaltar, um compositor especialmente convidado para compor a trilha do filme, no caso o músico norte-americano Philip Glass.

Pessoalmente não sou um grande entusiasta das partituras de Glass para o Cinema. Acho suas músicas repetitivas, plágio de si mesmas, por mais que reconheça sua eficácia em filmes como As Horas e no documentário Sob a Névoa da Guerra. Em O Sonho de Cassandra, creio que a trilha funciona muito bem. É econômica, senão precisa para acentuar os momentos de tensão e suspense na trama.

Quando ressalto (no texto abaixo) que vejo em O Sonho de Cassandra um filme de alguém que domina a linguagem do Cinema é também considerando o bom uso da trilha sonora pelo cineasta. Vejo um amadurecimento nesse quesito no Cinema do diretor desde Match Point (2005), no qual a música operística tinha um papel fundamental como pano de fundo da aristocracia inglesa. No filme, trechos de obras de Verdi e Bizet são usados com mestria pelo diretor.

Em Scoop – O grande furo (2006), seu filme seguinte, também se passando em Londres, temos a música clássica novamente muito presente, só que agora na busca de um tom mais cômico, com Grieg e Tchaikovsky. Gosto então de pensar que o “sucesso” do uso da trilha orquestral (original) em O Sonho de Cassandra não é por acaso, mas comprova uma genuína preocupação do cineasta em explorar novos territórios quando se trata de música para seus filmes.

5 de mai. de 2008

O Sonho de Cassandra

Ir ao cinema para ver o novo filme de Woody Allen é como rever um velho amigo. Uma vez por ano esse nosso companheiro-cineasta reflete sobre temas que o perseguem e que já foram explorados anteriormente em sua vasta filmografia.

Diferente do que muitos críticos acreditam, O Sonho de Cassandra não é mera repetição, ou uma “sub-obra” na carreira de Allen. Mas sim, um novo degrau na investigação e enfrentamento de dilemas pessoais do cineasta como a Morte, a Ética e o mundo contemporâneo. Eis a trama: Dois irmãos precisam urgentemente de dinheiro e o método mais fácil de conseguir é matando o inimigo de um tio rico.

Em suas entrevistas, Woody Allen é o primeiro a admitir que não se acha um diretor apto para realizar filmes “políticos” ou de “crítica” a algum tema atual. Porém, tanto em seu penúltimo filme, Match Point (2005), como no que acaba de estrear, Allen prova ser um cineasta muito atento ao mundo globalizado em que vive e capaz de apontar suas contradições. Sob que Ética viver num mundo obcecado pelo dinheiro? Quais os limites que a sociedade têm ultrapassado em favor do sucesso nos negócios?

Essas são algumas das questões que permeiam O Sonho de Cassandra. Uma excepcional obra cinematográfica. De um diretor com extremo domínio da técnica e da linguagem do Cinema. A cena na qual o assassinato é posto em pauta na trama, e na vida dos irmãos, é simplesmente brilhante nesse sentido.

Como em Crimes e Pecados (1989) e em outros de seus filmes, temos o assassinato, a culpa, os dilemas de Raskólnikov que tanto fascinam o diretor nova-iorquino. O que faz, talvez, de O Sonho de Cassandra um filme tão forte é o ingrediente de tragédia que move a trama até o desenlace.

É fascinante acompanhar tão rica obra artística. Em Crimes e Pecados, o personagem (também assassino) de Mantin Landau conseguia empurrar sua culpa para debaixo do tapete, o que nos dava um nó interior em nossas convicções religiosas e dramatúrgicas. Em Match Point , por sua vez, o arrivista Cris, após o assassinato de sua amante inconveniente, parece ter perdido parte de sua humanidade num final amargo, dilacerante.

Agora, os irmãos Colin Farrel (excepcional) e Ewan Mcgregor pagam por seus crimes de maneira inevitável. Mais do que uma simples lição de moral como “o crime não compensa”, Woody Allen nos dá um testemunho lúcido e crítico sobre o estágio a que chegamos como civilização, na qual a busca pelo dinheiro destrói relações familiares das mais sinceras.

Um grande filme, com certeza. Que poderá entrar no grupo das obras-primas do diretor, junto com Manhattan (1979), A Outra(1988) e Crimes e Pecados (1989).

14 de abr. de 2008

Maré - Nossa História de Amor

É uma pena, mas o novo filme de Lúcia Murat me parece um equívoco colossal. Sou um sincero admirador de Quase dois Irmãos, seu filme anterior, que acho um dos melhores filmes brasileiros dede a Retomada. Mas seu musical na favela constrange.

Por mais que atualmente vejamos alguns exemplos de musicais nas telas, os filmes do gênero ainda são esporádicos e a qualidade dos mesmos muito duvidosa. Aqui nos trópicos, não se via a produção de um musical (creio eu) desde os tempos de Oscarito e Grande Otelo.

É, portanto, de uma ousadia tremenda almejar levar para o Cinema o canto e dança num enredo shakespeariano já manjado. No resultado final, nada se sustenta. Nem mesmo o texto, a escolha das canções ou dos atores, que podem saber rebolar muito bem, mas a falta de carisma do elenco é generalizada.

25 de mar. de 2008

2 dias em Paris


Fui ver 2 dias em Paris com boas expectativas. Julie Delpy é a atriz, roteirista e diretora dessa comédia romântica despretensiosa, e quem me conhece sabe bem que gosto enormemente da atriz no díptico Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, de Richard Linklater.

Vi o filme com um amigo e a decepção foi a mesma. Julie faz a francesa que leva o namorado americano (Adam Goldberg) para conhecer seus pais na cidade-luz. O choque cultural do namorado com sua família (e Paris) é a linha-mestra do longa.

A idéia é convencional, mas não quer dizer que por isso a estréia na direção de Delpy esteja fadada ao fracasso. O problema é que ela se utiliza exaustivamente dos clichês e preconceitos mais comuns em relação aos franceses: Taxistas mal-educados, liberalidade sexual, etc. Tudo muito raso, repetitivo e, infelizmente, sem graça nenhuma.

Não sou o primeiro a dizer que fazer Comédia é algo muito mais complexo do que a feitura de um Drama. Delpy não acerta o tom de humor, por mais que seu parceiro de cena, Goldberg, tenha alguns bons momentos. Julie Delpy é realmente francesa e espanta esse seu olhar reducionista sobre sua terra natal. Filme de estreante. Mais sorte na próxima.