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24 de nov. de 2008

Romance

Após se exercitar em comédias tanto na televisão como no cinema, o diretor Guel Arraes arrisca uma história de amor mais autoral e cheia de metalinguagem. Quanto há de verdade num caso amoroso? Qual a parcela de representação numa declaração apaixonada? Ficção versus realidade. Arte e vida num emaranhado de difícil desato. Boas propostas, mas que ficam a dever no resultado final. Falta sal e sobra açúcar no novo filme do cineasta pernambucano.

Os dilemas de paixão e amor permeiam o filme, mas não envolvem o espectador. O texto é bem pensado e inteligente, mas fica sem vida na boca dos atores. Que são bons, porém engessados. Uma fotografia edulcorada e uma trilha melosa não ajudam também o filme de Arraes. Um diretor que merece respeito por conseguir qualidade e apelo popular em O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro, mas que não chega lá em seu Romance.

17 de nov. de 2008

Vicky Cristina Barcelona

Woody Allen é um cineasta contemporâneo, no sentido mais amplo do termo. Homem curioso e atento ao mundo que o cerca. Um tema atualíssimo como a cobiça material, por exemplo, foi o eixo central de dois de seus últimos filmes: Match Point e Sonho de Cassandra. Em sua nova obra, Allen discorre novamente sobre assuntos que no dia de hoje (!) inquietam nosso ser e estar no mundo.

O cineasta nova-iorquino é ainda um dos maiores do cinema. E um dos motivos para isso é que ele sabe muito bem reinventar-se como artista. Não repete fórmulas ou teses sobre assunto nenhum. Pode haver, claro, recorrências temáticas. Mas o que muitos críticos não se dão conta é que cada filme seu é uma obra singular, que merece sempre olhos frescos e respeitosos.

Não deve haver rótulos a diretores de cinema, por que engessam as possibilidades para novas leituras sobre suas obras. No caso de Allen, o que há ao acompanhar sua carreira é constatar o amadurecimento contínuo de sua visão sobre o cinema, o amor, a vida. E Vicky Cristina Barcelona é reflexo de tudo isso. É bobagem repetir a cada ano que seus filmes não ficam “aos pés” de suas obras-primas dos anos 80.

Vicky Cristina Barcelona é um ótimo filme. Sutil, inteligente. Muito engraçado. A mudança de ares do cineasta (é seu 4º filme rodado na Europa) só tem ajudado sua arte. Refletir sobre o amor e seus atuais conceitos e dilemas... Esse é o maior anseio do diretor, ao contar a história de duas amigas norte-americanas, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), que em Barcelona embarcam numa roda viva de novas experiências amorosas junto de um pintor de telas sedutor (Javier Bardem), e sua ex-esposa neurótica (Penélope Cruz).

13 de nov. de 2008

Rocknrolla

Guy Ritchie volta ao submundo inglês de seus primeiros filmes. Retorna ao universo de traições e mal-entendidos que fez a fama do cineasta no final dos anos 90. Em Rocknrolla, assim como em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch, Ritchie constroe uma brilhante teia de interesses e desinformações. Quase uma comédia de erros movida pela ganância de variados grupos étnicos e criminosos. De narrativa ágil e inventiva, o novo filme do cineasta dá um passo além em qualidade na obra do diretor, e consegue ser mais denso que seus filmes anteriores.

Nas entrelinhas do enredo bem articulado de Rocknrolla há um fascinante distanciamento em relação a esse universo de Sexo, Drogas e Rock & Roll. Um dos trunfos do filme é esteticamente(posição da câmera, luz, trilha..) alcançar uma relação crítica com o que é mostrado na tela. Seja na tortura de um chefão do crime, ou na desmistificação de um usuário de crack fumando sua pedra.

Para quem tiver sensibilidade para notar, verá que todo o filme é amarrado em função de uma obra de arte, um quadro que nunca é mostrado de frente ao espectador. Uma pintura com suas implicações não só práticas para o roteiro, mas filosóficas, é o que move a narrativa e o que dá margem para justificar uma atenção apurada a este filme.

Sementes muito interessantes foram lançadas neste Rocknrolla. Grãos que devem frutificar com mais clareza ao longo da trilogia que esse filme dá início. Um projeto já em elaboração por Ritchie. Mesmo que, talvez, menos cativante e engraçado que seus filmes anteriores, Rocknrolla merece atenção redobrada daqueles que erroneamente convencionaram desprezar o “cinema de Hollywood”.

11 de nov. de 2008

O Silêncio de Lorna

Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne seguem firmes em seu projeto estético-humanista. Ao mesmo tempo rigoroso e despojado, o mais recente filme dos cineastas belgas é exemplo do mais refinado tratamento dramatúrgico. Pois não foi com um manual de roteiro hollywoodiano debaixo do braço que se construiu filme com tamanha contundência e sensibilidade.

Lorna (Arta Dobroshi) é a imigrante albanesa que se casa por conveniência e contrato ilegal com um belga viciado em heroína (Claudy), visando assim conseguir a cidadania européia. Dentro de um submundo de casamentos forjados, de aspereza humana e ética, Lorna deve lidar com cautela suas ambivalências e desejos pessoais. Resistindo como pode ao mundo embrutecido que a cerca.

Não há personagens rasos no cinema dos Dardenne. Tanto a protagonista, como as outras peças desse enredo, são todas dotadas de complexidade e nuanças. E é fundamental para o resultado final o primor das interpretações de seus atores. Como Lorna, Arta Dobroshi é de uma entrega fascinante.

Grandes temas atuais embasam o filme: A questão da imigração clandestina na Europa, dependência química, a obsessão pelo dinheiro. Mas todos eles refletidos no pano de fundo da história da jovem imigrante. O Silêncio de Lorna é um dos mais interessantes filmes recentes. Consegue ser tão bem equilibrado como a anterior obra dos diretores, A Criança, ganhador da Palma de Ouro em 2005. Belo cinema.

7 de nov. de 2008

Última Parada 174

Não há razão para o novo filme de Bruno Barreto existir. Após obras nacionais como Pixote, Cidade de Deus e do documentário Ônibus 174, Última Parada nada contribui para a história de nosso cinema ou para o debate social do país. Uma verdadeira nulidade cinematográfica.

Após dezesseis longas metragens, já era hora de Bruno Barreto ter aprendido a fazer cinema. Este seu último filme mais parece a estréia de um novato atrás das câmeras. Com um roteiro esquemático, previsível, e com uma montagem irritantemente linear, talvez somente do protagonista possa se extrair algum adjetivo positivo. Temas como maternidade, mídia e criminalidade aparecem aqui e ali, mas são tratados de maneira rasa e pouco convincente.

Muitos são os equívocos de Última Parada 174. Erros conceituais que vem desde a gênese do projeto. Porém o cineasta peca principalmente pelo excesso de piedade ao contar a história do garoto Sandro, assassinado por policiais após seqüestro de ônibus no Rio de Janeiro. Piedade tacanha, Sr. Barreto, não serve para nada!

29 de out. de 2008

O Aborto dos Outros

Um tema delicado. Não só quando tratado num documentário como este, mas o aborto é questão que gera debates acalorados em qualquer instância. A jovem diretora brasileira Carla Gallo lida com sensibilidade um assunto tão espinhoso. E além do tema propriamente dito, o aborto, Carla realizou uma obra sobre a mulher e seus dilemas com a maternidade. O que enriquece o valor de seu filme.
Tendo como linha mestra entrevistas com mulheres que passaram pela experiência em hospitais públicos - previstos em lei ou autorizados judicialmente - , o filme também denuncia as condições de abortos clandestinos.

O Aborto dos Outros defende de maneira clara, mas não panfletária, uma postura pró-aborto. Nos momentos finais do documentário, “autoridades” no assunto ratificam o ponto de vista da diretora a favor da urgência de uma política mais adequada sobre a questão no Brasil. Mesmo um tanto irregular, é filme que vale ser visto. De linguagem seca e dura, mas que possui em sua essência humanidade e humanismo.

HSBC Belas Artes – 14:10h.

13 de out. de 2008

Fatal

O melhor filme da diretora catalã Isabela Coitex, seguramente. Após os sensíveis Minha vida sem mim e A vida secreta das palavras, Fatal (Elgy), baseado no romance do norte-americano Philip Roth (Dying Animal) continua a falar daquilo que mais atrai a cineasta: Relacionamentos humanos.

David Kepesh (Ben Kingsley) é o renomado professor de literatura que vive os dilemas do envelhecimento. Aparentemente seguro de si, prefere distância a relacionamentos mais densos até se apaixonar pela jovem aluna Consuela (Penélope Cruz). Promessas de amor versus a inevitabilidade da passagem do tempo afligem esse homem que se achava tão maduro, mas que se descobre ainda um adolescente no desvendar de sua personalidade.

Isabela Coitex é uma artesã de sentimentos. Ela realiza com maestria aquilo que para Walter Benjamim deveria ser a tarefa do narrador, em seu ensaio de mesmo nome: “A antiga coordenação da alma, do olhar e da mão [...] é típica do artesão, e é ela que encontramos sempre, onde quer que a arte de narrar seja praticada. Podemos ir mais longe e perguntar se a relação entre o narrador e sua matéria – a vida humana – não seria ela própria uma relação artesanal. Não seria sua tarefa trabalhar a matéria-prima da experiência – a sua e a dos outros – transformando-a num produto sólido, útil e único?”.

Excelentes interpretações, com destaque para Ben Kingsley, colaboram para que o filme alcance tamanha coesão. Requintes de poesia no tratamento das imagens e a edição leve corroboram para certificar uma maturidade cinematográfica invejável. Vale a pena acompanhar com olhos atentos carreira que voa com nitidez.

25 de set. de 2008

Ensaio sobre a cegueira

O espírito do livro está no filme. Como deve ser as boas adaptações de livros para as telas, Fernando Meirelles reinventa a obra para manter-se fiel ao autor. Como no livro de Saramago, temos uma fábula contemporânea sobre nossa incapacidade de ver.

A história é tênue. Sem motivo, repentinamente, o mundo está cego. Apenas a personagem de Julianne Moore mantém sua visão. Ela não possui nome ou passado, como todas as demais figuras principais. Um casal, um senhor negro, uma criança...

Meirelles realizou não só um recontar do enredo, mas buscou nas especificidades do cinema realizar uma obra de força em si. Som, música, edição. Artifícios de linguagem que o diretor domina como poucos. A fotografia de César Charlone, que desconstrói a imagem para melhor captar a impressão de perda da visão e a cegueira branca, é corajosa e de personalidade.

Há, sim, problemas de roteiro. Ensaio... é um tanto desequilibrado, principalmente na primeira meia hora de projeção. Nesse início, falta aos personagens despertar a empatia indispensável para nos envolvermos com o que se passa. Mas logo o envolvimento ocorre, junto com a força que o filme possui.

Quase no final do filme, há uma cena emblemática: na cidade já imunda e decadente, a chuva cai. Homens e mulheres se deixam encharcar em busca não só de limpeza, mas de redenção. Em tempos de brutalidade latente, a civilização clama por purificação.

Como no livro de Saramago, deve-se perder a visão para voltar a enxergar. Diz a mulher do médico (persongem de Julianne) para seu esposo, no final do livro: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vem, Cegos que, vendo não vêem”.

9 de set. de 2008

Linha de Passe

Uma família da periferia de São Paulo. Quatro irmãos de pais diferentes buscam melhores perspectivas. A mãe, solteira, doméstica e grávida. Não há um pai que complete esta família no novo filme de Walter Salles, Linha de Passe, co-dirigido por Daniela Thomas. A orfandade paterna e suas complicações continuam perseguindo o cinema dos dois diretores. Terra Estrangeira, Central do Brasil, Abril Despedaçado. Nesses filmes a figura paterna é ausente, motivo de busca ou centro dos conflitos do protagonista. Em Linha de Passe, cada um dos irmãos se desdobra de uma forma para lidar com ausência familiar tão fundamental.

Dario (Vinicius de Oliveira), sonha ser jogador de futebol. Dinho (José Geraldo Rodrigues), evangélico, é frentista num posto de gasolina; Dênis (João Baldasserini), motoboy, não vê futuro em si próprio; e Reginaldo (Kaique Jesus Santos), o menor, busca o pai que desconhece. Este caçula empreende a mesma jornada de Josué em Central do Brasil. E assim como em Cidade dos Homens, de Paulo Morelli, esse pai inexistente é metáfora de um País órfão de instituições capazes de acalentar suas contradições.

Walter Salles é cineasta herdeiro do Cinema Novo dos anos 60. Possui um olhar para o Brasil e seus marginalizados. Porém sem o esquematismo que marcou produções de Glauber Rocha, Cacá Diegues e outros. Salles dá a seus personagens complexidade, nuanças. Temas como religião e futebol não são tratados na tela como alienantes. Entender, e não esteriotipar, é o foco do diretor.

Na cartilha marxista de Os Fuzis (1963), de Ruy Guerra, há uma cena inicial emblemática: Uma nordestina idosa diz em depoimento que ficou cega no dia em que morreu Getúlio Vargas. Ou seja, a partir do momento que nosso maior pai político faleceu perdemos a visão, o rumo de nação. Nossa orfandade política, comprova Linha de Passe, permanece. Um filme maduro, belo e intenso.
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crítica de cinema publicada na revista Pipoca Moderna - Ed. 41.

6 de set. de 2008

Nome Próprio (III)

Em Nome Próprio forma e conteúdo andam, na maior parte do tempo, casadas de maneira muito interessante. Sua estética é autoral, feliz, e pouco pedante. Não posso admitir que alguém me diga que talvez Nome Próprio tenha sido realizado para satisfazer o umbigo de Salles. O filme está aberto a se comunicar com aqueles que querem ouvir sua canção. Camila é uma incógnita para o diretor e ele compartilha seus enigmas conosco. Difícil não ver altruísmo nisso.

Assim como em Como nascem os anjos e Nunca fomos tão felizes, filmes anteriores do diretor, Nome Próprio passa-se preponderantemente dentro de uma mesma locação: Um apartamento. Se Camila já cria barreiras para si própria, a claustrofobia de quatro paredes nos leva a um desconforto que é positivo para as intenções do filme. A longa duração de algumas cenas pode mesmo ser interpretado como um “excesso” de Salles, mas esse mesmo excesso colabora para compartilharmos a dor que transborda em Camila.

Algo parecido pode ser dito sobre o teor das interpretações do filme. Leandra Leal me parece realmente irretocável, mas tem sido comum ouvirmos comentários negativos em relação às interpretações do elenco masculino. Elas seriam “over”, exageradas. Penso diferente. Nome Próprio, através principalmente da seqüência final, dá margem para pensarmos que o que vemos no filme nada mais é do que a visão de mundo de Camila. A subjetividade da personagem é a essência do filme!

Não podemos duvidar da inteligência do diretor em querer transformar em proposital um registro de interpretação cheio de singularidade. A chave de interpretação do filme é algo dos mais interessantes na recente cinematografia nacional. Os personagens masculinos são todos um pouco “personagens deles próprios”. Playboys imaturos cheios de grosseria e vaidade. Ora, essas são as máscaras que Camila vê em todos os garotos que conhece. Ficção e “realidade” convergem na mente da protagonista, ela relê o mundo a sua volta.

Camila segue bem as palavras do poeta Ferreira Gullar que não se cansa de dizer: A vida é uma invenção, você escolhe se quer fazer dela uma coisa alegre ou se prefere que seja uma droga. Daí não dá pra deixar de emendar com a já mil vezes repetida frase de Cecília Meireles: A vida só é possível se reinventada. Porque não existe a vida, existe o caos, que você monta como achar melhor...

Há algo do romance Reparação, de Ian McEwan, em Nome Próprio. Algo da jovem Briony Talles em Camila. Quais são os prejuízos do excesso de imaginação? E quanto a mesma imaginação e arte podem auxiliar-nos na “reparação” e reconstrução do mundo, de nós mesmos? Qual a função da arte escrita para Camila se reerguer, se reinventar? Para ela se encontrar como Mulher? ... “O que querem, afinal, as Mulheres?” Freud se perguntava...

2 de set. de 2008

Nome Próprio (II)

1968-2008. 40 anos do ano mítico de mudança dos costumes, da emancipação da mulher etc. Penso, porém, que mesmo com as muitas transformações e conquistas dos anos 60, minha geração não alcançou o equilíbrio entre a “facilidade” da atividade sexual e a plenitude amorosa e afetiva. Sexo não é um problema para Camila/Leal. Liberdade sexual não é mais a grande questão, como também não é uma dificuldade para as rasas consumistas da série Sex and the City. O que falta a Camila, e a toda a atual geração de jovens, é saber lidar com suas relações. Ela carece de educação amorosa, não sexual...

Camila é autodestrutiva. Quando encontra um bom parceiro, logo em seguida compromete sua felicidade com alguma postura que escapa nossa compreensão e destrói suas possibilidades de se encontrar existencialmente. Esse paradoxo se explica em parte pela incapacidade dos homens a sua volta de serem um refúgio emocional satisfatório. O mundo masculino expressado na tela é interesseiro, mesquinho e insensível. O único porto seguro que Camila encontra é na figura de uma outra mulher e na escrita em seu blog. Há um, digamos, "machismo"- na falta de um melhor termo - que ronda o universo da protagonista, que a asfixia.

Na busca de Camila por uma ordem ao seu caos interno, há o impulso pela escrita. Ela possui um blog onde, sem pudor, expõe sua intimidade para quem interessar. Não acredito que esse impulso seja, essencialmente, um movimento de auto-exposição de sua privacidade. Também é isso, claro, mas Murilo Salles está mais preocupado em refletir criticamente sobre a tecnologia onipresente da Internet. Como disse, Camila tem dificuldades em se relacionar com o mundo humano que a cerca e é sintomático que seu maior porto de consolo não esteja na figura de outro ser humano, mas em uma máquina impessoal.

Diferente do que foi vendido na época de seu desenvolvimento, aos olhos do diretor a Internet não tem sido um veículo de aproximação humana. Muitos dos visitantes do site de Camila fetichizam e desprezam a pessoa e autora do blog. O computador da personagem não a conecta com ninguém, somente com ela mesma. Há excessos em Nome Próprio, mas nele também há um rigor nos temas que o diretor quer pôr em pauta. Por quatro ou cinco vezes, ouvimos o tom de discagem para que Camila se ligue ao universo da web. Só que não há redenção após a conexão, somente a mesma solidão e vazio.

26 de ago. de 2008

Nome Próprio (I)

Há uma anedota que se conta entre os psicanalistas. Sigmund Freud, após décadas dedicadas ao estudo de nosso inconsciente, morreu sem responder a pergunta que mais o angustiava: “O que querem, afinal, as Mulheres?”. A literatura nos dá algumas dicas sobre o assunto nas obras de Virgínia Wolf, Clarisse Lispector. No Cinema, Bergman e Woody Allen nos deram mais algumas sugestões para, atrevidamente, ousarmos tatear tamanho mistério que é o mundo feminino.

Nome Próprio, de Murilo Salles, tenta cavar um pouco mais fundo na busca dessa “tristeza de se saber Mulher” que disse Vinícius de Moraes em seu Samba da Benção. Nome Próprio é um filme que eu definiria como corajoso. Valente porque arrisca uma reflexão sobre a juventude. Sobre uma geração que não é a do diretor. A geração jovem atual, do vazio ideológico e utópico.

Neste ano de 2008, talvez somente Batman-O Cavaleiro das Trevas, que eu me lembre, tenha provocado mais minha geração com suas críticas à nossa Democracia fajuta e ao Estado de Ordem em que (não) vivemos. Nome Próprio também provoca, só que num âmbito mais afetivo, menos político. Um filme de uma força que um olhar apressado pode desaperceber.

Em sua primeira cena, a personagem principal Camila/Leandra Leal está totalmente desnuda. Salles, na apresentação de sua anti-heroína, prova já seu objetivo maior: Dissecar essa blogueira auto–destrutiva, cheia de angústia em frente de seu computador inanimado. Temos, então, um filme de estudo de personagem. Feminino, além de tudo.

Com tudo isso, não quero dizer que Nome Próprio seja um grande filme. Não é. O filme chega quase lá. Não chega a um estatuto de Gritos e Sussurros, por assim dizer. Mesmo tendo uma câmera vigorosa, Nome Próprio peca pelo excesso, pela falta de objetividade. Mas não significa que não valha a pena dar um olhar mais apurado em seu potencial, que existe, sim. (continua)...

6 de ago. de 2008

O Escafandro e a Borboleta (II)

Desde que li o livro em que o filme se baseia, queria muito compartilhar alguns trechos que de alguma forma me tocaram. Ia fazer isso logo após o post sobre o filme, só que aí veio o novo Cavaleiro das Trevas, com seu Coringa anárquico, e mudou a ordem das coisas, meu plano inicial...

Mas, agora sim, e com calma, selecionei algumas linhas do canto de vida de Jean-Dominique Bauby. Se você ainda não viu nos cinemas esta maravilhosa adaptação, presenteie-se com essa experiência! E leia também o livro, recém reeditado pela Martins Fontes. Um vôo “comovente, de um escritor extraordinariamente talentoso, conta como transformar dor em criatividade, desespero humano em milagre literário”, nas palavras de Elie Wiesel na orelha da obra.

“O escafandro já não oprime tanto, e o espírito pode vaguear como borboleta. Há tanta coisa para fazer. Pode-se voar pelo espaço ou pelo tempo, partir para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas”. (pág. 09).

“Por ora, eu seria o mais feliz dos homens se conseguisse engolir convenientemente o excesso de saliva que me invade a boca sem parar”. (pág.16).

“Foi assim que deparei com o farol numa das primeiras vezes em que empurravam minha cadeira de rodas, logo depois que saí das brumas do coma. [...] Imediatamente me pus sob a proteção desse símbolo fraterno que vela pelos marinheiros e pelos doentes, estes náufragos da solidão”. (pág. 33/34).

“Quanto ao prazer, apelo para a lembrança viva de sabores e odores, inesgotável reservatório de sensações. Não existia a arte de bem aproveitar os restos? Eu cultivo a de cozinhar lembranças em fogo lento”. (pág. 40).

“Afasto-me. Lenta mas decididamente. Assim como o marinheiro vê desaparecer a costa de onde zarpou para a travessia, eu sinto meu passado esvanecer-se. Minha antiga vida arde ainda em mim, mas vai-se reduzindo cada vez mais às cinzas das lembranças”. (pág. 83).

3 de ago. de 2008

Era uma vez...


Se dissesse que o filme é bom estaria sendo complacente com um diretor que ainda tem meu respeito. Não é um filme memorável, longe disso. Mas isso não impede de lembrar algumas qualidades que possui Era uma vez..., um romance à Romeu e Julieta entre um jovem do morro e uma garota da elite do Rio de Janeiro.

Sempre tento “defender” 2 filhos de Francisco, o primeiro filme do diretor. Acho que lá se atestava o talento de Breno Silveira para esmiuçar relações familiares, aparentemente um dos seus temas preferidos em carreira que ainda floresce. A história de luta e sucesso dos insossos Zezé de Camargo e Luciano mostrava habilidade narrativa e sensibilidade na direção de atores. Algo raríssimo no Cinema nacional de antes e de sempre.

As qualidades apresentadas em seu primeiro filme acabam sendo as principais virtudes do filme que estreou semana passada. Um roteiro bem amarrado (mesmo que previsível), personagens críveis e interpretações convincentes. Aliás, o que Era uma vez... talvez possua de melhor é mesmo seu protagonista Thiago Martins, garoto de carisma inegável. Os momentos de seu personagem com o irmão (Rocco Pitanga) são luminosos. Pena que o filme não se sustente tão bem em outros momentos.

A vontade de ser didático, o que acarreta um certo esquematismo, é o maior problema do filme. A ingenuidade da parte final me parece quase imperdoável. O Cinema não precisa apontar soluções para problema algum, mas a questão da violência no Rio e no Brasil é muito mais complicada do que sugere a simplicidade do desfecho.

24 de jul. de 2008

O Cavaleiro das Trevas (IV)

James Gordon – Em Batman Begins ele era aquele que punha a mão no fogo pelo herói. Dava-lhe sua confiança na luta contra o crime. No primeiro filme, o tenente Gordon era um idealista solitário, carente de companhia ética. Faltava-lhe uma força-tarefa contra a corrupção, que só aparece com a chegada do homem-morcego a Gotham.

Em O Cavaleiro das Trevas temos um homem mais pragmático. Calejado, talvez. Parece que Gordon tomou o mesmo banho de realidade que Harvey Dent, só que de maneira bem menos trágica. Em seu próprio departamento, Gordon sabe que nem todos os seus subalternos são pilares de moralidade, o que ameaçará a segurança de sua própria família nos momentos finais do filme. Da mesma forma que Batman, Gordon não se incomoda em usar meios pouco ortodoxos para conseguir o que quer. Como se não fosse possível lutar por justiça sem colocar as mãos na lama, ou governar sem ter que subornar parlamentares em troca de apoio.

Alfred – Foi só vendo o filme pela terceira vez que me ficou claro a importância deste coadjuvante encantador. Ele é a figura paterna, a voz da sabedoria. Um exemplo de fidelidade, cumplicidade e compaixão para com seu empregador. Junto com o personagem de Morgan Freeman, Lucius Fox, Alfred é a luz humana que impede O Cavaleiro das Trevas de ser uma obra exageradamente pessimista.

A atuação de Michael Caine é tocante, mínima, mas precisa. Ator e personagem se confundem na dignidade exigida pelo papel. Novamente como Lucius, Alfred é alguém que está acima do bem e do mal. Um mordomo que pode se dar ao luxo de omitir a verdade a Bruce Wayne, justamente pensando na felicidade dele.

Lucius Fox - Como o mordomo Alfred, o personagem de Morgan Freeman possui o mais humano de todos os dons: o senso de humor. Diante de tanta tensão e violência em O Cavaleiro das Trevas, Lucius nos aliviará com sua sagacidade e mansidão.

Ao ver o novo dispositivo criado por Batman para espionar todos os cidadãos de Gothan à 1984, Lucius diz: “É muito poder para um homem só”. No que Batman responde: “É por isso que só você pode controlá-lo”. Impossível pensar em elogio maior à nobreza deste parceiro que equilibra as decisões do protagonista. Lucius Fox é a consciência perdida naqueles que democraticamente votaram e decidiram pela explosão do barco ao lado, cheio de criminosos.

Rachel Dawes
– Como era o “leitor” em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o único senão do filme é ninguém menos que Maggie Gyllenhaal, a atriz na pele da advogada Rachel Dawes. Canastrona de primeira grandeza, Gyllenhaal causa uma verdadeira repulsa quando aparece na tela. Nada contra a personagem em si, mas a atriz não é bonita, não tem carisma ou simpatia. Um horror! Sua maior qualidade é que lá pelas tantas ela morre junto com a personagem...