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31 de jul. de 2009

Território Restrito


Após os ataques de 11 de setembro, o governo Bush endureceu o cerco contra a imigração ilegal nos Estados Unidos. Usando a desculpa da segurança nacional, aumentou a fiscalização e construiu muros na fronteira mexicana. Este rigor contra a entrada de estrangeiros no país é o tema de reflexão do filme “Território Restrito”, estrelado por Harrison Ford (“Indiana Jones”), Ray Liota ( "Os bons Companheiros" e Alice Braga ("Ensaio sobre a cegueira") que sai agora em DVD.

Assim como “Crash” (2004) de Paul Haggis, “Território Restrito” inter-relaciona moradores de Los Angeles. Lá, o que ligava os diversos personagens era a intolerância das relações humanas da cidade. Aqui, todos estão evolvidos na delicada situação imigratória: a atriz australiana que dorme com um agente do governo (Ray Liotta) para conseguir seu visto, a adolescente mulçumana ameaçada de deportação, a mãe solteira latina (Alice Braga) que pode ser expulsa do país sem seu filho pequeno.

Harrison Ford vive Max Brogan, um agente federal imigratório que seve de guia e observador crítico dos desenlaces do enredo. Seu olhar desesperançoso dá o tom filme. Acostumado a interpretar figuras heróicas, Ford faz um personagem solitário e impotente. Sua ética pessoal não traz muita diferença na engrenagem conservadora da América contemporânea.
“Território Restrito” não dá soluções prontas, somente põe em pauta a complexidade política, econômica e cultural da imigração ilegal. O excesso de personagens e subtramas deixam o enredo um tanto monótono. Um roteiro mais enxuto ajudaria o resultado final do filme escrito e dirigido por Wayne Kramer.

Kurt Coubain – Retrato de uma Ausência


Um documentário sem entrevistas, reconstituições baratas ou material de arquivo. O que guia este filme é voz confessional de Kurt Coubain, vocalista do grupo Nirvana que se suicidou em 1994. Não se estruturando como a maioria dos documentários clássicos – narração em off, informativo e historicista – Kurt Coubain – Retrato de uma Ausência (Kurt Cobain: About a Son) leva o espectador a uma viagem mais lúdica do que a maioria dos filmes de não ficção. Baseado no livro “Come As You Are: The Story of Nirvana” do jornalista Michael Azerrad, o filme revela conversas gravadas em mais de 25 horas de fitas, nas quais Kurt Cobain relembra a infância, o divórcio dos pais e seus dilemas como celebridade.

O filme dirigido e montado por AJ Schnack é bem rigoroso, busca não reiterar som e imagem, não banalizar sua construção visual somente ilustrando o que é dito pelo cantor. Planos e travellings das cidades de Aberdeen, Olympia e Seattle passam na tela enquanto ouvimos a voz Coubain. Esse conceito de montagem dá margem à imaginação, gera cumplicidade com o espectador e com a história desse roqueiro angustiado, que sempre se viu como um alien nesse mundo tão opressor como o atual. “Já está tudo tão requintado, plagiado”, diz o cantor num momento. Nas falas de Coubain encontramos um homem muito crítico de si e a América onde cresceu. Uma América cheia de feridas e contradições, já criticada por tantos cineastas.

Lembrar da obra do norte-americano Gus Van Sant é bem oportuno para clarear os temas abordados no documentário que estréia nesta sexta. No intrigante Last Days (2005), o diretor já tinha buscado compreender a figura melancólica de Corbain. Em filmes como Elefante (2003) e Paranoid Park (2007), Van Sant investigou também essa angústia que ronda o espírito do adolescente nos Estados Unidos contemporâneo. Um mal estar agregado à pressão escolar, instabilidade na família e muita raiva para extravasar, seja num piano (Elefante), na pista de skate (Paranoid) ou na guitarra punk rock, como foi o caso do jovem Kurt...

Michael Jackson acaba de partir. Juliano Mion, editor aqui do Cine Players refletiu recentemente sobre seu testamento cinematográfico no genial Moonwalker (1988). Com sua morte, vale a pena parar para pensar sobre a obsessão com a beleza e jovialidade que guia nossos corações e mentes. Refletir sobre os dilemas que enfrenta o olimpo das celebridades onde Michael talvez reinasse, e onde outros também já estiveram, como a princesa Diana e John Lennon. Todos mortos precocemente. Todos com suas vidas privadas expostas sem pudor por uma mídia quase tão cruel como um dia foi o Coliseu romano. As palavras de Corbain sobre o assunto são sinceras e virulentas. Nas entrelinhas, Kurt nos diz o que disse Greta Garbo em Grande Hotel (1932), e que marcou para sempre sua vida e autoexílio: “I want to be alone”.

Ao som de David Bowie, R.E.M. e Queen, as influências do cantor, Kurt Coubain - Retrato de uma Ausência é um convite à emoção e a reflexão (com o perdão da rima fácil). O filme começa com um vôo rasante sobre o oceano. Das profundezas, esse homem cheio de dor e arte volta à Terra para deixar parte de suas sensações sobre nosso planeta, que para ele era alienígena. Algo além e complementar às suas canções. De como perdeu a inocência, como foi sua relação com as drogas. Um filme belo e criativo, para fãs e também reticentes ao Nirvana ou ao Rock´n Roll.

http://www.cineplayers.com/

24 de jul. de 2009

Austrália


Depois do esplendoroso “Moulin Rouge” (2001), o diretor australiano Baz Luhrmann erra feio com “Austrália”. Um épico meloso de quase três horas. Mesmo contando com os astros Nicole Kidman e Hugh Jackman, e com as paisagens monumentais da Austrália, o filme é um espetáculo de artifícios, bonito para os olhos, mas sem a punjância que marcou os filmes anteriores do cineasta.

Numa Austrália em tempos de pré-segunda guerra, a aristocrata inglesa Lady Ashley (Kidman) recebe a ajuda do rude Drover (Jackman) para não perder as terras que herdou no selvagem território australiano. A partir dessa premissa, o filme perde-se no excesso de temas a desenvolver, como o romance dos protagonistas e a complicada questão aborígine no país.

Luhrmann é um perfeccionista. Um esteta como foi Vincente Minnelli e seus musicais na época de ouro de Hollywood. O perigo de tanto cuidado é o drama dos personagens ficar soterrado por tanta maquiagem: uma fotografia estonteante, uma trilha orquestral onipresente. Grandiloquência sem calor humano. Kidman e Jackman ficam até bonitos na foto do pôster, mas em cena não possuem química. Recitam seus textos, milimetricamente ensaiados, e a espontaneidade das sequências que deveriam ser bem humoradas ficam quadradas e caretas.

O cinema do diretor de “Vem dançar comigo” (1992) e “Romeu e Julieta” (1996) busca misturar gêneros do cinema, citações de filmes e referências à cultura pop. No caso de “Austrália”, as inflências vão de “E o vento Levou...” (1939) até os westerns spaghetti do cineasta italiano Sergio Leone. Principalmente “Era uma vez no Oeste” (1967), que também tinha uma mulher como protagonista que lutava por suas terras ante o progresso, etc.

Cabe agora esperar pelo próximo projeto de Baz Luhrmann. O cineasta tem provado seu talento através de obras sólidas. “Austrália” parece um erro de percurso, um filme desnorteado em sua própria ambição.


6 de jul. de 2009

Apenas o fim


Matheus Souza, estudante de cinema da Puc Rio juntou os amigos, 8 mil reais no bolso e filmou seu primeiro longa metragem. Sucesso inesperado no Festival do Rio, Apenas o fim é exatamente isso: um filme universitário. Despretensioso no conteúdo, simples na forma. Recheado de referências aos diretores que Matheus conheceu na sala de aula.


Os cursos de cinema e audiovisual tem aumentado e filmes com esse perfil devem chegar com mais e mais frequencia, o que é bom para nosso cinema. Apenas o fim deve dar coragem a muitos jovens estudantes que sonham fazer um longa respeitável, que possa ir para festivais e até estrear nas salas. Talvez o alarido sobre o filme tenha sido excessivo, considerando suas fraquezas no roteiro e na direção de atores. Mas Matheus pelo menos matou no peito, foi corajoso e fez o filme que pôde fazer. Agora é esperar o que a maturidade futura do diretor pode oferecer...
O Trailer,

16 de jun. de 2009

NAZISMO EM NOVAS LENTES

DVD

Não precisa de muito esforço para lembrar de algum filme com nazistas na história. Filmes de guerra como “O Resgate do Soldado Ryan” ou histórias de amor como “Casablanca”. A lista de filmes é imensa. Quando o cinema ainda engatinhava, lá nos distantes anos 1930, os três patetas Moe, Larry e Curly adoravam azarar alguns “chucrutes”. Torcer seus narizes, dar ponta pés nos seus traseiros etc. Sacanear um alemão alto, loiro, e ainda por cima nazista (!) era sempre uma boa pedida para as platéias da época. E não só “daquela” época, não. Os alemães que seguiram a retórica de Adolf Hitler foram representados no cinema quase sempre como vilões sádicos, militares brutos e desumanos. O que está em nosso imaginário é algo como “nazista bom é nazista morto”.

Existem razões concretas para que o cinema, principalmente americano, batesse tanto nessa tecla na qual nazista é sinônimo de mal feitor. Afinal, a Alemanha de Hitler foi responsável pelo extermínio de mais de 12 milhões de minorias, entre ciganos, homossexuais e judeus. E a 2º. Guerra Mundial, ocasionada pelos delírios do Terceiro Reich (1933-1945), deixou um saldo total de mais de 50 milhões de mortos.

Mas os nazistas não eram todos iguais. Houve os descontentes com o regime, seres humanos com maior ou menor consciência de seus atos. Essa simplificação, e ás vezes preconceito, de achar que todo nazista era um psicopata em potencial tem mudado ao longo dos anos e dos muitos filmes feitos sobre o assunto.
Sai agora em DVD um conjunto de filmes que buscam melhor entender a os dilemas dos alemães no período hitlerista. Filmes como “Um Homem Bom” e “O Leitor” humanizam seus personagem nazistas, tentam entender suas motivações e angústias. “Operação Valquíria” e “A Espiã” são aventuras mais despretensiosas, mas que bem ilustram aqueles alemães que tiveram uma postura de resistência ao regime. O último dessa leva de lançamentos é “O Menino de pijama listrado”, que revê o tema pelo ponto de vista de uma criança.

Em “Um Homem Bom” temos John Halder (Viggo Mortensen), um professor de literatura que escreve um livro que defende a eutanásia. E assim que o romance é usado pela máquina de propaganda do governo a vida de Halder se transforma imensamente, como também a importância de suas escolhas. Um filme sensível, que comprova o talento do diretor brasileiro Vicente Amorim, em seu primeiro projeto internacional.

“O Leitor” já explora a história de Hanna Schmitz, carcereira de um campo de extermínio interpretada por Kate Winslet (ganhadora do Oscar), para falar sobre justiça e responsabilidade do povo alemão. O filme não justifica a colaboração no Holocausto da personagem de Kate, mas dá ao espectador possibilidades de pensar sobre a culpa da Alemanha como um todo pela “solução final” dada aos judeus.

O foco de “Operação Valquíria” e “A Espiã” é a resistência direta ao regime nazista. No primeiro, temos uma espécie de... “Missão Impossível 4”. Só que com sotaque germânico. Dirigido por Bryan Singer (X-Men 1 e 2), o filme conta a verídica história do coronel Claus von Stauffenberg, interpretado pelo astro Tom Cruise (quem mais?). Indignado com os rumos de seu país sob a ditadura de Hitler, Ethan Hunt, ou melhor, Stauffenberg monta um plano para assassinar o Führer.

Mas como sabemos que Hitler não morreu num atentado, mas suicidou-se ao lado de sua companheira Eva Braun, o filme fica todo meio sem graça. Previsível demais. O que não acontece com as imensas reviravoltas do aventuroso “A Espiã”, ótima diversão orquestrada pelo holandês Paul Verhoeven. Após a morte de sua família, a judia holandesa Rachel (Carice van Houten) pinta seus cabelos de loiro e se infiltra nos ninhos do Reich. Um Indiana Jones de saias e meia calça...

Mas o melhor filme dentre todos esses lançamentos é mesmo “O menino de pijamas listrado”. Bruno, 8 anos, de família aristocrata e pai oficial do exercito, muda-se de Berlin para Auschwitz, um dos maior campos de extermínio construído na Polônia. Lá, Bruno (o sensível Asa Butterfield) inicia por acaso uma bela amizade com um garoto judeu prisioneiro. Com uma bonita fotografia e uma direção competente, o filme emociona. Baseado num best-seller mundial assim como “O caçador de pipas”, “O menino...” procura falar do nazismo através do olhar diferenciado e mais inocente da infância. Bruno vive um inusitado relacionamento num cenário de morte e violência. Bem bonito.

Todos esses filmes ajudam a ver que o ser humano é mais complexo que qualquer definição apressada. Ele é ambíguo, contraditório. O Cinema e o Nazismo com certeza não esgotaram seu relacionamento. Infinitas tramas ainda serão elaboradas, e se elas tentarem compreender com maturidade algo tão insano como o nazismo, todos saem ganhando. O Cinema, o público e a história.

7 de jun. de 2009

A mulher invisível

É. Passatempo ligeiro. Comédia com boas tiradas. E A mulher invisível também não tem pretensão de ser muito mais do que isso, uma leve comédia para sexta à noite. Um filme com tudo que já se espera quando vemos o cartaz do filme. Selton Mello tem o carisma que todo mundo conhece. Luana Piovani é... Bem, digamos que vale a pena vê-la na tela grande. Luis Fernando Veríssimo não é bobo e escolheu uma musa de primeira.

Bom para o cinema nacional que filmes como esse sejam produzidos. Filmes baratos, “artisticamente” despretensiosos. No quesito técnico, o país já possui um grande número de profissionais competentes. Cinegrafistas, editores, técnicos das mais variadas funções necessárias para a feitura de um filme, e é imprescindível a prática constante dessa, digamos, mão de obra especializada. E filmes como o do diretor Cláudio Torres preenche essa função econômica que o cinema deve também ter. Torres vem da publicidade. É um dos sócios da Conspiração. Depois de fazer uma estréia no cinema muito autoral e corajosa (O Redentor, que merece ser visto), o diretor parece agora buscar manter-se ativo com filmes como A mulher invisível, e seu último filme, também uma comédia, A mulher do meu amigo.

A mulher invisível – O “Trailer Final”:

5 de jun. de 2009

FILME PARA HORÁRIO NOBRE

Em tempos de Crise, Hollywood flerta com o Oriente

Quem quer ser milionário?

Às vezes esquecemos que Hollywood não é a maior indústria de cinema do planeta. Os norte-americanos estão em segundo lugar neste rali cinematográfico. A Índia e sua fábrica de musicais carnavalescos está na dianteira já há algum tempo. Bollywood, como é chamada, possui mais espectadores e lucra como nenhuma outra. Mas Hollywood não se deixa vencer e prepara um contra ataque. Sai em busca de novos mercados e parcerias. Daí o grande esforço para transformar “Quem quer ser milionário?” num evento planetário. Mesmo sendo um filme que deixe tanto a desejar.

“Quem quer ser...” é a história de Jamal Malik (Dev Patel), um adolescente que vive numa favela de Mumbai (Índia) e vira celebridade instantânea ao participar de um programa de perguntas na televisão, à moda de Silvio Santos e seu falecido Show do Milhão. A participação de Jamal no game é o eixo da trama, que vai e volta no tempo com certa criatividade. Mas para contar sua história o diretor britânico Danny Boyle escolheu uma linguagem cheia de modismos: câmera na mão, montagem frenética, uma fotografia de alta exposição. Com este filme Boyle só comprova ser um aluno obediente de Fernando Meirelles e seu “Cidade de Deus”.



O filme é uma produção do Reino Unido com um elenco e equipe formada grande parte por indianos, mas com financiamento e distribuição da Fox Searchlight Pictures. O resultado é um filme fraco, no máximo mediano. Mas então como entender sua consagração no Oscar deste ano, tantos prêmios? Difícil explicar se não levarmos em conta o peso mercadológico da coisa toda. Sem um filme mais oportuno para premiar, a Academia celebrou o que mais parece uma boa e velha novela das oito.

Assim como a Glória Perez abusa de fórmulas de teledramaturgia, Boyle fez do seu filme uma insossa coleção de clichês. Vai longe a descarada receita novelesca: um cenário exótico como pano de fundo; mais casal que luta por seu amor impossível; mais uma pitada de crítica social para levantar o “debate” na mídia. Um roteiro que tudo explica e conserta, punindo vilões e consagrando nossos heróis. Sem surpresas ou mal entendidos. Que lindo! Um novo “Romeu & Julieta”, um novo “Titanic”. Mas sem a tragédia no final, claro, ninguém é de ferro. Dá para sair da sala de cinema saltitando alegremente.

Todo esse bêabá melodramático acabou dando seus frutos: Custando somente $15 milhões, o filme arrecadou dez vezes mais com imensa rapidez. Enfileirou na estante oito Oscars, incluindo o de melhor filme e diretor. Acumulou Globos de Ouro, Baftas (o Oscar britânico) e prêmios de sindicatos. Um fenômeno realmente, mas não deixa de ser mais do mesmo. Ultimamente Hollywood carece de novas idéias.

O filme sai agora em DVD, e pode funcionar como passatempo para sábado à noite. Mas uma melhor pedida é optar por filmes mais do início da carreira de Danny Boyle, como “Cova Rasa” e “A Praia”. Filmes mais interessantes. De uma época em que o diretor fazia menos concessões para aos interesses corporativos de Hollywood.

4 de jun. de 2009

Feliz Natal


Tem futuro o agora diretor Selton Mello. Mesmo que seu filme de estréia não seja tão bom. É que em Feliz Natal já se percebe um olhar inquieto, jovem. Vê-se uma sensibilidade diferenciada. Seu filme tem textura, cheiro. Selton se arrisca num trabalho autoral, corajoso. Ainda que cheio de imperfeições.

Lernardo Medeiros (Não por acaso) é o melancólico Caio, funcionário de um ferro velho que volta ao lar depois de um longo tempo distante da casa em que cresceu. Um filho pródigo que remete de alguma forma a André, o garoto transtornado de Lavoura Arcaica, feito por Selton em 2001.

Em Feliz Natal, o ator/diretor procura a si mesmo. “Estamos sempre voltando pra casa”, disse Selton numa entrevista recente. Creio que o jovem ator dá lugar a um homem mais amadurecido, consciente que o cinema serve para jornadas em busca do tempo perdido de nossa infância. A base de tudo. “O menino é pai do homem”, lembrava Machado.

O cinema brasileiro necessita urgentemente de renovação, sangue novo. Novos diretores, por favor. Selton é uma daquelas mentes carismáticas que podem trazer ar fresco a um cinema inconstante e frágil como o nosso.

3 de jun. de 2009

Os falsários


O judeu Salomon Sorowitsch é o mais procurado e exímio falsificador de dinheiro da Alemanha dos anos 1930. Malandro e egoísta, não tem nenhum apego às tradições do povo hebreu. Quando estoura a II Guerra e é cooptado pelos nazistas para produzir libras e dólares falsos em prol do Terceiro Reich, muitos dilemas passam por sua consciência. É esse o eixo central desta produção austro alemã ganhadora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.

A maior preocupação do diretor Stefan Ruzowitzky é contar bem sua história. Fica em segundo plano uma construção mais elaborada da trama e dos personagens. Em Os falsários tudo é muito bem explicado, bem até demais. Sobram simplificações e fica faltando criatividade cinematográfica. No final fica valendo mesmo a aula de história, Salomon Sorowitsch e sua habilidade em forjar moedas. O maior caso de falsificação que se tem notícia...

O Holocausto é tema onipresente no cinema. Desde o clássico Noite e Neblina de Alain Resnais, documentário feito logo após a guerra. Os falsários não deve ficar na lista das obras mais memoráveis sobre o tema, não. Mesmo ilustrando um episódio da história visto na tela pela primeria vez.

2 de jun. de 2009

Star Trek

J.J Abrams, a mente por trás de Lost, é o responsável pela reinvenção da franquia criada por Gene Roddenberry no final dos anos 60. E como acontece no seriado que virou fenômeno mundial, e também acontecia no star trek clássico, o novo filme usa com habilidade a viagem no tempo para contar a história dos agora jovenzinhos Kirk, Spock e McCoy.

O filme funciona. Não precisa ser trekkie (nerd que se fantasia para ver o filme) para embarcar na utopia sonhada por Roddenberry: um futuro em que a humanidade alcança a paz na Terra e usa o avanço tecnológico para o bem universal. O novo filme acertou também na escolha do elenco, com menção honrosa para Zachary Quinto no papel de Spock. Ele não possui a densidade que tinha a performance de Leonard Nimoy, claro, mas o garoto segura as pontas muito bem.

1 de jun. de 2009

O curioso caso de Benjamim Button


13 indicações ao Oscar e vencedor em 3 categorias, Benjamin Button conta história de um homem que nasce velho e, misteriosamente, começa a rejuvenescer. Adaptado de um conto de Scott Fitzgerald, o filme erra ao esticar demais uma premissa brilhante. Falta foco ao filme de David Fincher (Zodíaco). Muitos personagens e o abuso de clichês travam o desenvolvimento do enredo.

Não parece o tipo de filme que Fincher dirigiria. Acompanhando uma carreira que inclui os poderosos Seven e Clube da Luta, estranha a falta de personalidade do filme estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchet.
O filme tem a “cara de Oscar” (grande produção, astros em papéis dramáticos, um piano tocando na trilha). Desconfio que o filme foi só uma encomenda ao talentoso diretor. Fincher pode muito mais.

29 de mai. de 2009

Budapeste


Preciso ver de novo para consolidar as impressões que tive, mas à primeira vista achei brilhante o filme dirigido por Walter Carvalho, baseado no livro de Chico Buarque. Não é fácil filmar um romance do compositor. Ruy Guerra (Estorvo) e Monique Goldenberg (Benjamim) já se aventuraram na tarefa, mas Budapeste me parece a melhor reinvenção (“adaptação” não é um bom termo) para cinema de um romance do Chico.

Cinema e Literatura estão sempre em confluência. Duas linguagens distintas, com suas especificidades. E Walter Carvalho domina tão bem seu ofício cinematográfico que traz para a tela o espírito do livro com imenso talento. Filme e livro se complementam. Experiências diferentes e ambas muito prazerosas. Budapeste, filme e livro, expressa dilemas e sensações muito atuais, reflete um pouco como é ser e estar nesse mundo globalizado.

23 de mai. de 2009

CHE - O Argentino

Não me convence o filme de Steven Soderbergh sobre Guevara. Para ser bem sincero, acho Che - O Argentino uma verdadeira canastrice. O já ganhador da Palma de Ouro em Cannes (por Sexo, Mentiras & Videotape) buscou um relato “imparcial” do guerrilheiro, um olhar distanciado sobre a Revolução Cubana. O resultado é um filme frouxo, medíocre. A montagem é uma concha de retalhos, o roteiro uma porção de frases de efeito. A câmera de Soderbergh não tem cumplicidade com seu protagonista, e nem quer ter. Cada plano, cada fala que Benicio Del Toro pronuncia serve para explicitar só uma verdade: “Calma, não estamos tomando partido. Che foi um cara fascinante e tal, mas não somos simpatizantes do cara, não. Este filme é um filme que tenta ser neutro”.

Suspeito que a realização de um filme como este serve apenas como produto para o espectador dito “cult”. Aquele que usa óculos com armação de plástico (preto, de preferência) e paga de intelectual na fila do Espaço Unibanco. Hollywood querendo fazer "filme de arte". Prefiro Walter Salles e seu Diários de Motocicleta. Muito mais cinema, com coragem de assumir para quê veio. Não que Salles tenha feito um filme de esquerda ou algo do tipo. Mas o diretor brasileiro teve peito e assumiu na tela certa solidariedade com o jovem Ernesto Guevara. O Che do Soderbergh não possui coração, nem alma, nem coisa nenhuma.

22 de mai. de 2009

Garota Ideal


Lars (Ryan Goslin) é um jovem pacato e humilde. Cristão tão fervoroso que não perde a primeira missa de domingo. Até aí tudo bem. O problema é que se Lars não possui nenhum desafeto, muito menos possui um colega mais chegado que possa convidar para uma cerveja sexta à noite... Lars é mesmo um solitário total. Tão leigo na arte de se relacionar que rejeita o toque de outro ser humano. São essas as linhas gerais do personagem central de Garota Ideal. Um drama de imensa sensibilidade e com inesperados toques de humor.

Um pouco de compaixão já basta para se deixar envolver pelo longa de estréia do diretor de publicidade Craig Gillespie. A melancolia do personagem principal é tanta que ele decide comprar uma “namorada” pela Internet. Isso mesmo. Por um bom preço e alguns cliques pede pela rede uma rosada boneca plástica. A tal garota ideal. Toda ela seguindo as especificações de Lars: boa largura dos quadris, o perfeito tamanho de busto. Quando sua “companheira” chega pelo correio, se inicia uma curiosa história sobre a solidão e suas tristes consequências.

Um filme bem acabado, competente na escolha dos enquadramentos, econômico na trilha musical. Mas o talento de Ryan Goslin (Lars) se destaca. Um grande ator. E não uso o adjetivo de maneira leviana, não. Desde o pungente Tolerância Zero (The Believer) já dava para notar sua força. O rapaz tem no currículo também uma indicação ao Oscar por Half Nelson (2007), que não chegou a estrear no Brasil. Seu carisma é o “algo a mais” de Garota Ideal.

20 de mai. de 2009

Wilson Simonal - Ninguém sabe o duro que dei


Muitas são as qualidades do documentário sobre o cantor cheio de swing Wilson Simonal. Grande sucesso nos anos 60 e início dos 70, Simonal teve sua carreira manchada por episódios mal explicados na época, que o envolviam em um caso de espancamento e um relacionamento ambíguo com o governo militar. Em pouco menos de 90 minutos o filme consegue dar conta do talento, do carisma e das contradições de Simonal.

Um documentário jovem, dinâmico. Montagem de primeiríssima, exemplar trabalho de pesquisa. Os jovens diretores Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal revisitam com equilíbrio um personagem que viveu tanto o sucesso inebriante como o amargo ostracismo. Um filme que só comprova a força brasileira para a realização de documentários. Wilson Simonal – Ninguém... transpira energia e rebolado, como seu protagonista.