analy

29 de out. de 2009

Mostra SP: "Nova York, Eu te amo"


Já está virando tradição. Depois de “Paris, Eu Te Amo”, Nova York é o novo ponto de encontro para que diretores de todo o mundo contem suas histórias de no máximo 10 minutos de duração. Brett Ratner, Yvan Attal e Shunji Iwai são alguns dos cineastas agrupados pela produtora Emmanuel Benbihy para discorrerem livremente temas como o amor, diversidade e velhice. “Nova York, Eu Te Amo” encanta pelo frescor, bom humor e coesão entre as histórias.

Projetos similares como o citado “Paris, Eu Te Amo”, “11 de Setembro” e “Bem - vindo a São Paulo” tinham um problema: As passagens de uma história para outra era muita vezes abrupta, gerando certo desconforto no espectador. Os produtores de “Nova York, Eu Te Amo”, porém, tiveram uma ótima idéia para evitar essa irregularidade. Contrataram um diretor especialmente para guiar as transições entre os episódios de cada diretor. O nome dele é Randell Balsmeyer, e seu trabalho unindo as histórias é um dos triunfos do filme.

Além dessa leveza nas transições de um fragmento a outro, “Nova York, Eu te amo” cria encontros inusitados entre personagens de diferentes tramas. Evitando mais uma vez o excesso de fragmentação, e dando ao espectador a sensação de que está vendo um filme coral, com certa unidade, e não apenas uma série de capítulos em série. A possibilidade de rever personagens que já tiveram suas histórias contadas dá chance também para a criação de um vínculo mais duradouro e afetivo com todo filme.

Mesmo com os cuidados dos produtores com a unidade do projeto, algo era realmente inevitável: Algumas histórias são melhores que outras. Os episódios de Fathi Akin (“Contra a Parede”) e Mira Nair merecem destaque. O diretor turco-alemão fez um belo trabalho com sua história sobre um pintor em crise criativa que fica fascinado por uma atendente chinesa, e decide retratá-la num quadro. Em poucos minutos, tem-se uma reflexão sobre arte, vida e inspiração.

A cineasta indiana Mira Nair (“Nome de Família”) alcança a mesma excelência num diálogo entre o dono de uma joalheria indiano (Irrfan Khan) e Natalie Portman (também diretora de um dos episódios). Esse encontro, que deveria ser meramente comercial, toma rumos inusitados e o não-dito torna-se mais esclarecedor do que o explicitado.

“Nova York, Eu Te Amo” conquista pela diversidade, romantismo e ainda brinda o público com um elenco de mitos do cinema, que inclui Julie Christie e Eli Wallach. Coadjuvantes sempre competentes como James Caan e John Hurt, e os astros Orlando Bloom e Shia LaBeouf dão também o ar da graça. Um belo filme.

26 de out. de 2009

Mostra SP: Bloco dos Desesperados


Imagine se o documentário brasileiro “Edifício Master” fosse transformado em ficção. Personagens anônimos, solitários, dentro de um conjugado de apartamentos minúsculos, onde a diversidade humana é assombrosa. “Bloco dos Desesperados”, do diretor Tomasz Rudzik, pode ser resumido nessa comparação. Só que ao invés de um edifício em Copacabana a dois quarteirões da praia, como era o caso no filme de Eduardo Coutinho, o prédio em questão neste singelo filme alemão localiza-se em Munique.


O espectador acompanha a vida de três moradores. Um desses moradores é Montek (Andreas Heindel), um jovem surdo e mudo apaixonado pela “garota da biblioteca”. Você já deve ter visto história parecida em alguma sessão da tarde, mas não com a peculiaridade de o protagonista do romance ser um deficiente auditivo. E é realmente inusitado e encantador os passos que esse jovem empreenderá para conquistar sua paixão.


Talvez por medo de comunicar sua condição especial logo de cara, o rapaz entrega um bilhete à moça convidando-a para passar um dia inteiro com ele, só que com uma condição: a de não pronunciar uma só palavra durante todo o dia (!). Ela topa. E depois disso vale a pena nem contar mais para não tirar a surpresa dessa história de amor.


Outro morador desse condomínio é Clara (Patricia Moga), uma católica fervorosa. Fervorosa até demais, que está numa fase de imensa angústia diante do silêncio de Deus. Como que saída de um filme do diretor sueco Ingmar Bergman, Clara decide corromper os mandamentos bíblicos só para ver se Deus continuará em seu anonimato costumeiro. A cada novo mandamento quebrado, um diferente morador do prédio é escolhido para auxiliá-la em sua via-crúcis. Mas isso sem o consentimento de ninguém. O que implica, lá pelas tantas, no quase rompimento traumático de um casal vizinho, já que Clara “precisava” de um homem que a ajudasse a contradizer o mandamento de “não adulterarás”...


O terceiro e último personagem dessas histórias que vão se entrelaçando, num bom ritmo de montagem, é Sin (Qi-Min Fei), um adolescente chinês que acaba de chegar a Berlim. Sem dinheiro, precisa dar aulas de matemática para ajudar no orçamento do mês. Uma adolescente com os hormônios à flor da pele é sua primeira aluna. Esperta e provocante, a repetente em exatas acaba brincando com os sentimentos do seu sincero, mas ingênuo, professor de matemática chinês.


Como é comum nos filmes que se estruturam com várias histórias paralelas, alguns núcleos são melhores que outros. O que provoca certa irregularidade e às vezes um excesso de simplificação na resolução das tramas. No caso de “Bloco dos Desesperados”, a história do estudante surdo e mudo é a melhor, aquela em que o público mais se identifica e torce pelo sucesso do casal. Mas o que não significa que as outras duas tramas sejam dignas de desprezo. Longe disso. Mesmo que menos envolventes, são também interessantes, com boas sacadas e ironias.


O clima leve e o tom suave predominam neste que é o quarto longa metragem de Tomasz Rudzik, mesmo quando o filme toca em assuntos mais densos como a crise de fé, a solidão e a frieza que esse tipo de condomínio costuma afligir em seus moradores. “Bloco dos Desesperados” é um filme cheio de qualidades.

Mostra SP: Ibrahim Labayad


Ibrahim Labayad convive com a violência desde criança. Logo na primeira cena, o espectador se depara com a morte brutal de seu pai pelo “chefe” do bairro onde mora. De sua infância, tem-se um corte rápido para Ibrahim já adulto fugindo e defendendo sua vida com estiletes e facões contra seus inimigos: membros de gangues rivais constantemente em guerra.

Os primeiros quinze minutos de filme do egípcio Marwan Hamed realmente impressionam. Uma câmera frenética à moda de “Cidade de Deus” situa o microcosmo de ruas estreitas e casebres onde reinam leis próprias, assim como no complexo de favelas do filme de Fernando Meirelles. Ibrahim (Ahmed El-Sakka) é fruto e personagem ativo desse universo. Um anti-herói tão perigoso como Zé Pequeno. Até aí tudo bem, espera-se um filme poderoso. Mas o diretor Hamed não tem pudor em usar e abusar de clichês folhetinescos para contar sua história.

O trauma infantil é só o primeiro deles. Depois que o cinema incorporou as teorias de Sigmund Freud, disseminadas em filmes de Hitchcock, personagens que sofreram alguma perda na infância tornou-se um artifício recorrente. Aqui, o artifício é usado mais de uma vez num simplismo desconcertante. Além dele, “Ibrahim Labayad” investe na receita do amor impossível, já que a musa do protagonista (Hend Sabri) é disputada tanto pelo líder do crime como por seu melhor amigo (!).

O roteiro cheio de reviravoltas nunca chega a surpreender o espectador. Diálogos chulos gritados pelos atores e uma trilha sonora irritantemente onipresente completam o presente de grego. “Ibrahim Labayad” é tão ruim que funciona como uma ótima comédia involuntária. O ator que faz o “chefão”, Bassem Samra, é candidato supremo ao prêmio Framboesa de Ouro, destinado às piores interpretações do ano.

25 de out. de 2009

Mostra de SP: À Procura de Eric

Depois de conquistar a Palma de Ouro com o denso “Ventos da Liberdade”, o diretor inglês Ken Louch conta agora uma leve história de amizade e superação em “À Procura de Eric”.

Eric (Steve Evets) é um carteiro de meia idade triste e melancólico, que deixou para traz sua vitalidade e auto-estima. Seus fiéis e divertidos amigos de trabalho tentam reanimá-lo de toda forma, mas sabem que um coração dilacerado por um amor não correspondido custa a se recompor. Eric sofre ainda por sua primeira paixão, Lily (Stephanie Bishop), mãe de sua filha que se afastou dele por causa de uma separação traumática há mais de trinta anos.

Sozinho em seu quarto, fumando maconha e buscando forças para renascer, a imaginação de Eric dá vida a outro Eric: Eric Cantona (leia-se Cantoná), craque de futebol do Manchester United nos anos 1990 e ídolo absoluto do carteiro atrás de auxílio existencial. Assim como Humprey Bogart ajudava Woody Allen a conquistar Diane Keaton em “Sonhos de um Sedutor”, Cantona será o novo conselheiro de Eric, dando-lhe aforismos de incentivo e apoio moral para reconquistar a mulher amada.

“À Procura de Eric” nasceu de um desejo do jogador aposentado trabalhar com o diretor Ken Louch (ele é um dos produtores do filme). E o que poderia virar uma história convencional e piegas ganha certa espontaneidade graças ao carisma de Cantona que, claro, não é um ator profissional, mas se vira bem interpretando a si mesmo. Quando está em cena, fumando um baseado (!) junto com Eric, acontecem os melhores momentos do filme. “Eu não sou um homem, eu sou Cantona!”, diz o ídolo ironicamente.
Frases e conversas de incentivo auxiliam Eric a enfrentar seus fantasmas, perder o medo, e acreditar em si mesmo. “Sempre há novas possibilidades”, ou “A melhor maneira de surpreender os outros é surpreendendo a si mesmo”, fazem parte do repertório do divertido Cantona.
O diretor Ken Louch realiza um cinema social e ideologicamente “de esquerda”. E no meio do enredo acha espaço para suas digressões sobre a força do coletivo e para criticar problemas sociais que vê na Inglaterra atual. Esses momentos não combinam muito com o tom do filme, mas também não chegam a comprometer o resultado final.

Apoiado por um elenco competente, “À Procura de Eric” é diversão certa. Uma fábula despretensiosa e bem humorada, mesmo que algumas vezes ameaçada pela visão de mundo de Louch, que é válida, mas que encontra melhor espaço em seus outros filmes.

Mostra SP: Oye Lucky, Lucky Oye!

“Quem quer ser milionário” era uma versão pasteurizada de Hollywood para os filmes originais da indústria de cinema indianoLista com marcadores. “Oye Lucky, Lucky Oye!”, pelo contrário, vem direto da fonte: Bollywood.
Escrito e dirigido Dibakar Banerjee, “Oye Lucky...” conta história real de Lovinder Singh, ladrão carismático e amoral que fez fama na Índia roubando ricos e pobres. De acordo com um apresentador de televisão que abre e fecha o filme, fazem parte do currículo de Lucky 140 televisões, 212 vídeos cassetes, 475 camisetas e 2 cachorros...

“Oye Lucky, Lucky Oye” possui as características que predominam no cinema de Bollywood: Estrelas no elenco, um visual colorido que beira o kitsch e um ritmo de montagem quase alucinante. É um filme feito para ser popular, que beira o popularesco. Assim como as chanchadas brasileiras dos anos 40 e 50, que lançavam as marchinhas musicais para o próximo carnaval, “Oye Lucky...”, logo nos créditos, mostra uma lista imensa de compositores e letristas das músicas que devem estourar no mercado fonográfico indiano. Os atores não chegam a cantar, mas na trilha sonora há canções o tempo todo. Ouvidos podem sair danificados da sala escura.

Abhay Deol interpreta o malandro, mas charmoso, Lucky Singh. Logo de cara, dá para perceber que Abhay conuistou com o papel de protagonista nem tanto por seus dotes na arte da interpretação, mas provavelmente por ser dotado de inegáveis qualidades estéticas. É magro, elegante, e possui sorriso de astro. A câmera do diretor Banerjee não lhe nega a cumplicidade. No plano de apresentação de seu personagem, têm-se um enquadramento bem próximo de seu rosto e uma iluminação de primeira que diz ao espectador: “Sim. Este é o astro que você esperava quando comprou o ingresso para o filme.”

Estruturado em duas partes, com um intermission no meio, “Oye Lucky...” começa num tom de farsa e termina num registro mais sóbrio e realista. Deixando o resultado final um tanto irregular e cansativo. O fato de ser “baseado em fatos reais” mais atrapalha do que ajuda. Lucky é uma espécie de Macunaíma sem caráter que rouba muito mais pelo prazer do que por uma necessidade material, que também existe, claro, mas que ao longo do filme comprova-se secundária. Esse anti-herói diverte bastante na primeira parte, na segunda, porém, o filme leva-se mais a sério e torna-se um tanto moralista e sem fôlego para reflexões mais densas sobre as contradições do personagem. Para quem quer conhecer outra cultura cinematográfica, que ao ano produz mais filmes que Hollywood, “Oye Lucky, Lucky Oye” é um prato cheio.

16 de out. de 2009

Vigaristas


Como definir “Vigaristas”? Comédia com toques de drama? Filme de ação com piadas pastelão, ou um drama existencial bem humorado? O filme do diretor Rian Johnson talvez não possa receber nenhuma dessas classificações, mas pode também ganhar todas elas (!). Um paradoxo, claro, mas talvez ajude a esclarecer certa estranheza que o filme de Johnson causa no espectador. Contando com atores talentosos como os ganhadores do Oscar Rachel Weisz (“O Jardineiro Fiel”) e Adrien Brody (“O Pianista”), “Vigaristas” tem qualidades, se esforça, mas não encontra bem seu caminho.

Os irmãos Bloom do título original são golpistas desde crianças. Stephen (Mark Ruffalo de “Ensaio sobre a Cegueira”) é o cabeça da dupla. Aquele que bola os planos mais mirabolantes para sustentar a ganância brincalhona da família. Bloom (Brody), seu irmão mais novo, é um ator de primeira. Interpreta desde o galanteador que ludibria ricaças até um atrapalhado e ingênuo ciclista. Mas Bloom está cansado desta carreira, quer largar a “profissão”. Está enfastiado de representar outras vidas, esquecendo de viver a sua própria. Bloom ainda não encontrou seu lugar no mundo. Mas Stephen propõe um acordo: Um último golpe de mestre antes da aposentadoria.

A milionária Penélope (Weisz) é a cobaia escolhida para a nova empreitada. Versátil, bonita e inteligente, Penélope possui um só problema: É uma mulher solitária. Ao longo do teatro representado por Bloom, apaixona-se não só por ele, mas por uma nova possibilidade de vida, regada a aventuras e perseguições, já que no plano derradeiro dos irmãos Bloom a milionária entra para a trupe de salafrários, que inclui a divertida Rinki Kikuchi (“Babel”).

“Vigaristas” diverte em muitos momentos, principalmente em razão do carisma de seu elenco estrelar. Rachel Weisz surpreende numa atuação cheia de graça e humor. Mark Ruffalo, a cada novo filme, prova que é um astro talentoso. Adrien Brody não deixa para trás seu semblante melancólico característico. Seu personagem é o eixo dramático do filme, aquele que passa por uma forte jornada existencial, lembrando seu personagem de “Viagem a Darjeeling”, filme de Wes Anderson.


Falando em Wes Anderson, “Vigaristas” lembra a proposta do diretor de filmes como “Três é Demais” e “Os Excêntricos Tenembauns”. O jovem diretor busca um registro que flerta com variados gêneros¸ da comédia ao drama. Seus filmes são dotados de vigor e personalidade. O que falta ao filme que estréia agora nos cinemas é um pouco mais de habilidade e equilíbrio nesse jogo delicado de fazer rir e emocionar com sequencias mais densas.

2 de out. de 2009

Quanto dura o Amor?


Três histórias. Três núcleos de personagens atrás de amor e companhia na capital paulistana. Uma atriz de teatro tenta a sorte na cidade grande, um escritor solitário busca achego nos colos de uma prostituta e amigos de trabalho iniciam um relacionamento além da hora do expediente. Dirigido pelo cineasta Roberto Moreira – “Contra Todos” -, “Quanto dura o Amor?” tem um problema sério: Há três filmes diferentes dentro dele. Uma trama luta com a outra sem piedade, deixando o resultado final raso e desequilibrado.

Desenvolver diferentes histórias em paralelo tem se tornado moda no cinema contemporâneo. “Crash” e “Babel” são os exemplos imediatos que usam esse artifício. “Quanto dura o Amor?” entra na moda, mas ganha interesse quando usa como pano de fundo a realidade da classe média de São Paulo, com seu frenesi e vida noturna característicos. Marina (Silvia Lourenço), por indicação de um amigo, vai morar junto de Suzana (Maria Clara Spinelli), num condomínio no coração da Avenida Paulista. Lá também mora Jay (Fábio Herford), escritor solitário que tenta consolidar um relacionamento com uma garota de programa da Rua Augusta, Michelle (Leilah Morena, da série “Antônia”).

Marina apaixona-se por Justine (Danni Carlos), cantora noturna também cobiçada por Nuno (Paulo Vilhena), dono da boate onde Justine se apresenta. A advogada Suzana começa a sair com Gil (Gustavo Machado), colega de trabalho. Só que como ela esconde um segredo inusitado, teme o fim do relacionamento.

Deu para ver a complexidade das histórias, enredos delicados e complexos que exigiriam mais tempo para desenvolvimento. Há coragem do diretor Moreira quanto à escolha dos temas, mas percebe-se que o filme sofreu muito no processo de montagem. Um filme cheio de altos e baixos, numa maré que pode levar o espectador ao enjôo. Mesmo com um elenco empenhado (destaque para a cantora Danni Carlos), suas intenções se perdem sem conseguir um real contato com o público.
entrevista com Roberto Moreira:



O Desinformante!


Telefones grampeados, agentes do FBI, crimes corporativos. À primeira vista, dá para imaginar que essa combinação diz respeito a mais um filme à moda de “A Firma” ou “Conduta de Risco”. Mas calma, o título do filme já sugere uma ligeira ironia com “O Informante”, filme de Michael Mann sobre a indústria de cigarros norte-americana, com Russel Crowe e Al Pacino. E a ironia faz sentido, porque ao invés de um filme sério, adulto e com tons de denúncia, “O Desinformante” é uma despretensiosa comédia que tira sarro de vários clichês desse tipo de filme, mesmo sendo baseado em fatos reais.

Matt Damon é Mark Whitacre, executivo de sucesso que toma uma decisão inusitada: Denunciar os patrões. A empresa onde trabalha, a Archer Daniels Midland (ADM), realiza um cartel com empresas de várias partes do globo, nivelando os preços de seus produtos derivados do milho. Por uma crise de consciência, ou talvez para deixar sua vida burocrática um pouco mais aventuresca, Mark entra em contato com o FBI. Diz para os engravatados do governo tudo sobre as irregularidades corporativas que conhece. Mas um simples depoimento não basta para incriminar seus chefes, Whitacre terá que encarnar o agente secreto, usando os mais modernos equipamentos para isso: Microfones, câmeras escondidas, etc. Lá pelas tantas, ele passa a se intitular o “agente 0014”, porque é “duas vezes mais esperto que 007”...

Whitacre ingenuamente se vê como um paladino empresarial que vai levar os vilões da história para a cadeia. E em contrapartida, se tornará o herói da trama e talvez até o novo presidente da empresa que está denunciando (!). Afinal, quem melhor do que ele mesmo, que fez uma faxina moral nas ilegalidades de sua firma, para transforma-se no novo CEO da Archer Daniels Midland? “Quando acabar, os diretores da ADM vão entender. Vão ver em que posição eu estava e que agi no melhor interesse de todos”, pensa o imaginativo Mark.

Num outro momento hilário do filme, o personagem de Damon está dentro do cinema vendo justamente “A Firma”. Sua projeção com a história que envolve lavagem de dinheiro e um advogado inconformado (Tom Cruise) é inevitável. Vendo o filme, Whitacre pensa consigo: “Essas pessoas não viram o filme “A Firma”, nem leram o livro? Está tudo lá.” Nada como um bom filme para alimentar a cabeça fantasiosa de Mark, que a cada nova cena diz algo diferente para os agentes do FBI, desencadeando quase uma comédia de erros como “Queime depois de ler”, dos irmãos Coen.

O episódio envolvendo a ADM foi um dos maiores escândalos corporativos na história recente dos Estados Unidos. O roteiro escrito por Scott Z. Burns é baseado no livro “The Informant: A True Story” de Kurt Eichenwald, também produtor do filme. Só que nas mãos do diretor Steven Soderbergh (da trilogia “Onze Homens e um Segredo”) o caso ganha na tela retoques de humor e ironia, guiado por um Matt Damon 15 quilos mais gordo. Lembrando o pesado e careca Jeffery Wigand, personagem de Crowe em “O Informante”.

Contando com um elenco talentoso e uma trilha sonora de primeira, “O Desinformante” diverte bastante e, com um pouco de boa vontade, faz pensar sobre particularidades da cultura norte-americana. Desde o gênero dos filmes de espionagem até a ética de suas corporações, que fazem de tudo para alcançar lucros astronômicos. “Todos neste país são vítimas de crimes corporativos, desde a hora em que terminam de tomar o café da manhã.”, lapida o personagem de Damon, numa reflexão não tão ingênua assim.

Mostra SP: Singularidades de uma Rapariga Loura


A ironia fina do mestre português Manuel de Oliveira continua cativante, como prova seu último trabalho: “Singularidades de uma Rapariga Loura”. Um pequeno conto moral sobre os perigos do voyeurismo e do amor platônico. Em pouco mais de 1 hora de projeção o cineasta centenário comprova sua vitalidade criativa, e ainda acha tempo para alfinetar o materialismo do mundo contemporâneo.

A premissa da história é simples: Macário (Ricardo Trêpa) está aflito. Inquieto e ansioso dentro de um vagão de trem viajando por Portugal. Ao seu lado, uma senhora lhe aparece confiável para ouvir seu desabafo sobre sua mais recente experiência amorosa. Em flashbacks, Macário vai contando para a personagem de Leonor Silveira como desenvolveu uma verdadeira obsessão por sua vizinha de janela Luísa Vilaça (Catarina Wallenstein), a tal rapariga do título – “garota” em português de Portugal.

Adaptado de um conto homônimo de Eça de Queiroz, “Singularidades...” brinca vários momentos de misturar temporalidades. O enredo original do escritor português passa-se no final do século XIX, mas o diretor transporta a ação para os dias atuais mantendo certas convenções sociais e diálogos típicos da época em que o conto foi escrito. Uma opção que pode parecer confusa em algumas sequências, mas que dão uma graça especial ao filme.

Por exemplo, Macário trabalha como contador no armazém de seu tio Francisco (Diogo Dória), e não pode sair de casa para casar-se com Luísa sem pedir a autorização e a bênção do tio patrão (!). Em outro momento, aristocratas pedantes e ridículos, personagens frequentes na literatura de Eça, dão suas caras no filme como se recém saídos das páginas do conto original. Falando de maneira empostada e pouco natural.

Manuel de Oliveira é um artista eurocêntrico, culto e de convicções fortes. E seus filmes transparecem isso com clareza, o que às vezes pode soar como uma postura arrogante e vaidosa. Mas como o homem, junto do Oscar Niemeyer, chegou à casa dos 100 anos, já conquistou para si o direito a certos “excessos”.

Dentro do enredo de seu último filme, o diretor “inventa” um momento para homenagear o próprio Eça de Queiroz, quando Macário visita “por acaso” um memorial do autor. Em outra cena, o espectador pode ouvir por inteiro um poema de Alberto Caieiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. São momentos de respiro da trama, mas que não estão lá por acaso e o espectador mais atento pode buscar outras significações para essas sequencias. À primeira vista sem propósito, mas que enriquecem o resultado final.

Não é filme para todos os gostos. Sua narrativa lenta e os enquadramentos rigorosos podem enfadar o espectador mais ansioso. Para aqueles mais dispostos a uma atípica experiência cinematográfica é um prato cheio. Um filme sutil e brincalhão, que revela a “singularidade” da fogosa rapariga na última cena do filme. Por trás de uma boca carnuda e um corpo exuberante, pode haver uma mulher traiçoeira quando o assunto é descolar um dinheirinho extra para seu conforto pessoal.

Salve Geral


O dia em que São Paulo parou. No dia das mães de 2006, a organização criminosa PCC - Primeiro Comando da Capital - empreendeu uma série de ataques a ônibus, comércios e delegacias da capital paulistana, causando pânico e centenas de mortes. Três anos depois, “Salve Geral” relata com coragem e competência os meandros daquele domingo fatídico. O filme foi selecionado para tentar uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro e estréia dia 2 prometendo polemizar assuntos delicados.

Para conduzir o espectador nessa história, o diretor Sérgio Rezende voltou-se para um tema que lhe interessa: O amor da mãe por seu filho. Assunto de “Zuzu Angel”, seu último trabalho, sobre a busca da estilista Zuleika Angel Jones pelo corpo de seu filho assassinado pela ditadura brasileira. A mãe batalhadora da vez é Lúcia (Andréa Beltrão), que tem seu filho (Rafael) preso por um assassinato e decide fazer o possível e o impossível para aliviar sua sentença.

Lúcia é professora de piano, mas estudou Direito na juventude. Após uma revolta no presídio onde seu filho cumpre pena, conhece Ruiva, uma advogada sem escrúpulos que trabalha ativamente na organização criminosa que manda e desmanda nas prisões de todo o Estado. Ruiva promete “facilidades” ao filho de Lúcia em troca de serviços para a organização. Aflita e sem dinheiro, a personagem de Beltrão não vê outra opção senão relativizar seus valores éticos e aos poucos mergulhar na criminalidade.

Enquanto isso, Rafael (Lee Thalor) passa pelo mesmo processo. Tentando aliviar seu dia-dia no presídio, gradativamente envolve-se com a “ideologia” de resistência dos líderes do “Comando”, até tornar-se praticamente um membro da facção.

Até o final do filme, mãe e filho, cidadãos de classe média, têm suas visões de mundo totalmente transformadas. Após a noite dos ataques, os dois se reencontram mais maduros e conscientes sobre o mundo violento que os cerca. E o objetivo do diretor Rezende é mesmo esse: Fornecer ao espectador uma experiência que o faça rever seus conceitos sobre a complexa questão da violência em São Paulo, e em todo o país.

Não há mocinhos ou vilões em “Salve Geral”. Diante de um Estado corrupto e impotente, o uso da violência e a ambivalência moral caracterizam todos os personagens. “Todos nós andamos numa linha muito tênue entre o bem e o mal”, disse o diretor em coletiva à imprensa. “Somos todos humanos”, completou.

Sérgio Rezende talvez tenha feito sua melhor obra. Interessado por temas e personalidades da história brasileira, - “Lamarca”, “Guerra de Canudos”, “Mauá” - “Salve Geral” é seu filme mais sólido, dinâmico e impactante. Mesmo com o excesso de subtramas e certa irregularidade nas interpretações.

Principalmente na última meia hora, “Salve Geral” alcança status de filme de ação norte-americano, com direito a perseguições, tiroteios e reviravoltas inesperadas na trama. Por tratar de um episódio real de história brasileira recente, “Salve Geral” bate fundo no espectador. Recebendo ou não a indicação ao prêmio da Academia de Hollywood, é um filme que merece ser visto. Emociona e faz pensar.

Diretor e elenco falam de "Salve Geral"...

21 de set. de 2009

Os Normais 2


Rui e Vani atacam novamente. Seis anos depois do primeiro longa, o histérico casal vindo do seriado da tv Globo retorna com os “Normais 2 – A Noite mais Maluca de Todas”. Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres retomam os personagens que hoje já fazem parte do imaginário nacional.

O filme é uma co-produção entre a Imagem e a Globo Filmes, que nesse ano já teve ótimos resultados de bilheteria com as comédias “Divã” e “Se eu fosse você 2”. Mas a expectativa quanto ao sucesso da segunda parte de “Os Normais” nos cinemas é bem maior. Orçado em R$ 5 milhões, o longa estréia em mais de 400 salas por todo o Brasil. Um recorde em locais de exibição desde os tempos da “retomada” no início dos anos 90.

Se no primeiro filme os produtores buscaram dar um preview da história de amor entre Rui e Vani, “Normais 2” é mais pragmático e volta ao espírito anárquico e acelerado da série televisiva. Numa única madrugada, o casal corre atrás de uma mulher que tope realizar um “ménage à trois”. A idéia é apimentar o relacionamento que já dura 13 longos anos.

“Estávamos com saudades de Rui e Vani”, disse o roteirista Alexandre Machado na coletiva à imprensa realizada na última segunda, dia 24. Ao lado de sua esposa Fernanda Young, os dois formam a dupla responsável pelas piadas ditas como metralhadora pelos protagonistas. “Eles são muitos vivos pra gente”, continua Alexandre. “A gente põe eles numa situação e eles reagem sozinhos, naturalmente”.

A química entre Luiz Fernando e Fernanda Torres sempre foi ingrediente fundamental para essa “naturalidade” da série. E o desejo de somar esses dois talentos novamente pesou muito na hora de decidir pela realização de um segundo longa para os cinemas. “Somos dois velhos amigos e foi gostoso poder se encontrar de novo”, disse Fernanda.

A figura que fecha essa liga criativa é José Alvarenga Jr (“Divã”). O diretor credita a vitalidade da franquia, e suas esperanças para o sucesso do novo filme, ao “fato de a gente ter levado ao público aquilo que era inconfessável, mas de forma bem dosada”.

Bem, aí se pode começar a discordar da opinião de Alvarenga. “Normais 2 – A Noite mais Maluca de Todas” exagera na sacanagem, ultrapassando a fronteira do bom humor e flertando com a vulgaridade que remete o espectador à pornochanchada dos anos 70. Falta sutileza. Aquela espontaneidade e leveza imprescindíveis a qualquer comédia.

A fala dos atores é sempre over, o roteiro é de uma inverossimilhança ofensiva. As intermináveis “participações especiais” - que incluem Cláudia Raia, Danielle Winits e Alinne Moraes – não camuflam a banalidade de todo o projeto. Pelo contrário, deixam suas imperfeições mais à mostra.

No fundo, “Normais 2” é um episódio da série estendido para 90 minutos. Estruturado em sketchs como qualquer sitcom americano e que não cumpre seu principal objetivo: fazer rir.



Entrevista com equipe e atores: http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=3624

17 de set. de 2009

CHE


Inevitável. A figura de Che Guevara é controversa e costuma dividir opiniões. Há quem o considere um verdadeiro exemplo de luta e rebeldia, e há aquele que descarta sua história considerando-o um assassino comunista fruto dos tempo de guerra fria. O curioso é que tanto o espectador simpatizante como o crítico do mito Guevara podem vir a gostar de “Che”. O filme dirigido por Steven Soderbergh busca a imparcialidade e não opina sobre as escolhas do guerrilheiro, deixando o espectador livre para tirar suas próprias conclusões. O que à primeira vista é muito bom, mas esse anseio por neutralidade traz também alguns problemas.

O filme divide-se em duas partes. “Che - O Argentino” - já lançado em DVD - relata o encontro do futuro revolucionário com Fidel Castro e seu envolvimento na Revolução Cubana no final dos anos 1950, avançando até sua participação na conferência da ONU em 1964. Já “Che - A Guerrilha”, que estréia dia 18, foca a derradeira luta de Guevara na selva boliviana que terminou com sua morte em outubro de 1967.

O primeiro filme é vitorioso. A extraordinária tomada do poder em Cuba por um grupo que chegou a contar com apenas 12 homens. Che inicia sua participação como o médico da empreitada. Ao longo da luta, sua coragem e habilidade se ressaltam e sua importância cresce até tornar-se, junto com Castro e seu irmão Raúl (Rodrigo Santoro), um dos principais líderes da Revolução.

“Che - A Guerrilha” é o sacrifício por um ideal. Após julgar terminada sua participação na história da ilha caribenha, Che decide levar o sonho socialista para outros países latino americanos. A miserável Bolívia é escolhida, mas tudo vai contra o sucesso dessa nova luta. O partido comunista local não adere às ideias do argentino, os camponeses ouvem desconfiados o discurso ideológico do grupo rebelde. Para piorar, com medo do país virar uma nova Cuba, o governo boliviano recebe maciço auxílio militar norte-americano, fundamental para a captura de Che. Fuzilado poucos dias depois de sua prisão.

O ator porto-riquenho Benicio Del Toro - prêmio de melhor ator no Festival de Cannes - constrói seu Che com força e personalidade. Mas como a intenção do diretor é construir um relato neutro do personagem, sem idealizá-lo ou denegri-lo, tem-se um câmera distante de Guevara a maior parte do tempo. Enquadramentos que lutam contra a performance de Del Toro, mostrado quase sempre de costas e em raros close-ups.

Parece não haver cumplicidade entre direção e protagonista. Há temor e precaução para não se deixar levar emocionalmente por um personagem tão fascinante. Diferente do que se via em “Diários de Motocicleta” do brasileiro Walter Salles, que conta a primeira viagem do jovem Ernesto Guevara pela América Latina. Lá, havia mais coragem em assumir uma certa solidariedade com Che. Mesmo com o trabalho talentoso de Del Toro, no filme de Soderbergh tem-se um Che Guevara distante e pouco palpável. Perdido em meio a uma série de frases de efeito ditas ao longo do filme.

No intuito de ser fiel ao fatos e à “verdade” sobre a história de Che, Soderbergh guiou-se pela frieza e objetividade que lembra o texto jornalístico. “Che” no fundo é isso, uma grande reconstituição jornalística: clara, imparcial e que busca ver os dois lados da moeda na personalidade do guerrilheiro. Ao longo de um roteiro sem eixo, episódios sobre a vida de Guevara vão se sucedendo com pouco critério, a não ser o de mostrar tanto seus atos heróicos como seus “podres”. As diversas execuções sumárias que ordenou, por exemplo.

O resultado final é puro tédio. “Che” é um filme frio, cansativo e anticlimático. O que sobra em pretensão falta em cinema. Vale para conhecer um pouco mais sobre a vida do revolucionário, mas não mais do que isso.

26 de ago. de 2009

Teta Assustada


Típico filme que faz sucesso em festivais de cinema. O peruano “Teta Assustada” tem temática indígena e crítica social, uma combinação que costuma balançar o senso crítico dos júris. O filme conquistou o Urso de Ouro em Berlim e os prêmios de atriz (Magaly Solier), direção e melhor longa latino no Festival de Gramado. Um exagero em honrarias.

Fausta (Solier) é uma índia traumatizada e insegura. Sua mãe fora estuprada por um grupo guerrilheiro nos anos 80 e pela lenda indígena local - a teta assustada do título - o medo da violação sexual foi passado a ela na amamentação. Após a morte da mãe, Fausta passa a trabalhar na casa de Aída (Susi Sánchez). Uma mulher branca e rica que decide explorar sua nova empregada.

Essa relação entre patroa e funcionária logo nos remete à brutalidade dos tempos coloniais. Quando os espanhóis dizimaram séculos de cultura nativa.

Aída está aflita. Pianista e compositora, necessita de músicas originais para um concerto que se aproxima. Como vê Fausta cantarolando antigas melodias de sua tribo, promete a ela pérolas em troca do uso das canções. Uma promessa que logo se percebe como mentirosa. Na realidade, é apenas um jogo de chantagem do forte contra o fraco.

É bem claro o objetivo da diretora Claudia Llosa: Apresentar os problemas que a comunidade indígena peruana ainda enfrenta. Sua contínua miséria e dificuldade em consolidar uma identidade cultural. Até aí nada contra, uma causa mais que justa. O problema é o tratamento comiserativo que Llosa dá à questão. Um excesso de piedade que enfraquece seu relato. Deixando-o raso e maniqueísta. Um pouco como acontecia no “cinema novo” brasileiro, que ingenuamente idealizava o povo para demonizar a burguesia.

Outro ponto fraco é sua protagonista. Incompreensível os prêmios à performance de Magaly Solier. 1 hora de meia de pura inexpressividade. A atriz é também cantora e talvez seu canto possa realmente emocionar.

O ritmo lento e enquadramentos sem inspiração completam o tédio do espectador. Longe da ansiedade que envolve qualquer festival vê-se melhor as fraquezas desse filme superpremiado
.

21 de ago. de 2009

Verônika decide morrer


Ano passado, a Weinstein Company anunciou no Festival de Cannes que “O Alquimista” seria a primeira adaptação para cinema de um livro de Paulo Coelho. Uma produção que seria comandada por Larry Fishburne (o Morpheus de “Matrix”). Mas o tempo passou e a produção não foi para frente, deixando para “Verônika decide morrer”, que estréia nesta sexta (21), o encargo de ser o primeiro filme baseado num best seller do escritor brasileiro.

Na história roteirizada por Roberta Hanley e Larry Gross, Verônika parece ter tudo o que se pode querer. Um bom emprego, um apartamento em Nova Iorque. Mas algo lhe falta. Cansou do que para ela é uma existência banal e sem sentido. Decide então acabar com tudo; tomar uma overdose de calmantes e partir dessa para melhor.

Uma frustrada tentativa de suicídio. Verônika (Sarah Michelle Gellar, da série “Buffy”) acorda dias depois no hospital, onde fica sabendo que, por causa de uma sequela no coração, tem pouco tempo de vida. Para piorar, terá que viver confinada num instituto psiquiátrico até provar para seu médico, Dr. Blake (David Thewlis, o Remus Lupin de “Harry Potter”), que não tentará se matar novamente.

Ao conhecer o cotidiano do sanatório, Verônika relativiza seus problemas e conhece a humanidade de outros internos. Reencontra-se com a vida. Faz as pazes com o piano que tocava na infância, até apaixona-se por outro paciente, Edward (Jonathan Tucker), e com ele tentará uma fuga do instituto.

Dirigido pela inglesa Emily Young (“Kiss of life”), “Verônika decide morrer” sofre com os problemas que costumam comprometer as adaptações de livros para tela grande. Elas ficam muito presas ao diálogo dos personagens e ao enredo, esquecendo que o cinema exige outras preocupações como a atmosfera dos ambientes, o ritmo de montagem e a qualidade das interpretações. Sarah Michelle Gellar se esforça como atriz dramática, arriscando lágrimas aqui e ali, mas no todo não convence nem um pouco.

O filme tem um começo razoável, a sequência de tentativa de suicídio funciona bem e a angústia inicial de Verônica chega a comover. Mas ao longo da história perde-se essa carga de envolvimento. Lá pelas tantas, pelo excesso de momentos previsíveis e redundantes, não vemos a hora da projeção terminar.

Se a obra de Paulo Coelho é muitas vezes acusada de rasa pelos críticos, o filme não fica para trás, e abusa de simplificações para cativar o espectador. Um filme que lembra um best seller de autoajuda, não muito diferente dos livros do “mago” brasileiro.

Gigante


Uma história de amor. Simples assim. “Gigante”, filme uruguaio de Adrian Biniez estréia hoje (21) nos cinemas para falar do mais recorrente dos temas. A forma singela como é contada essa história de paixão platônica é o que faz a diferença dessa comédia dramática encantadora.

Depois de arrebatar o Urso de Prata no 59º Festival de Berlim desse ano, e levar para casa os prêmios de melhor ator (Horacio Camandule), roteiro (Biniez) e crítica no recém finalizado Festival de Gramado, o público agora tem a chance de conferir por conta própria o porquê de tanto alarido por esse filme tão pobre em recursos de produção, mas rico em observações humanas

Jara (Camandule) trabalha como segurança noturno de um supermercado. Grandalhão, fã de rock, e cara de poucos amigos. Mas percebemos aos poucos que sua falta de elegância não é proporcional à imensa simpatia como trata aqueles à sua volta, como seu sobrinho e seus colegas de trabalho.

Certa madrugada, pelas câmeras de vigilância, apaixona-se por uma das faxineiras de seu trabalho, Julia (Leonor Svarcas). Ele não sabe seu nome, se é solteira ou casada. E no fundo pouco importa. Jara, como o voyeur James Stuart de “Janela Indiscreta”, usará as lentes de uma câmera para alimentar suas (boas) obsessões. Jara, nos horário de folga, passa a seguir pela cidade seu obscuro objeto de desejo. Sempre à distância, sem nunca abordá-la.

Os olhos sem malícia de Jara nos guiam nessa busca cheia de idealização romântica. Suas interrogações são também as do espectador, gerando um benvinda cumplicidade entre público e “Gigante”. Até o final, o diretor Biniez sustenta essa parceria, potencializada por excelentes interpretações de todo o elenco, principalmente de Horacio Camandule na pele de Jara.

Não foi gratuito o prêmio em Gramado para a performance de Camandule. Seu trabalho destoa das interpretações costumeiras para o cinema. De formação teatral, seu trabalho não possui excessos em caras e bocas, mas uma naturalidade que faz de Jara um homem de carne e osso. Palpável. Alguém por quem podemos torcer e se emocionar a medida que o acompanhamos em sua jornada pela mulher amada.

Tendo como base uma premissa original e atores talentosos, para que o filme funcione, não são necessários movimentos de câmera muito sofisticados ou uma montagem que desconcerte o espectador. O diretor e o fotógrafo Araúco Hernández optaram por enquadramentos simples, diretos. O que não é sinônimo de falta de rigor, mas prioriza-se a história e sua humanidade. Mesmo que no meio da trama se encontre observações pertinentes sobre as relações de trabalho e a atual sociedade da imagem.

No supermercado, onde se passa grande parte do filme, tem-se uma clara crítica à tensão desnecessária entre funcionários e patrões. Por mais de uma vez, o coração bondoso de Jara intervêm para que a fragilidade dos empregados não seja exposta por chefes insensíveis.

Tanto no trabalho como em outros ambientes, há sempre uma câmera de vídeo vigiando tudo e todos. O primeiro e real contato amoroso entre Jara e Julia, lá pelo meio do filme, é mediado por uma dessas câmeras, hoje onipresentes, como alertava George Orwell em seu profético “1984”.

Além das comédias românticas como “A proposta” e “Marido por acaso”, há um outro tipo de cinema que fala sobre os mesmos temas; paixão, relacionamentos. E pode também emocionar e fazer rir, como é o caso de o “Gigante”.