
29 de out. de 2009
Mostra SP: "Nova York, Eu te amo"

26 de out. de 2009
Mostra SP: Bloco dos Desesperados

Imagine se o documentário brasileiro “Edifício Master” fosse transformado em ficção. Personagens anônimos, solitários, dentro de um conjugado de apartamentos minúsculos, onde a diversidade humana é assombrosa. “Bloco dos Desesperados”, do diretor Tomasz Rudzik, pode ser resumido nessa comparação. Só que ao invés de um edifício em Copacabana a dois quarteirões da praia, como era o caso no filme de Eduardo Coutinho, o prédio em questão neste singelo filme alemão localiza-se em Munique.
O espectador acompanha a vida de três moradores. Um desses moradores é Montek (Andreas Heindel), um jovem surdo e mudo apaixonado pela “garota da biblioteca”. Você já deve ter visto história parecida em alguma sessão da tarde, mas não com a peculiaridade de o protagonista do romance ser um deficiente auditivo. E é realmente inusitado e encantador os passos que esse jovem empreenderá para conquistar sua paixão.
Talvez por medo de comunicar sua condição especial logo de cara, o rapaz entrega um bilhete à moça convidando-a para passar um dia inteiro com ele, só que com uma condição: a de não pronunciar uma só palavra durante todo o dia (!). Ela topa. E depois disso vale a pena nem contar mais para não tirar a surpresa dessa história de amor.
Outro morador desse condomínio é Clara (Patricia Moga), uma católica fervorosa. Fervorosa até demais, que está numa fase de imensa angústia diante do silêncio de Deus. Como que saída de um filme do diretor sueco Ingmar Bergman, Clara decide corromper os mandamentos bíblicos só para ver se Deus continuará em seu anonimato costumeiro. A cada novo mandamento quebrado, um diferente morador do prédio é escolhido para auxiliá-la em sua via-crúcis. Mas isso sem o consentimento de ninguém. O que implica, lá pelas tantas, no quase rompimento traumático de um casal vizinho, já que Clara “precisava” de um homem que a ajudasse a contradizer o mandamento de “não adulterarás”...
O terceiro e último personagem dessas histórias que vão se entrelaçando, num bom ritmo de montagem, é Sin (Qi-Min Fei), um adolescente chinês que acaba de chegar a Berlim. Sem dinheiro, precisa dar aulas de matemática para ajudar no orçamento do mês. Uma adolescente com os hormônios à flor da pele é sua primeira aluna. Esperta e provocante, a repetente em exatas acaba brincando com os sentimentos do seu sincero, mas ingênuo, professor de matemática chinês.
Como é comum nos filmes que se estruturam com várias histórias paralelas, alguns núcleos são melhores que outros. O que provoca certa irregularidade e às vezes um excesso de simplificação na resolução das tramas. No caso de “Bloco dos Desesperados”, a história do estudante surdo e mudo é a melhor, aquela em que o público mais se identifica e torce pelo sucesso do casal. Mas o que não significa que as outras duas tramas sejam dignas de desprezo. Longe disso. Mesmo que menos envolventes, são também interessantes, com boas sacadas e ironias.
O clima leve e o tom suave predominam neste que é o quarto longa metragem de Tomasz Rudzik, mesmo quando o filme toca em assuntos mais densos como a crise de fé, a solidão e a frieza que esse tipo de condomínio costuma afligir em seus moradores. “Bloco dos Desesperados” é um filme cheio de qualidades.
Mostra SP: Ibrahim Labayad

25 de out. de 2009
Mostra de SP: À Procura de Eric
Depois de conquistar a Palma de Ouro com o denso “Ventos da Liberdade”, o diretor inglês Ken Louch conta agora uma leve história de amizade e superação em “À Procura de Eric”.
Eric (Steve Evets) é um carteiro de meia idade triste e melancólico, que deixou para traz sua vitalidade e auto-estima. Seus fiéis e divertidos amigos de trabalho tentam reanimá-lo de toda forma, mas sabem que um coração dilacerado por um amor não correspondido custa a se recompor. Eric sofre ainda por sua primeira paixão, Lily (Stephanie Bishop), mãe de sua filha que se afastou dele por causa de uma separação traumática há mais de trinta anos.
“À Procura de Eric” nasceu de um desejo do jogador aposentado trabalhar com o diretor Ken Louch (ele é um dos produtores do filme). E o que poderia virar uma história convencional e piegas ganha certa espontaneidade graças ao carisma de Cantona que, claro, não é um ator profissional, mas se vira bem interpretando a si mesmo. Quando está em cena, fumando um baseado (!) junto com Eric, acontecem os melhores momentos do filme. “Eu não sou um homem, eu sou Cantona!”, diz o ídolo ironicamente.
Apoiado por um elenco competente, “À Procura de Eric” é diversão certa. Uma fábula despretensiosa e bem humorada, mesmo que algumas vezes ameaçada pela visão de mundo de Louch, que é válida, mas que encontra melhor espaço em seus outros filmes.
Mostra SP: Oye Lucky, Lucky Oye!
. “Oye Lucky, Lucky Oye!”, pelo contrário, vem direto da fonte: Bollywood.16 de out. de 2009
Vigaristas

A milionária Penélope (Weisz) é a cobaia escolhida para a nova empreitada. Versátil, bonita e inteligente, Penélope possui um só problema: É uma mulher solitária. Ao longo do teatro representado por Bloom, apaixona-se não só por ele, mas por uma nova possibilidade de vida, regada a aventuras e perseguições, já que no plano derradeiro dos irmãos Bloom a milionária entra para a trupe de salafrários, que inclui a divertida Rinki Kikuchi (“Babel”).
“Vigaristas” diverte em muitos momentos, principalmente em razão do carisma de seu elenco estrelar. Rachel Weisz surpreende numa atuação cheia de graça e humor. Mark Ruffalo, a cada novo filme, prova que é um astro talentoso. Adrien Brody não deixa para trás seu semblante melancólico característico. Seu personagem é o eixo dramático do filme, aquele que passa por uma forte jornada existencial, lembrando seu personagem de “Viagem a Darjeeling”, filme de Wes Anderson.
2 de out. de 2009
Quanto dura o Amor?

O Desinformante!

Matt Damon é Mark Whitacre, executivo de sucesso que toma uma decisão inusitada: Denunciar os patrões. A empresa onde trabalha, a Archer Daniels Midland (ADM), realiza um cartel com empresas de várias partes do globo, nivelando os preços de seus produtos derivados do milho. Por uma crise de consciência, ou talvez para deixar sua vida burocrática um pouco mais aventuresca, Mark entra em contato com o FBI. Diz para os engravatados do governo tudo sobre as irregularidades corporativas que conhece. Mas um simples depoimento não basta para incriminar seus chefes, Whitacre terá que encarnar o agente secreto, usando os mais modernos equipamentos para isso: Microfones, câmeras escondidas, etc. Lá pelas tantas, ele passa a se intitular o “agente 0014”, porque é “duas vezes mais esperto que 007”...
Mostra SP: Singularidades de uma Rapariga Loura

Salve Geral

Diretor e elenco falam de "Salve Geral"...
21 de set. de 2009
Os Normais 2

O filme é uma co-produção entre a Imagem e a Globo Filmes, que nesse ano já teve ótimos resultados de bilheteria com as comédias “Divã” e “Se eu fosse você 2”. Mas a expectativa quanto ao sucesso da segunda parte de “Os Normais” nos cinemas é bem maior. Orçado em R$ 5 milhões, o longa estréia em mais de 400 salas por todo o Brasil. Um recorde em locais de exibição desde os tempos da “retomada” no início dos anos 90.
Se no primeiro filme os produtores buscaram dar um preview da história de amor entre Rui e Vani, “Normais 2” é mais pragmático e volta ao espírito anárquico e acelerado da série televisiva. Numa única madrugada, o casal corre atrás de uma mulher que tope realizar um “ménage à trois”. A idéia é apimentar o relacionamento que já dura 13 longos anos.
“Estávamos com saudades de Rui e Vani”, disse o roteirista Alexandre Machado na coletiva à imprensa realizada na última segunda, dia 24. Ao lado de sua esposa Fernanda Young, os dois formam a dupla responsável pelas piadas ditas como metralhadora pelos protagonistas. “Eles são muitos vivos pra gente”, continua Alexandre. “A gente põe eles numa situação e eles reagem sozinhos, naturalmente”.
A química entre Luiz Fernando e Fernanda Torres sempre foi ingrediente fundamental para essa “naturalidade” da série. E o desejo de somar esses dois talentos novamente pesou muito na hora de decidir pela realização de um segundo longa para os cinemas. “Somos dois velhos amigos e foi gostoso poder se encontrar de novo”, disse Fernanda.
A figura que fecha essa liga criativa é José Alvarenga Jr (“Divã”). O diretor credita a vitalidade da franquia, e suas esperanças para o sucesso do novo filme, ao “fato de a gente ter levado ao público aquilo que era inconfessável, mas de forma bem dosada”.
Bem, aí se pode começar a discordar da opinião de Alvarenga. “Normais 2 – A Noite mais Maluca de Todas” exagera na sacanagem, ultrapassando a fronteira do bom humor e flertando com a vulgaridade que remete o espectador à pornochanchada dos anos 70. Falta sutileza. Aquela espontaneidade e leveza imprescindíveis a qualquer comédia.
A fala dos atores é sempre over, o roteiro é de uma inverossimilhança ofensiva. As intermináveis “participações especiais” - que incluem Cláudia Raia, Danielle Winits e Alinne Moraes – não camuflam a banalidade de todo o projeto. Pelo contrário, deixam suas imperfeições mais à mostra.
No fundo, “Normais 2” é um episódio da série estendido para 90 minutos. Estruturado em sketchs como qualquer sitcom americano e que não cumpre seu principal objetivo: fazer rir.
Entrevista com equipe e atores: http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=3624
17 de set. de 2009
CHE

O filme divide-se em duas partes. “Che - O Argentino” - já lançado em DVD - relata o encontro do futuro revolucionário com Fidel Castro e seu envolvimento na Revolução Cubana no final dos anos 1950, avançando até sua participação na conferência da ONU em 1964. Já “Che - A Guerrilha”, que estréia dia 18, foca a derradeira luta de Guevara na selva boliviana que terminou com sua morte em outubro de 1967.
O primeiro filme é vitorioso. A extraordinária tomada do poder em Cuba por um grupo que chegou a contar com apenas 12 homens. Che inicia sua participação como o médico da empreitada. Ao longo da luta, sua coragem e habilidade se ressaltam e sua importância cresce até tornar-se, junto com Castro e seu irmão Raúl (Rodrigo Santoro), um dos principais líderes da Revolução.
“Che - A Guerrilha” é o sacrifício por um ideal. Após julgar terminada sua participação na história da ilha caribenha, Che decide levar o sonho socialista para outros países latino americanos. A miserável Bolívia é escolhida, mas tudo vai contra o sucesso dessa nova luta. O partido comunista local não adere às ideias do argentino, os camponeses ouvem desconfiados o discurso ideológico do grupo rebelde. Para piorar, com medo do país virar uma nova Cuba, o governo boliviano recebe maciço auxílio militar norte-americano, fundamental para a captura de Che. Fuzilado poucos dias depois de sua prisão.
O ator porto-riquenho Benicio Del Toro - prêmio de melhor ator no Festival de Cannes - constrói seu Che com força e personalidade. Mas como a intenção do diretor é construir um relato neutro do personagem, sem idealizá-lo ou denegri-lo, tem-se um câmera distante de Guevara a maior parte do tempo. Enquadramentos que lutam contra a performance de Del Toro, mostrado quase sempre de costas e em raros close-ups.
Parece não haver cumplicidade entre direção e protagonista. Há temor e precaução para não se deixar levar emocionalmente por um personagem tão fascinante. Diferente do que se via em “Diários de Motocicleta” do brasileiro Walter Salles, que conta a primeira viagem do jovem Ernesto Guevara pela América Latina. Lá, havia mais coragem em assumir uma certa solidariedade com Che. Mesmo com o trabalho talentoso de Del Toro, no filme de Soderbergh tem-se um Che Guevara distante e pouco palpável. Perdido em meio a uma série de frases de efeito ditas ao longo do filme.
No intuito de ser fiel ao fatos e à “verdade” sobre a história de Che, Soderbergh guiou-se pela frieza e objetividade que lembra o texto jornalístico. “Che” no fundo é isso, uma grande reconstituição jornalística: clara, imparcial e que busca ver os dois lados da moeda na personalidade do guerrilheiro. Ao longo de um roteiro sem eixo, episódios sobre a vida de Guevara vão se sucedendo com pouco critério, a não ser o de mostrar tanto seus atos heróicos como seus “podres”. As diversas execuções sumárias que ordenou, por exemplo.
O resultado final é puro tédio. “Che” é um filme frio, cansativo e anticlimático. O que sobra em pretensão falta em cinema. Vale para conhecer um pouco mais sobre a vida do revolucionário, mas não mais do que isso.
26 de ago. de 2009
Teta Assustada

Fausta (Solier) é uma índia traumatizada e insegura. Sua mãe fora estuprada por um grupo guerrilheiro nos anos 80 e pela lenda indígena local - a teta assustada do título - o medo da violação sexual foi passado a ela na amamentação. Após a morte da mãe, Fausta passa a trabalhar na casa de Aída (Susi Sánchez). Uma mulher branca e rica que decide explorar sua nova empregada.
Essa relação entre patroa e funcionária logo nos remete à brutalidade dos tempos coloniais. Quando os espanhóis dizimaram séculos de cultura nativa.
Aída está aflita. Pianista e compositora, necessita de músicas originais para um concerto que se aproxima. Como vê Fausta cantarolando antigas melodias de sua tribo, promete a ela pérolas em troca do uso das canções. Uma promessa que logo se percebe como mentirosa. Na realidade, é apenas um jogo de chantagem do forte contra o fraco.
É bem claro o objetivo da diretora Claudia Llosa: Apresentar os problemas que a comunidade indígena peruana ainda enfrenta. Sua contínua miséria e dificuldade em consolidar uma identidade cultural. Até aí nada contra, uma causa mais que justa. O problema é o tratamento comiserativo que Llosa dá à questão. Um excesso de piedade que enfraquece seu relato. Deixando-o raso e maniqueísta. Um pouco como acontecia no “cinema novo” brasileiro, que ingenuamente idealizava o povo para demonizar a burguesia.
Outro ponto fraco é sua protagonista. Incompreensível os prêmios à performance de Magaly Solier. 1 hora de meia de pura inexpressividade. A atriz é também cantora e talvez seu canto possa realmente emocionar.
O ritmo lento e enquadramentos sem inspiração completam o tédio do espectador. Longe da ansiedade que envolve qualquer festival vê-se melhor as fraquezas desse filme superpremiado.
21 de ago. de 2009
Verônika decide morrer

Na história roteirizada por Roberta Hanley e Larry Gross, Verônika parece ter tudo o que se pode querer. Um bom emprego, um apartamento em Nova Iorque. Mas algo lhe falta. Cansou do que para ela é uma existência banal e sem sentido. Decide então acabar com tudo; tomar uma overdose de calmantes e partir dessa para melhor.
Uma frustrada tentativa de suicídio. Verônika (Sarah Michelle Gellar, da série “Buffy”) acorda dias depois no hospital, onde fica sabendo que, por causa de uma sequela no coração, tem pouco tempo de vida. Para piorar, terá que viver confinada num instituto psiquiátrico até provar para seu médico, Dr. Blake (David Thewlis, o Remus Lupin de “Harry Potter”), que não tentará se matar novamente.
Ao conhecer o cotidiano do sanatório, Verônika relativiza seus problemas e conhece a humanidade de outros internos. Reencontra-se com a vida. Faz as pazes com o piano que tocava na infância, até apaixona-se por outro paciente, Edward (Jonathan Tucker), e com ele tentará uma fuga do instituto.
Dirigido pela inglesa Emily Young (“Kiss of life”), “Verônika decide morrer” sofre com os problemas que costumam comprometer as adaptações de livros para tela grande. Elas ficam muito presas ao diálogo dos personagens e ao enredo, esquecendo que o cinema exige outras preocupações como a atmosfera dos ambientes, o ritmo de montagem e a qualidade das interpretações. Sarah Michelle Gellar se esforça como atriz dramática, arriscando lágrimas aqui e ali, mas no todo não convence nem um pouco.
O filme tem um começo razoável, a sequência de tentativa de suicídio funciona bem e a angústia inicial de Verônica chega a comover. Mas ao longo da história perde-se essa carga de envolvimento. Lá pelas tantas, pelo excesso de momentos previsíveis e redundantes, não vemos a hora da projeção terminar.
Se a obra de Paulo Coelho é muitas vezes acusada de rasa pelos críticos, o filme não fica para trás, e abusa de simplificações para cativar o espectador. Um filme que lembra um best seller de autoajuda, não muito diferente dos livros do “mago” brasileiro.
Gigante

Uma história de amor. Simples assim. “Gigante”, filme uruguaio de Adrian Biniez estréia hoje (21) nos cinemas para falar do mais recorrente dos temas. A forma singela como é contada essa história de paixão platônica é o que faz a diferença dessa comédia dramática encantadora.
Depois de arrebatar o Urso de Prata no 59º Festival de Berlim desse ano, e levar para casa os prêmios de melhor ator (Horacio Camandule), roteiro (Biniez) e crítica no recém finalizado Festival de Gramado, o público agora tem a chance de conferir por conta própria o porquê de tanto alarido por esse filme tão pobre em recursos de produção, mas rico em observações humanas
Jara (Camandule) trabalha como segurança noturno de um supermercado. Grandalhão, fã de rock, e cara de poucos amigos. Mas percebemos aos poucos que sua falta de elegância não é proporcional à imensa simpatia como trata aqueles à sua volta, como seu sobrinho e seus colegas de trabalho.
Certa madrugada, pelas câmeras de vigilância, apaixona-se por uma das faxineiras de seu trabalho, Julia (Leonor Svarcas). Ele não sabe seu nome, se é solteira ou casada. E no fundo pouco importa. Jara, como o voyeur James Stuart de “Janela Indiscreta”, usará as lentes de uma câmera para alimentar suas (boas) obsessões. Jara, nos horário de folga, passa a seguir pela cidade seu obscuro objeto de desejo. Sempre à distância, sem nunca abordá-la.
Os olhos sem malícia de Jara nos guiam nessa busca cheia de idealização romântica. Suas interrogações são também as do espectador, gerando um benvinda cumplicidade entre público e “Gigante”. Até o final, o diretor Biniez sustenta essa parceria, potencializada por excelentes interpretações de todo o elenco, principalmente de Horacio Camandule na pele de Jara.
Não foi gratuito o prêmio em Gramado para a performance de Camandule. Seu trabalho destoa das interpretações costumeiras para o cinema. De formação teatral, seu trabalho não possui excessos em caras e bocas, mas uma naturalidade que faz de Jara um homem de carne e osso. Palpável. Alguém por quem podemos torcer e se emocionar a medida que o acompanhamos em sua jornada pela mulher amada.
Tendo como base uma premissa original e atores talentosos, para que o filme funcione, não são necessários movimentos de câmera muito sofisticados ou uma montagem que desconcerte o espectador. O diretor e o fotógrafo Araúco Hernández optaram por enquadramentos simples, diretos. O que não é sinônimo de falta de rigor, mas prioriza-se a história e sua humanidade. Mesmo que no meio da trama se encontre observações pertinentes sobre as relações de trabalho e a atual sociedade da imagem.
No supermercado, onde se passa grande parte do filme, tem-se uma clara crítica à tensão desnecessária entre funcionários e patrões. Por mais de uma vez, o coração bondoso de Jara intervêm para que a fragilidade dos empregados não seja exposta por chefes insensíveis.
Tanto no trabalho como em outros ambientes, há sempre uma câmera de vídeo vigiando tudo e todos. O primeiro e real contato amoroso entre Jara e Julia, lá pelo meio do filme, é mediado por uma dessas câmeras, hoje onipresentes, como alertava George Orwell em seu profético “1984”.
Além das comédias românticas como “A proposta” e “Marido por acaso”, há um outro tipo de cinema que fala sobre os mesmos temas; paixão, relacionamentos. E pode também emocionar e fazer rir, como é o caso de o “Gigante”.



