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2 de fev. de 2010

O Homem que Engarrafava Nuvens

O Homem que Engarrafava Nuvens não é um documentário convencional. Sim, o longa-metragem dirigido por Lírio Ferreira, assim como outros filmes recentes do gênero, focaliza a vida e obra de uma personalidade da música brasileira: Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga em clássicos do quilate de Asa Branca, Assum Preto, Paraíba, Baião e Qui Nem Jiló. Porém, mais do que relatar a história do biografado - bombardeando o espectador com datas e fatos -, esse filme encantador vai além e resgata a importância do baião para a cultura brasileira.

O longa vai estrear em 15 de janeiro, trazendo outro atrativo: a atriz Denise Dumont, filha do compositor, e quem produz, narra e guia o espectador nesse mergulho na vida do poeta, político (deputado federal pelo Ceará) e pai Humberto Teixeira.

"Na jornada em busca do meu pai, descobri o Brasil, o Nordeste, as raízes da obra dele, e vi que essas raízes continuam vivas", diz Denise. "Agora, sinto ainda mais orgulho do meu pai e do meu País."

Humberto Cavalcanti Teixeira nasceu em Iguatu, Ceará, em janeiro de 1916, e muito cedo destacou-se pela sensibilidade musical. Aos seis anos, dava seus primeiros passos na musette - versão francesa da gaita de foles. Seu tio, Lafaiete Teixeira, era maestro e foi o responsável por guiar Humberto também na execução da flauta e do bandolim. Aos 13, o garoto editou sua primeira composição: Miss Hermengarda, homenagem a uma concorrente de um dos primeiros concursos de beleza do Ceará. Dois anos depois, Humberto já estava morando no Rio de Janeiro.

Em 1943, equilibrava o ofício de advogado com o de compositor de marchas, sambas, xotes, sambas-canção e toadas. Dois anos depois, deu a guinada definitiva: encontrou-se com Luiz Gonzaga. Era o início de uma união que revolucionou a música brasileira.

"Naquele mesmo dia em que nos conhecemos, eu e Luiz Gonzaga 'sanfonizamos' os primeiros acordes e a linha mestra, não só de Baião, mas também de Asa Branca", lembrou Teixeira, em depoimento incluído no documentário. "Asa Branca tornou-se um hino que diz respeito a muitos brasileiros. Quando nós a gravamos pela primeira vez, muitos pensaram que era uma espécie de música de igreja ou de cego. Não acreditavam jamais que um ritmo como o de Asa Branca e uma letra triste e enternecida como aquela pudessem alcançar o sucesso que teve."




No dia 3 de março de 1947, em estúdio da RCA Victor, Asa Branca foi finalmente gravada, tornando-se trilha sonora sentimental para a imensa legião de nordestinos que fugiam da terra ardente do sertão.

A partir de Asa Branca, Luiz Gonzaga tornou-se uma grande estrela. Seu parceiro, no entanto, ficou em segundo plano nos compêndios da história. "Todo o mundo conhece Asa Branca, mas poucos sabem que meu pai foi um dos compositores", reclama Denise. "Percebi que meus filhos não sabiam quem foi Humberto Teixeira. Fazer o longa-metragem seria uma forma de preencher essa lacuna. No decorrer das filmagens, percebi que ficar em segundo plano, atrás da escrivaninha, era uma opção dele. Mas vi nessa atitude mais um impulso para trazer sua obra e vida para o primeiro plano."

Denise Bittencourt Teixeira nasceu em 1955, no Rio de Janeiro. Desde criança sonhava em ser atriz. Na mentalidade machista de Humberto, no entanto, essa profissão não cabia a uma mulher de respeito. Contra a vontade do pai, rebelde e destemida, Denise começou no teatro amador e cursou o Tablado, de Maria Clara Machado. Em 1973, fez sua estreia na televisão, na novela O Semideus, de Janete Clair. Proibida pelo pai de usar o sobrenome Teixeira, foi rebatizada Denise Dumont por Daniel Filho e Walter Avancini, da Rede Globo.

No cinema, teve a oportunidade de trabalhar com cineastas do porte de Walter Hugo Khouri em Eros, o Deus do Amor e Hector Babenco, em O Beijo da Mulher Aranha. Filmou até com Woody Allen. Em A Era do Rádio, aparece rapidamente cantando Tico-tico no Fubá à la Carmen Miranda.

O Homem que Engarrafava Nuvens teve longa gestação. "O filme começou a nascer em conversas com a Ana Jobim." Nesses encontros com a viúva de Tom Jobim, Denise impressionou-se com a dedicação despendida por Ana para preservar o legado do compositor de Águas de Março.

"Depois de uma dessas conversas, falei sobre o projeto com o meu marido, Matthew Chapman (co-produtor do filme). Ele topou na hora e me deu US$ 5 mil para começar a tocar o filme. Depois, fui bater na porta de meu amigo Daniel Filho e as coisas foram caminhando."

A rigor, a produção se estendeu por dez anos. Em associação com a produtora de Daniel Filho (a Lereby) e a Total Entertainment, Denise foi juntado recursos para conhecer com afinco o Brasil que inspirou a obra de seu pai. Viajou com o diretor e a equipe para o sertão do Cariri, interior do Ceará, e passou, pela primeira vez, por Iguatu, Exu (cidade natal de Luiz Gonzaga), Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha.

Para reger a execução do projeto e precaver-se de realizar um filme chapa branca, Denise precisava de um maestro adequado. "Minha comadre, a atriz Leandra Leal, disse que tinha o nome certo para dirigir o filme." Era o cineasta pernambucano Lírio Ferreira, premiado por Baile Perfumado e Árido Movie.

Realizar uma biografia de um compositor brasileiro não seria novidade para o diretor. Em 2006, em parceria com Hilton Lacerda, ele assinou o documentário Cartola - Música para os Olhos, sobre o refinado sambista da Mangueira. Lírio adorou a ideia. "Foi uma feliz coincidência", diz. "Depois de me enfronhar no samba, pude saber mais sobre o baião. São os dois principais ritmos da nossa cultura musical. O projeto é muito rico e complexo. Fiz um filme sobre o Teixeira, o baião e, também, a busca da Denise. Ao longo das filmagens, ele acabou se tornando também personagem. Não foi uma decisão prévia, não. A Denise pediu para fazer algumas entrevistas, e a câmera foi gostando dela. No processo de montagem, percebemos definitivamente que O Homem que Engarrafava Nuvens era também sobre a jornada de Denise."

Embora nordestino, Lírio confessa que "não tinha ideia da dimensão da obra" do compositor cearense. Tal como havia feito ao retratar o universo de Cartola, também foi buscar imagens que, a seu ver, representam o mundo de Teixeira. Cenas de vaqueiros do agreste e de jangadeiros estão no filme. Assim como interpretações de músicas do compositor, a cargo de grandes nomes. Gal Costa e Sivuca, por exemplo, dão conta de Maria Fulô.

Certa vez, Humberto, que morreu em 1979, aos 64 anos, resumiu: "Sou o Doutor do Baião. Quebrando rotinas e cânones, imprimi novos rumos à seresta nacional. Com o baião, fincou-se um novo marco na evolução da música popular brasileira".

Já no final da vida, questionado se não era demasiada a reclusão em sua casa do bairro de São Conrado, na Zona Sul, no Rio de Janeiro, ele respondeu que estava com a filha, engarrafando nuvens.
Revista Brasileiros Ed.30 - janeiro/2010

21 de dez. de 2009

A Vida Íntima de Pippa Lee


Ao 50 anos, Pippa Lee possui uma vida confortável. Casa, família e as finanças em ordem. Mas algo lhe falta. Uma insatisfação difícil de esclarecer, o que lhe faz rememorar episódios de sua infância e juventude. Essa é a premissa do morno “A Vida Íntima Pippa Lee”, filme escrito e dirigido por Rebecca Miller e estrelado por Robin Wright Penn (“Forrest Gump”).

Filmes sobre crises existenciais são frequentes. Seja o clássico “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman ou a comédia “Motoqueiros Selvagens”. O tema está sempre em cartaz. Normalmente, o filme começa com o esclarecimento da crise, elucida as razões para o conflito e suas consequências, para depois o protagonista lutar por melhores dias. Ou seja, por ressurreição. Neste “A Vida Íntima...” não é diferente.

Após mudar-se de Nova York para um ambiente mais tranquilo, Pippa começa a desconfiar de si mesma. De seu tom de voz, de seu casamento, etc. Flashbacks começam a esclarecer o espectador sobre seu percurso de vida. Sua mãe foi uma viciada em medicamentos, o que a fez sair de casa precocemente. Na mocidade, envolveu-se com drogas e companhias duvidosas.

Pippa lembra-se que foi “salva” ao conhecer Herb (Alan Arkin). 30 anos mais velho, editor de livros de sucesso que lhe ofereceu a segurança de um casamento convencional. A partir da união, Pippa reconhece que reprimiu muito de si em favor do esposo e dos filhos. A possibilidade de um novo romance com o filho de uma vizinha, interpretado por Keanu Reeves, e a descoberta da infidelidade do marido a ajudam em sua superação e jornada de autoconhecimento.

A narrativa lenta e a montagem redundante não ajudam muito na fruição do filme. O elenco é bom e pode trazer certo alento. Além da talentosa Robin Wright e de seu parceiro de cena Alan Arkin, “A Vida Íntima Pippa Lee” conta com pequenas participações de Winona Ryder, Julianne Moore e Monica Bellucci. Mas o resultado final é monótono e pouco envolvente.

18 de dez. de 2009

Avatar




Ver “Avatar” é uma experiência fascinante, única. Logo nos primeiros minutos de filme o espectador já se dá conta do olhar visionário de Cameron. O filme estreia em 612 salas em todo o País - 500 em 35 mm, 110 em 3D e duas IMAX. É bom que o leitor opte pagar um pouco mais caro para curtir o filme nas salas de três dimensões. Não há como se arrepender.

O filme é deslumbrante como experiência visual, mesmo que force a barra com rasos discursos ecológicos e abuse dos clichês narrativos. Mas já era de se esperar. O diretor de “Titanic”, “O Segredo do Abismo” e “O Exterminador do Futuro” estoura orçamentos para dar vida ao seu imaginário, por isso compensa exagerando em romantismo e maniqueísmo para que seu filme fale a todos os tipo de público.

12 anos depois do fenômeno “Titanic”, Cameron volta à ampliar as fronteiras tecnológicas do cinema, quebrando todos os recordes de orçamento – especula-se que o filme custou entre US$ 380 e US$ 500 milhões – para dar realidade a um mundo fascinante, além da imaginação, como não se via nas telas desde a trilogia “O Senhor dos Anéis”.

O ano é 2154. O planeta Terra encontra na lua de Pandora um mineral raríssimo (“unobtainium”) que pode solucionar os problemas de falta de energia. O problema do governo americano e dos empresários é que a comunidade nativa, os Na’vis, não estão nem um pouco interessados em ver suas terras sagradas serem devastadas por interesses mercadológicos.

Na tentativa de estabelecer um melhor contato com os nativos, é criado o Avatar do título. Trata-se de uma mistura de DNA humano com o dos Na’vis, criaturas com mais três metros de altura, corpo azul e olhos dourados. O fuzileiro naval Jake Scully (o musculoso Sam Worthinghton) é um dos escolhidos para viver “dentro” desses corpos. Mas o que deveria ser uma missão militar transforma-se numa jornada de transformação de consciência. Em sua primeira descida à Pandora, Jake perde-se de seu grupo e tem a oportunidade de conhecer a fundo a cultura e mitologia dos Na’vis.

Naityri (Zoe Saldanha) é a fêmea que guia Jake em seu aprendizado. Filha do líder da tribo, ensina-o a dominar seu corpo, a caçar e, principalmente, compreender a relação simbiôntica que seu povo tem com a floresta que os cerca. Assim como Kevin Costner em “Dança com Lobos”, Jake fará da cultura alheia a sua própria, renegando seus vícios antigos em troca de harmonia interior e a paixão pela bela Naityri.

“Avatar” sugere muitas leituras. A mais imediata remete ao imperialismo norte americano. “Terror luta-se com o terror”, diz um truculento general antes da última investida contra os Na’vis. Quem está no centro das decisões sobre o destino da comunidade de Pandora não gasta tempo compreendendo suas razões e especificidades. Ignorância e preconceito regem suas ações assim como foram os anos Bush.

Um filme suntuoso, envolvente mais pelo seu visual do que seu “conteúdo”. Mas que entrará para a história como um marco no desenvolvimentos de efeitos especiais e o cinema 3D. James Cameron deixou claro em entrevistas que pretende continuar fazendo filmes usando a tecnologia. Agora é esperar se demorará mais 12 anos para a estreia de seu novo projeto.

17 de dez. de 2009

Sinédoque Nova York - DVD


Charlie Kaufman é um roteirista brilhante. Responsável pelo texto de filmes excepcionais como “Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”. “Sinédoque Nova York” é sua primeira experiência na direção. Um drama psicológico profundo e onírico. Philip Seymour Hoffman é Caden Cotard, um dramaturgo que passa décadas escrevendo e reescrevendo uma peça em que tenta compreender a própria vida. Suas frustrações amorosas e existenciais. Caden tem um casamento frustrado com uma artista plástica (Catherine Keener). Ela o abandona e leva junto a filha do casal, Olive. A perda da família é o estopim para seu mergulho autodestrutivo como homem e artista. Até que ponto pode ir um artista na busca de si mesmo? Que filme ou peça de teatro pode comunicar toda a tragédia humana? Essas são as questões centrais do criativo Kaufman. O diretor desenvolve essa jornada existencial misturando sonho e realidade, vida e criação. Um filme ambicioso, com momentos intensos, mesmo que irregular.


15 de dez. de 2009

Katyn - DVD


No ano de 1940, a Polônia sofria a invasão tanto dos nazistas como dos soviéticos. Na floresta de Katyn, 15 mil soldados poloneses foram executados com um tiro na nuca pelo exército de Stálin. Esse trauma nacional é o foco do último filme do grande cineasta polonês Andrzej Wajda (“Cinzas e Diamantes”). Diferentes personagens sofrem as consequências do massacre, a esposa de um dos oficias executados, sua filha e outros. Não há, portanto, um protagonista, senão a própria Polônia e sua história. Assim como “Sunshine” de Istvan Szabó, que contava a história da Hungria através de várias gerações. “Katyn”, porém, não se perde em sua ousadia. Por duas horas mantém seu ritmo e eloquência. A história da Polônia foi determinada pelo triste episódio, já que o governo comunista, que dominou o país após a Segunda Guerra, justificou sua ocupação culpando os nazistas pelas mortes em Katyn. Wajda elucida fatos, usa o cinema para reescrever a história de seu país. Belo filme.


14 de dez. de 2009

A Culpa é do Fidel - DVD


Os conturbados anos 70 vistos pelos olhos de uma garota de 9 anos. Essa é a premissa do ótimo filme de estréia de Julie Gavras (filha de Costa-Gavras). Os pais da pequena Anna (Nina Kervel-Bey) cooperam com as causas de esquerda da época, como a eleição de Salvador Allende e a luta feminista. Homens barbudos e mulheres engajadas começam a frequentar a casa e as concepções de mundo da pequena Anna vão se transformando ao longo do filme. Tudo com a inocência e sabedoria do olhar infantil. Leve e com boas sacadas, “A Culpa é do Fidel” dá um prisma bem humorado sobre um período de radicalização política e transformação cultural. Adaptado livremente do romance “Tutta Colpa di Fidel”, da jornalista italiana Domitilla Calamai que, assim como a diretora Julie Gavras, cresceu num lar de pais comunistas.

9 de dez. de 2009

Procedimento Operacional Padrão - DVD


Depois de conquistar o Oscar com “Sob a Névoa da Guerra”, o documentarista Errol Morris disseca as torturas de soldados americanos contra iraquianos, ocorridas no complexo de Abu Ghraib. Morris faz um cinema investigativo, e vai atrás de todas as provas possíveis para atestar seus pontos de vista. Em “Procedimento Operacional Padrão” o diretor fundamenta seus argumentos a partir das infinitas fotografias que os soldados americanos tiraram de seus atos de barbárie. E que acabaram vazando na internet. Junto com depoimentos dos envolvidos e reconstituições, tem-se um filme contundente e necessário. Mesmo que às vezes artificioso e redundante. Morris comprova que as torturas contra soldados e civis iraquianos não ocorreram por causa de algumas “maçãs podres” do exército americano. Na verdade, toda a instituição militar dos Estados Unidos, de alto a baixo, segue um brutal padrão de conduta e moral.

8 de dez. de 2009

A Questão Humana - DVD


Será que é possível relacionar os atuais métodos de gerenciamento das grandes corporações com as técnicas de extermínio do regime nazista? Nicolas Klotz, diretor de “A Questão Humana”, acredita que sim. Mathieu Almalric (“O Escafandro e a Borboleta”) é Simon, funcionário de uma gigante petroquímica que recebe uma delicada tarefa: Investigar a sanidade de um dos fundadores da empresa, interpretado por Michael Lonsdale (“Munique”). Quanto mais fundo Simon vai em suas investigações, mais sombrio vai ficando a atmosfera do filme e a gravidade de suas descobertas. Baseado no romance homônimo de François Emmanuel, o filme de Klotz desconcerta com sua construção intrigante, que dá pistas, pouco mostra, mas muito provoca. O filme conquistou o prêmio da crítica na 31º. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

7 de dez. de 2009

500 Dias com Ela


Gostei demais. Comédia romântica é gênero que não anda bem das pernas. Clichês e falta de graça predominam nas produções recentes. "500 Dias com Ela" é diferente. Não chega a subverter o gênero, mas traz originalidade, humor e frescor.

Joseph Gordon-Levitt vive Tom, que se apaixona por Summer, sua colega de trabalho intrepretada pela graciosa Zooey Deschanel. O filme é construído de maneira muito livre, não linear, a partir das digressões de Tom, que revisa em flashbacks seu relacionamento que... não teve final feliz. Assim como em "Annie Hall" de Woddy Allen. Aliás, uma referência assumida e muito bem vinda ao filme dirigido pelo estreante Marc Webb.

Os atores mandam muito bem. A trilha é ótima. Vale o ingresso.

29 de nov. de 2009

Julie & Julia


Julie Powel e Julia Child. Duas mulheres passionais que encontram na arte da culinária o sentido para suas vidas. Separadas por mais de 40 anos de história, “Julie & Julia” intercala façanhas dessas duas mulheres que mais do que um emprego razoável, ou um casamento feliz, queriam aprimorar no fogão receitas gastronômicas de deixar o espectador com água na boca.

O sonho de Julie (Amy Adams, de “Encantada”) era tornar-se escritora, mas por falta de confiança e planejamento não conseguiu terminar seu primeiro romance. Frustrada, muda-se com seu marido (Chris Messina) para um apartamento minúsculo no Brooklin. Para piorar, vai trabalhar num outro cubículo ouvindo reclamações quanto ao seguro de saúde para os afetados pelos ataques de 11 de Setembro.

Tentando dar uma sacudida em sua vida, Julie cria um blog para compartilhar com internautas uma ousada missão pessoal: Refazer em um ano todas as 524 (!) receitas de “Mastering the Art of French Cooking”, bíblia de receitas escrito por Julia Child (Meryl Streep) no início dos anos 60.

Entre os dilemas de Julie na cozinha nos anos 2000, “Julie & Julia” conta em paralelo a história da expansiva Julia Child, desde sua chegada em Paris em 1949. Child revolucionou a culinária norte-americana com uma série de livros e programas de televisão que fizeram imenso sucesso nas telas dos Estados Unidos. A maioria dos flashbacks detém-se em sua luta para publicar seu primeiro livro de receitas e em pequenas crônicas sobre seu feliz casamento com Paul Child (Stanley Tucci).

Meryl Streep, atestando que é uma das maiores de seu tempo, cria uma Julia Child cheia de graça e humor. O sotaque, as expressões, tudo sem excessos que poderiam beirar a caricatura. O leitor pode procurar no YouTube pelos programas da verdadeira Julia e fazer a comparação. Meryl deve mais uma vez bater cartão como uma das indicadas ao Oscar.

A diretora e roteirista Nora Ephron (“A Feiticeira”) baseou-se em dois livros para construir o projeto: “My Life in France”, de Julia Child e “Julie & Julia”, de Powel, livro escrito graças ao sucesso de público de seu blog. A idéia é boa, mas o filme sofre com as idas e vindas no tempo. Faltou um roteiro mais enxuto e melhor estruturado. As sequencias com Julia/Streep são muito melhores que todo o enredo contemporâneo, comprometido pela falta de carisma e química do casal principal.

28 de nov. de 2009

Bastardos Inglórios


Eu e mais uma dupla de amigos formamos a panela tímida daqueles que não se apaixonaram incondicionalmente pelo último filme de Quentin Tarantino.

Tarantino filma bem à beça. Não dá para negar. O rigor dos enquadramentos, o ritmo interno das sequencias. O diretor de “Cães de Aluguel” é cineasta de personalidade, sem dúvida. Mas “Bastardos Inglórios” me parece ter os mesmos problemas que “Pulp Fiction”: Forma sem conteúdo, virtuosismo cinematográfico sem substância.

“Bastardos Inglórios” pode ter momentos engraçados. Mas o quê mais? Tarantino não alcança o potencial dramático que tinha “Kill Bill”. Este, também com seu bom humor e excesso de referências, consegue, à sua maneira, pensar sobre relacionamentos, maternidade, vingança. Muito mais filme, o melhor do diretor.
“Bastardos” está bem longe de ser “obra de gênio”. Além disso, banaliza a violência de maneira incômoda e preocupante, considerando a reação da platéia em muitos momentos.

9 de nov. de 2009

Anselmo Duarte (1920 - 2009)


Morreu no fim de semana que passou o ator e cineasta Anselmo Duarte. Há dois, três anos, estava muito decidido a fazer um filme sobre ele. Juntei amigos, pesquisei, recebi autorização do filho para filmá-lo, mas acabei abandonando o projeto. Depois de ler seu depoimento em livro para o Luiz Carlos Merten, do Estadão, tive compaixão por sua trajetória de galã para ganhador da Palma de Ouro, para depois diretor frustrado e amargurado por uma vida que não teve. Abandonei o projeto, hoje lembrando, provavelmente por imaturidade. Mas valeu pela oportunidade de em alguns meses mergulhar fundo em sua filmografia.
Anselmo Duarte não foi grande, mas foi um bom diretor. “O pagador de promessas”, o filme que lhe valeu o prêmio em Cannes continua vigoroso. Atores competentes, e uma direção segura, mesmo que convencional. Tem ritmo e a cena final bate fundo.
Anselmo foi muito malhado pela crítica e pelos cineastas do Cinema Novo. Estou lendo as cartas que mandou e recebeu Glauber Rocha – “Cartas ao Mundo” – e uma carta de Walter Lima Jr. para o vulcão bainao esnoba a figura de Anselmo sem misericódia, quando relata um encontro que teve com o ex-galã da Vera Cruz. Ironiza sua falta de cultura, modo de falar, etc. Bem, frutos da estupidez que também marcou os anos 60... Com seu maniqueísmo mesquinho.
“Vereda da Salvação”, que vi muitas vezes, é seu melhor filme. E indico para quem quiser ir atrás. Planos sequencias, uma forte interpretação de Raul Cortez no papel de um fanático religioso. Merece revisão pela crítica e público. Espero que saia logo menos em DVD.
Anselmo foi um dos homens mais amargurados que já apertei a mão. Um poço de ressentimentos. Era alegre, mas ferido. Brincalhão, mas estampava no rosto os versos de Manuel Bandeira: “A vida que poderia ter sido e que não foi”.

mais sobre Anselmo Duarte:
http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=8967

6 de nov. de 2009

Santoro e diretores amam Phillip Morris


entrevista com Santoro e diretores....

Mostra SP: I Love You Phillip Morris

Uma história de amor como você nunca viu antes. “I Love You Phillip Morris” é uma comédia sobre um casal gay formado por ninguém menos que Jim Carrey e Ewan McGregor.
Carrey é Steven Russel, um típico americano de classe média que preenche todos os requisitos do sonho americano: tem casa com cerca branca, filhos e um trabalho ideal. Desde criança, sabe que deve buscar a felicidade a qualquer preço. Custe o que custar. Após um acidente de carro que quase lhe tira a vida, Steven toma a decisão fatídica de sua vida: Sair do armário. Em sua cama de hospital, toma consciência de que deve ser verdadeiro consigo mesmo para alcançar plena satisfação e ser feliz de uma vez por todas.
Só que em plenos anos 80, quando a história se passa, já era caro ser um gay de gostos sofisticados, com direito a hotéis 5 estrelas, viagens pelo mundo e carros de luxo. Para sustentar seu novo estilo de vida, o personagem de Carrey decide virar um vigarista. Falsificando cartões, forjando acidentes em supermercados em busca de ressarcimento... Só que seus esquemas são descobertos e ele vai preso. Lá conhece o delicado Phillip Morris (McGregor). Depois de uma conversa olho no olho na biblioteca da cadeia, os dois se apaixonam loucamente.
Para viver essa paixão, Steven terá que abrir mão de um antigo amor: Jimmy, personagem do brasileiro Rodrigo Santoro. O galã faz um papel pequeno, mas de grande importância para o desenvolvimento da trama. Depois de estar bem presente na primeira hora de filme, desaparece quando entra a figura de Morris, mas reaparece na história com força quando está no estágio terminal de luta contra AIDS.
“I Love You Phillip Morris” é uma comédia com momentos hilários, mas como dá para notar com os rumos do personagem de Santoro, o filme escrito e dirigido por Glenn Ficarra e John Requa vai da comédia ao drama o tempo todo. Do choro ao riso para contar essa inusitada história de amor que, surpreendentemente, é baseada em fatos reais. “I love you Phillip Morris: a true story of life, love, and prison breaks” de Steve Mcvicker, foi a base para o roteiro da dupla de cineastas.O espectador logo percebe as imensas “licenças poéticas” para reinvenção do livro para a tela grande. Mas o verdadeiro Steven Russel realmente se passou por advogado, juiz, e diretor corporativo seja para cobrir seus gastos, seja para lutar pela libertação de seu amado Morris, que continua na prisão depois que Steven ganha liberdade.
Diferente de dramas como “Filadélfia”, e mais parecido com o tom de “Será que ele é?”, “I Love You Phillip Morris” funciona como comédia dramática despretensiosa, e se afasta da tola tentativa de fazer de seu filme instrumento para a “causa gay”, ou algo do gênero.

Mostra SP: Cinzas e Sangue


A musa do cinema francês Fanny Ardant vai para trás das câmeras e estréia na direção com “Cinzas e Sangue”. Filme sobre lutas de famílias rivais na Romênia.

Logo de início, um forte prólogo. Numa praia deserta um pai é assassinado na frente de seus filhos. Na fotografia da sequencia, um predomínio do acinzentado, logo contraposto ao vermelho sangue do homem baleado. Uma cena de impacto que sugere o que virá dali em diante: uma trágica história familiar regada a ódio, sangue e fantasmas do passado.

Ao longo da narrativa, sabe-se que o pai em questão era o esposo de Judith (Ronit Ekabetz), mãe de três filhos, que vive em Marselha. A família recebe um convite para um casamento de um parente que ainda vive na Romênia, sua terra natal. A mãe reluta em ir, os filhos insistem. Há tensão entre os quatro porque Judith não deixa claro suas razões para temer voltar à casa dos pais. Eles acabam indo, e lá uma série de segredos vai sendo revelada. Entende-se toda uma cultura de vingança e violência entre famílias rivais que disputam terras há décadas.

“Cinzas e Sangue” faz lembrar muito o brasileiro “Abril Despedaçado”, que também era sobre dívidas de sangue e honra entre clãs rivais. Mas a estréia da viúva de François Truffaut não chega nem perto da força e beleza do filme de Walter Salles.

Sendo seu primeiro trabalho, é até compreensível certa irregularidade em “Cinzas e Sangue”. Fanny Ardant tem nas mãos uma história interessante e uma complexa personagem feminina - Judith. Mas faltou maturidade para que seu filme alcançasse vôos mais altos.

O roteiro deixa pontos vagos e perde o foco em subtramas irrelevantes. Alguns atores convencem, outros se limitam a caras e bocas. Para o clímax, “Cinzas e Sangue” apela para artifícios simplistas que comprometem sua verossimilhança. No todo, um filme decepcionante.